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Enquanto houver vida, poesia e filosofia, haverá o que ler... e escrever!

Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo."

SANTOS FILÓSOFOS, NÃO! FILOSOFASTROS! (Parte I)

A Filosofia e a Religião não são irreconciliáveis devido aos seus objetos, pois, muitas vezes, estes são coincidentes, mas devido as seus modos de chegarem até eles. Deus, por exemplo, parece um caso resolvido para a Religião, porém, permanece um problema para a Filosofia. Portanto, ser santo e também filósofo é tão improvável quanto "ser" e "não ser", ao mesmo tempo. Ou, em termos éticos, como sentenciou o filósofo Nietzsche: é imoral! É disso que tratarei nesta série.


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Antes de irmos direto ao tema deste artigo, haveremos de dar um breve passeio pela história antiga, a fim de relembrarmos certos elementos imprescindíveis a toda compreensão de minhas argumentações. Fazer ataques ou elaborar defesas em favor da existência ou não de Deus não é o intuito deste trabalho, mas, sim, contrapor, em primeiro lugar, que haja provas ou argumentos suficientes para sustentar que ele exista e seja, “bom” e, em segundo, que sejam chamados de filósofos aqueles que, buscando dar fundamento à fé, não conseguem em um só ponto de sua “suposta filosofia” evidenciar nem a existência nem a “bondade” de Deus. Começo, portanto, lembrando que o judaísmo, a religião do “povo de Deus”, os judeus, remonta ao século XVIII a.C., quando Jeová manda Abraão procurar a terra prometida, portanto, mais de dez séculos antes do surgimento da Filosofia, na Grécia Antiga. Começava ali, pelo menos segundo os registros históricos a que se tem acesso, a peregrinação e o sofrimento de um povo que jamais encontrou lugar algum ao qual chamar de “seu” e ali “descansar a cabeça”. Durante longos quatrocentos anos, os descendentes de Abraão foram submetidos à escravidão no Egito e, mesmo depois que Javé, seu deus-guerreiro, instituiu Moisés como libertador de seu povo, tendo aberto o mar para sua fuga, enquanto o exército egípcio, que os perseguia, era devorado pelo fechamento das águas (segundo o relato bíblico), ainda esperaram por quarenta anos pelo retorno do seu líder com as tábuas da nova lei (os Dez Mandamentos). Após a morte de Moisés, os hebreus, já na Palestina, tiveram de travar várias guerras contra os povos que ali viviam, principalmente os filisteus (ou palestinos). Depois de sofrerem várias atrocidades na Europa ao longo dos séculos, culminando com o grande genocídio perpetrado pelos nazistas, que mataram mais de seis milhões de judeus, conseguem junto à Organização das Nações Unidas, em 1948, a criação dos estado de Israel. Isso sendo possível somente sob a égide da ONU e o apadrinhamento dos EUA. Em suma, os judeus recriaram o seu Estado, mas jamais cumpriram a determinação da criação do Estado da Palestina, um dos principais motivos de a região viver numa constante guerra civil. Platão, um dos grandes filósofos gregos, nascido em Atenas por volta do século IV a.C., desenvolveu a “teoria das idéias”, núcleo central de sua filosofia, influenciado pelas filosofias de Heráclito e Parmênides, procurando reconciliar ambas as posições. Sua intenção era resolver o conflito “irreconciliável” entre a teoria da mudança naqueles dois gregos que o precederam. Não há qualquer registro sobre a filosofia do ateniense a partir do qual se possa fazer um elo entre ela e a religião grega, o que dizer de uma correspondência com a dos hebreus? Contrário ao governo dos sacerdotes, Platão estaria muito mais tendencioso para uma rejeição da religião do que para a aceitação ou mesmo corroboração dela. Mas, mesmo assim, ele jamais suspeitaria que seria usado desse modo, séculos depois. O cristianismo, que tem suas raízes no judaísmo, é a religião que surgiu a partir dos seguidores de Jesus Cristo, que se tornou um marco na História do Ocidente, de tal forma que a cronologia oficial de todos os eventos passou a trazer consigo as siglas “a.C.” (para tudo que ocorreu antes do nascimento do Cristo) e “d.C.” (para tudo o que veio depois dele), e que se tornou o credo praticamente hegemônico em todo o mundo ocidental. Para tanto, porém, os primeiros cristãos tiveram de conquistar as mentes de gregos e romanos, utilizando-se de artimanhas intelectuais características destes, e ainda conquistar os povos pagãos com muitas promessas futuras e extra-mundanas. Mas o que têm em comum essas duas religiões e esse filósofo grego, ou a própria Filosofia? Para responder a essa pergunta, precisamos palmilhar um caminho um pouco mais longo, que trará à baila outros elementos de suma importância para a compreensão do que tenho a dizer por aqui. Alguns desses elementos são, assim como as filosofias de Heráclito e Parmênides, tidos como irreconciliáveis, como razão e fé, paganismo e cristianismo, filosofia e religião – neste último caso, seria mais pertinente dizermos “filosofia e cristianismo”. Portanto, retornemos aos três primeiros elementos levantados inicialmente, o judaísmo, Platão e o cristianismo, para melhor fundamentar melhor o que pretendo dizer.

O judaísmo é, na verdade, um modo de vida “fortemente associado a um sistema de fé e convicções religiosas”. Os judeus acreditam na existência de um único Deus, todo-poderoso, que criou o universo e tudo o que há nele, e que esse Deus tem uma relação especial com o seu povo, consolidada no pacto que fez com Moisés no Monte Sinai, 3,5 mil anos atrás. Também acreditam no advento do “Messias” (o ungido), que ainda nascerá, portanto, não consideram o Cristo como sendo esse Messias, mas apenas um “profeta de Deus”. Bem aqui, o cristianismo que tem fortes influências do judaísmo, segue em outra direção, como podemos ver.

Jesus de Nazaré, o profeta da Galileia, rompeu com grande parte das tradições judaicas, como a de guardar o sábado, a de apedrejar publicamente as mulheres que cometiam adultério e a lei mosaica do “olho por olho, dente por dente”. Além disso, pregou um “Deus universal” e não-somente de um povo, o que desagradou muito as autoridades religiosas de sua época. A promessa de salvação ganhou grande simpatia das classes marginalizadas do Império Romano, plebeus, escravos e colonos, que viam na mensagem de Jesus um instrumento de redenção contra a opulência e a exploração dos romanos. Opondo-se ao escravismo e insubordinando-se aos costumes e tradições romanas, os cristãos cresciam como uma ameaça ao Império Romano e eram perseguidos, porém, à medida em que as perseguições se intensificavam, o número de convertidos crescia vertiginosamente. Apesar de tudo isso, isto é, da tamanha militância cristã, faltava ainda ao cristianismo aquilo que o judaísmo há muito já tinha – uma “fundamentação”. Foram, então, apanhados daqui e dali certos elementos do chamado “paganismo” (cultos politeístas ou de formação não-abraâmica) e adaptados aos rituais da “nova religião”, enquanto Paulo de Tarso (ex-general romano convertido ao cristianismo, cujo o nome original era Saulo de Tarso) fazia suas pregações em meio aos sábios gregos e outros povos circunvizinhos. Chamado de "apóstolo Paulo", em inúmeras passagens bíblicas, foi ele quem arrancou risos dos atenienses, ao tentar explicar como um Deus todo-poderoso e onisciente precisou enviar seu filho em sacrifício para corrigir os erros do mundo que ele mesmo criara. Usando, depois, de outra estratégia, ele resolve dizer aos atenienses que "a loucura de Deus é ainda mais sábia do que a sabedoria dos homens", o que nos faria imediatamente perguntar: "Então, por que a necessidade do cristianismo de dar fundamentação logicofilosófica à sua doutrina?". As tentativas dos padres apologistas, ainda no século II, já eram tão desesperadas e fantasiosas que eles chegaram ao extremo de sentenciar que "Heráclito e Sócrates tinham sido cristãos antes mesmo do Cristo".

Como já foi dito, Platão, quatro séculos antes do Cristo, desenvolveu sua “teoria das ideias”, a partir da relação entre dois mundos distintos: o mundo sensível (este em que vivemos) e o mundo das ideias perfeitas (do qual este mundo sensível é uma cópia imperfeita). Essa concepção platônica de “mundo perfeito” seria resgatada séculos depois, sendo relacionada com a ideia cristã de “céu” e também para fundamentar o que se denominaria de “filosofia cristã”. Esse “resgate” que mais precisamente ouso chamar de “apropriação de idéias” se deu como o um movimento que ficou conhecido como “neoplatonismo”, por volta do século III. Essa corrente de pensamento que se dizia baseada nos ensinamentos de Platão , mas que os interpretava de formas bastante diversificadas, chegando mesmo a ser muito diferente da doutrina platônica, era uma forma de monismo idealista. Um dos seus iniciadores foi Plotino, que ensinava a existência de um “Uno indescritível”, do qual emanavam seres menores. Ao que se sabe, Agostinho de Hipona (canonizado mais tarde pela Igreja católica) teria se convertido ao cristianismo por influência de Plotino, tornando-se assim um dos maiores nomes do neoplatonismo. É com Agostinho de Hipona, propriamente, que se inicia o cerne da argumentação desta série de artigos.

Aurelius Augostinus era o nome de batismo daquele que ficou conhecido como Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho dos católicos. Nascido a 13 de novembro de 354, em Tagaste, na África, foi um homem dado às coisas mundanas em sua juventude, porém, sua forte formação religiosa, logo pesaria sobre sua consciência, fazendo-o sofrer angústias e remorsos pela vida “pecaminosa” que levava. De tal modo que, em certo dia de agosto de 386, aos 32 anos de idade, ele se encontra nos jardins de sua residência, em Milão, derramando copiosas lágrimas, quando, em meio a soluços e prantos, diz ter ouvido uma voz, com numa canção infantil, que lhe dizia “Tolle, lege, tolle, lege” (Toma e lê, toma e lê). Segundo ele, seriam palavras do apóstolo Paulo que, naquele dia, transformariam toda a sua vida, pois ali mesmo se deu sua conversão. Naquele tempo, a nova fé já tinha quatro séculos, mas não passava de uma doutrina composta de regras morais e a crença na salvação através do sacrifício do Cristo. Era uma religião revelada, jamais uma filosofia. O fato é que Agostinho “cristianizou” Platão, estabelecendo, a seu bel-prazer, vários paralelos entre uma possível argumentação espiritualista do filósofo (que diz respeito a um mundo transcendente) e as Sagradas Escrituras (que anuncia um Reino de Deus, para uns certos escolhidos). Entre os absurdos de suas lucubrações, Agostinho teoriza que o mal não provém de Deus, mas sim do mau uso do livre-arbítrio. Ou seja, para ele não existe o mal, apenas a ausência de Deus (refutando assim a doutrina dos maniqueus, que o havia influenciado anteriormente). Porém, se estamos na estrita trilha da Filosofia e não nos fantasiosos “descaminhos” da fé, não será difícil comprovar que não há, nas teorizações agostinianas, nenhuma consistência que se fundamente vigorosa e fielmente na filosofia platônica e muito menos qualquer tentativa de provar como Deus, sendo a única realidade ou bem, permite mesmo assim que uma determinação sua, no caso a de que os homens sejam possuidores de “livre-arbítrio”, seja a “causa” da existência do mal, como um poder paralelo ou uma deturpação de sua própria vontade.

Entre outros absurdos da "suposta" filosofia agostiniana estão: "a ordem do mundo é bela e boa, pois é criação de Deus" (quem sabe, a inspiração para "o melhor dos mundos possíveis", de Leibniz); "a salvação vem pela graça de Deus e não pela vontade ou livre-arbítrio do homem" (o que neutraliza de imediato qualquer esforço pela fé); e "os eleitos à salvação são predestinados pela vontade divina" (o que exclui, sem exceção, qualquer outro, por mais fervoroso, bom e justo que seja).

Em “Confissões”, há de sobejo aqueles elementos que o cristianismo, através de seus expoentes, sempre usou para comover suas “presas em potencial”. Dessa forma, muitos incautos são apanhados pelo excesso de sentimentalismo e emotividade que há em depoimentos arrancados do âmago dos recém-convertidos a uma religião, que remetem a um "arrependimento da alma". Destarte, incorrendo em erro, não foram poucos os que chegaram a acreditar que também havia ali um forte apelo da razão. Entretanto, nada disso tem a ver com a verdadeira Filosofia. É apenas fé cega e faca amolada!


Jaya Hari Das

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