alexandre bobeda

Insights do futuro sobre a vida online, offline e digital.

Alexandre Bobeda

© Alexandre Bobeda - Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução em outros sites sem autorização do autor

Hello, World!

Viver uma nova vida, depois de vários anos e várias escolhas que criam laços e opções não é tão simples. Mesmo com toda tecnologia disponível

IMG_0244.JPG

Estou no apartamento dos outros em Nova York, bem no meio da rua 15. Um que eu aluguei, claro, antes de sair do Rio de Janeiro, antes de entrar no avião e chegar nesta cidade. Eu o achei pela internet, no Airbnb, sem nem ao menos ver a cara do dono. Agora estou aqui, sozinho pela primeira vez em quase oito anos. Sozinho, ainda, e olhando pela janela o horizonte sul de Manhattan, vendo surgir novos arranha-céus bem ao fundo. Um novo WTC. Divagações à parte, mesmo com todo apoio e facilidade da tecnologia (se não fosse assim, talvez eu nem estivesse aqui), em cada momento da vida, somos nós que facilitamos  —  ou não  —  os acontecimentos ao redor.

E lembrar que, três meses atrás, minha vida estava fluindo tranquila, mas de outra maneira, como um roteiro daquelas comédias românticas standard, quase perfeitas: uma bela casa, uma bela esposa, um carro caro e novo na garagem, um Golden Retriever para alegrar o fim do dia. Eu tinha um emprego que eu achava que era o melhor, naquela que eu poderia me orgulhar de ser a melhor empresa do mercado. Vivia numa cidade que não havia escolhido para viver apenas porque havia nascido nela, mas que seria, sem dúvida alguma, a cidade que escolheria para morar até quando pudesse, se tivesse que escolher, algum dia.

A verdade é que dificilmente a vida de alguém se desenrola exatamente da forma que se pensa. Até podemos fazer planos, imaginar os próximos passos, organizar ideias, mas parece que as vidas se revelam à sua própria maneira, num percurso contínuo e muitas vezes surpreendente. Assim, primeiro eu entendi que meu emprego não era o emprego correto. Depois, que minha cidade não era a cidade certa. Duas correntes a menos a me prender  —  existem outros empregos, outras cidades. Eu vendi o apartamento (anunciado num classificado da internet) e pedi demissão, nada mais direto.

Um presente com laço de arame farpado

Foi então que, há cerca de um mês, aquela pessoa com quem eu pensava que passaria o resto de minha vida, voltou de uma tarde de conversas e gargalhadas com amigos num restaurante que frequentávamos e no qual sempre estávamos jantando às sextas-feiras. “Queria conversar com você”, ela disse. Isso, definitivamente, nunca é bom. É o tipo de suspense que nem mesmo Hitchcock conseguira alcançar. “É que não consigo mais viver isso…”, ouvi dela mais tarde. E arrematou com “Nós somos muito diferentes um do outro, você sabe”. Dito e feito, outra corrente quebrada, subitamente, meio que de surpresa.

Isso foi num sábado à noite. Era uma via de mão única, sem retorno, sem paradas. Na terça-feira seguinte estávamos diante do advogado, adiantando a papelada e ajustando e finalizando os termos em comum acordo. A justiça se move rapidamente quando não há filhos envolvidos, nem desavenças sobre quem vai ficar com o quê. Acompanhei o andamento do processo via web, na tela do MacBook Pro. Quando precisei, acessei da rua o site do TJ, pelo iPhone, sem problema algum. Quando receber o último email do site, informando da finalização do processo, pode ser que eu o leia, inclusive, do próprio celular ou até do iPad. Mas onde quer que eu esteja, vou lembrar mesmo é de clicar em “Arquivar” assim que terminar de ler, respirar fundo e fechar os olhos.

As quatro semanas seguintes desapareceram rápida e dolorosamente como se fossem um fim de semana quando você pega uma gripe daquelas, de arrasar. Olhando pela janela, para mim o céu estava cinza, mesmo com todo o azul e o sol brilhante. Mesmo que o app do Weather Channel no iPad insista em querer me provar o contrário. Eu tirei uns dias de folga longe da cidade enquanto ela fazia sua mudança e deixava a casa. Família e amigos mais próximos fizeram o melhor para tentar me consolar e tranquilizar, já que o luto e a tristeza, em seus vários estágios, tomaram conta de mim, embora totalmente fora de ordem. Segundo uma psiquiatra suíça, a “aceitação” é o último desses estágios e não demorou tanto assim para que eu entendesse que o desfecho dessa situação era o melhor possível. Afinal, nada, nunca, é por acaso. Mesmo que pareça um belo presente com um laço de arame farpado. Só confesso que eu desejei que queria ter visto esse “presente” ter sido embrulhado.

Novas impressões para velhas memórias

Tudo muito mais assentado, voltei então à cidade que praticamente já não era mais nossa cidade; voltei à casa que também não era mais a nossa. Embalei todas as minhas coisas que havia deixado e mandei guardar os móveis e eletrodomésticos maiores em um armazém. Por fim, vendi meu carro. Eu poderia até mesmo ficar no apartamento, mas achei melhor não fazer isto. Cada coisa em seu lugar, cada tempo à sua respectiva memória e a vida segue. No fundo, aquela cidade era nossa vida juntos, por mais que tenha durado apenas alguns anos. No total, foi um pouco mais de seis, sendo que desses, só por dois anos vivemos como casados. Éramos casados. Nós compramos aquele apartamento um pouco antes do casamento e nos mudamos logo depois da lua de mel, que foi em Barcelona. Mas a verdade é que tenho (temos?) vários casais de amigos que estão (ou foram) casados por muito mais tempo do que todo aquele de nosso relacionamento inteiro. Claro que eu nem imaginava isso, que seria tudo isso, que inclusive casaríamos, mas aconteceu e foi por alguma razão da vida. Vá entender esta vida. Ainda sinto algo estranho com essas memórias. Falta “me acostumar” com a nova condição, a nova vida, com o mundo. Falta tentar não olhar para trás. Pausa.

Antes de tocar adiante, foi necessário finalizar também a vida virtual, online. E não me refiro apenas ao status do Facebook: existem fotos para desmarcar, emails e SMS para apagar, desfazer a amizade com várias pessoas. É necessário desatar todos os nós da rede social.

De alguma maneira, cada relacionamento hoje em dia existe nesses dois níveis, o real e o virtual. Os momentos que passamos na companhia de outra pessoa, a neuroquímica louca da proximidade e a comunhão do silêncio compartilhado; estes são reais. Mas, assim como os lugares físicos agora têm suas posições geolocalizadas, cada relação também carrega suas sombras digitais  —  que, dependendo das pessoas envolvidas, podem ser maiores do que elas próprias. E como nós vivemos cada vez mais num meio que registra a nossa “vida social”, a individualidade e os relacionamentos passam a ser quase uma coisa só.

Ainda a respeito disso, o cientista norte-americano Jaron Lanier propôs, em seu livro “You Are Not a Gadget”, de 2010, algumas ideias básicas para o comportamento digital. Uma de suas regras inclui pensar bastante antes de escrever algo no Facebook (acredito que serve para o Twitter também) e refletir (ruminar?) um tema durante algumas semanas antes de postar num blog. Ou onde quer que seja na internet, eu diria. Segundo ele, a gente tende a achar que as redes sociais são um zeitgeist amorfo, no qual vale tudo o que se passa na cabeça. Só que sabemos que não é bem assim. Se tivéssemos lido esse livro antes, quem sabe as coisas pudessem ser um pouco diferentes neste momento. Fim da pausa.

Com minha vida anterior (online e offline) já devidamente concluída naquele lugar, eu peguei um avião, depois outro avião e assim cheguei a Nova York. Eu fiz uma conexão em Washington, DC, antes de chegar aqui. Adoro NY. Aqui, onde espero superar de uma vez por todas tudo isso. Aqui, onde, agora, é a minha vida. E não apenas este apartamento, esta cidade ou o notebook no qual estou escrevendo. Sozinho no meio da multidão. “Hello, world!”, diz um site pelo qual naveguei.

Uma boa parte de minha vida eu vivi em meio à tecnologia. Ainda vivo, seja Apple, Windows, Android, mobile, web. Respiro tecnologia e estou quase sempre com os olhos diante de uma tela  —  do notebook, do tablet, do celular.

Tecnologia muda tudo

Eu notei que era bastante ligado em tecnologia bem no meio dos meus vinte e poucos anos. Das coisas que importam para mim, tirando família, amigos e a carreira, tudo o mais precisa ter um quê de tecnologia. Música, precisa ecoar programação, barulhinhos, efeitos. Arte, precisa conter algum componente visual vindo diretamente do meio de bits e bytes. Filmes, precisam exibir som e imagem Full HD e, se possível, ainda tratar de algo que remeta ao futuro, que tenha gadgets. Ou que apenas seja incomum. Quase tudo de importante que tenho, foi graças a essa minha relação bem simbiótica com a tecnologia  —  a web em especial. Em sites de vendas e classificados virtuais, como o OLX, eu encontrei meu apartamento, meu emprego, gadgets, livros, antigos filmes e discos raros, entre outras coisas de uma lista imensa. Num site de encontros, que não era o Facebook, conheci minha (ex) esposa. Foi uma grande sensação de poder e realização: bastava me sentar diante do notebook (isso, desde o anterior, um Dell de cor vinho, novo) e, em questão de minutos ou poucas horas, mudar minha vida completamente, tanto de maneira superficial como profunda.

Isso foi há anos atrás e a tecnologia cada vez mais só evoluiu, muito mesmo, de tempos em tempos. Foi se tornando ainda mais “específica”, de nicho, com mais e mais ideias destinadas a quase tudo que se pensa. Você vê, a web moderna tem vários sites para facilitar tudo, sem sair de casa. Antes de tudo, você escolhe a casa, claro. Depois, compra seu carro antes de retirar na concessionária. A companheira (ou companheiro) você encontra nos sites de encontros (certo dia achei que fossem de “relacionamento”) que são como “cupidos virtuais”: piscou, mandou e-mail, encontrou, casou. Ou não. Se casar, pode escolher tudo para a cerimônia em poucos cliques, online. E depois de casar, pode reservar seu restaurante favorito e comprar ingressos de cinema com mais alguns cliques. Fácil, rápido e indolor. E isso sem contar os apps para tablets e celulares.

Só que apesar de todas essas invenções tecnológicas, eu sempre fui fã do velho e simples e-mail  —  inclusive mais que o celular  —  porque assim posso manter um registro de minhas conversas, que jamais apago para poder revisitá-las de novo, se em algum momento quiser. Gigas e mais gigas de capacidade me permitem isso. Digitar um nome no Gmail pode me trazer uma ordem cronológica de acontecimentos, com cada palavra trocada. São anos e anos de histórias e fatos, condensados num bloco de dados eterno.

Aquelas intimidades passadas, experimentadas, no todo ou em parte, através da web, se tornam um relacionamento, para todas as intenções ou propósitos. Fico pensando que na época dos meus pais isso era feito de outra forma  —  talvez em cadernos de anotações, diários ou mesmo caixas de papelão que guardavam bilhetes e cartas. Seja em montes de papeis ou nos “zeros” e “uns” das minhas mensagens virtuais, ambos terão existido num só lugar. Queime ou delete tudo e as palavras restarão somente nas memórias daqueles que foram tocados: subjetivas, nebulosas, destinadas a desaparecer.

70% compatíveis

Mas eu já passei várias horas explicando para os outros que perguntam como nos conhecemos num desses sites de encontros. E eu acho que o algoritmo do site estava com defeito. Nós éramos apenas “70% compatíveis”, com praticamente 30% de chance de nos tornarmos inimigos. Era como um aviso. Aí uma carinha sorrindo mudou tudo. Aí aconteceu tudo agora. A culpa é do algoritmo do site, com algum possível bug, ou de quem se apaixonou pela “carinha”, no meio de sua carência abissal? Quem precisa de conserto? No fundo, eu deveria é ter enviado um email de agradecimento aos responsáveis pelo site de encontros, se não tivesse menosprezado o aviso.

Eu poderia ter culpado a tecnologia. Alguém se lembra que manter uma relação duradoura por toda a vida requer tempo, paciência, certo trabalho físico e alguns calos? É que a tecnologia, hoje em dia, deixou tudo tão fácil, que começamos a viver uma vida que não nos cabe se não prestarmos atenção. Mas também é mais conveniente pensar desta maneira. Se o relacionamento não funcionou, culpe o site de relacionamentos. Se o restaurante é ruim, culpe aquele amigo que o elogiou no Foursquare e fez você querer ir até lá também.

Acima de tudo, a tecnologia é feita pelas pessoas. Pessoas como eu. E mesmo assim, quase sempre entendemos tudo errado. Mesmo quando entendemos tudo certo, pessoas serão sempre pessoas: elas ignoram lógicas, algoritmos, ferramentas de recomendação, pontuações, carinhas etc. As pessoas fazem aquilo que faz sentido para elas, em determinado momento  —  o que podemos fazer a respeito disso? Com todos esses apps específicos por aí, nós temos e sempre teremos escolhas a fazer. E ainda precisamos seguir nosso caminho no mundo, sozinhos, cercados pela tecnologia, tentando acertar nessas opções que outras pessoas inventaram.

Mas apesar de tudo, ainda vou viver minha próxima vida toda em meio à tecnologia. Só que com muito mais experiência.

Eu já brinquei de imaginar como minha vida seria se eu estivesse vivendo tudo isso há uns duzentos anos atrás. O mais provável é que eu estaria enrascado, depois de uma cilada qualquer. Eu estaria vivendo a vida da forma que fosse possível, de acordo com o que tivesse acontecido comigo. E duzentos anos, imagina, não é pouca coisa! Eu não poderia buscar ajuda da família nem dos amigos, via Skype ou SMS, a qualquer hora do dia ou da noite. Eu não teria como reservar passagem de avião para qualquer lugar do mundo onde eu julgasse seguro (ou acolhedor) estar. E nem poderia trabalhar onde bem quisesse, a hora que fosse, online. Eu estaria ferrado, é isso.

Na verdade, sou bastante grato pelo vida que tenho. Apesar de todos os desdobramentos que têm acontecido, meus dias são bastante interessantes e eu não me sinto (mais) “acorrentado” a nada. A tecnologia me permite fazer escolhas que podem mudar e reorganizar meu mundo. Posso dizer neste momento, apesar de estar aqui, em NY, uma cidade que  —  repito  —  adoro, que não sei onde viverei, o que farei ou quem amarei. Para cada uma dessas opções, entretanto, existem as ferramentas certas, sendo que cada ferramenta apresenta suas outras opções. Escolhas.

Escolhas e possibilidades

O mundo sempre se moveu rápido demais para algumas pessoas. Através da história recente, a paradoxal e essencialmente filosófica proposta de desacelerar para apreciar a brevidade das coisas ganhou força em picos de mudanças tecnológicas.

O truque, claro, é ter experiência e bom senso para fazer as escolhas certas e seguir em frente. Para isso, não há nada que a tecnologia possa fazer. A gente, simplesmente, tem que viver, trabalhar, amar, explorar, sentir, entender, falhar, tentar de novo e aprender. E isso serve para todas as coisas da vida.

De Nova York a Zurique. Ou mesmo em Buenos Aires. Depois, então, um tempo em Londres, talvez um mês, quem sabe um pouco mais. Quem sabe o futuro? E tome Airbnb, Lonely Planet, Trip Advisor. Mensagens na caixa de entrada sugerindo novas aventuras, novas possibilidades. Mais escolhas e a vida segue. Novos desdobramentos, laços que se unem ou apenas se tocam e um mundo completamente novo, diante de mim, de novo. <@>

[Foto: Alexandre Bobeda]


Alexandre Bobeda

© Alexandre Bobeda - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução em outros sites sem autorização do autor.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Alexandre Bobeda