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Enquanto houver vida, poesia e filosofia, haverá o que ler... e escrever!

Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo."

O HOMEM MITOLÓGICO VERSUS O SOL DA RAZÃO - A religião em descompasso com o século XXI

"Há mais de meio século, os estudiosos ocidentais têm situado o estudo do mito em uma perspectiva que contrasta sensivelmente com, digamos, por exemplo, a do século XIX. Em vez de tratar o mito, como seus predecessores, na acepção usual do termo, ou seja, enquanto “fábula”, “invenção”, “ficção”, eles o consideraram tal como faziam as sociedades arcaicas, nas quais o mito designava, bem ao contrário, uma “história verdadeira”, e mais ainda, uma história de valor inestimável, por ser sagrada, exemplar e significativa. Mas este novo valor semântico, dado ao vocábulo “mito” na linguagem atual, não passa de um equívoco. Com efeito, esta palavra é utilizada hoje em dia tanto no sentido de “ficção” ou de “ilusão” quanto no sentido, especialmente familiar aos etnólogos, aos sociólogos e aos historiadores das religiões, de “tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar”. (do livro Mito y Realidade, de Mircea Eliade – tradução minha).


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Quando iniciamos o estudo da Filosofia, logo nos deparamos com a recorrente e embaraçosa questão de se ela rompeu ou não definitivamente com o mito e, em caso afirmativo, se teria dado fim ao período denominado de mitológico. Em seguida, vamos perceber que essa ruptura, caso tenha ocorrido, não foi suficiente para relegar ao esquecimento as lendas e as explicações sem teor lógico sobre os fatos da vida e do universo. Isso porque, os mitos e lendas têm suas origens profundamente arraigadas no imaginário, ou mais ainda, no inconsciente coletivo dos povos, de modo geral, e das pessoas, em particular.

Platão recorreu várias vezes à narrativa mítica para explicitar seu pensamento sobre o conhecimento, a sabedoria, e até sobre questões, digamos, mais metafísicas, como o estágio post mortem e a reencarnação. Além disso, as lendas, por assim dizer, evoluíram para o nível de contos de fada, criados muitos séculos atrás, mas que se perpetuaram até aqui e abrilhantam o imaginário das crianças, quando não inspiram a criatividade artística dos adultos, que a partir delas escrevem livros, montam peças teatrais e coisas do gênero.

As lendas egípcias, assim como aquelas encontradas nos textos considerados sagrados dos hindus, são de uma “beleza” incomum, riquíssimas que são de “cenas” e “atos” incrustados, digamos assim, na alma dos seres humanos de todos os tempos, a despeito do seu grau de maturidade, racionalidade ou conhecimento. São narrativas belíssimas, dramas que convocam os corações a pulsarem em descompasso e as mentes a se abrirem à imaginação, desvelando, à frente daqueles que se deixam cativar por elas, um mundo que os alivia da realidade nua e crua, muitas vezes opressora e cruel, fazendo-os mergulharem seus espíritos numa espécie de oceano de paz.

Neste sentido, parece inegável que os mitos e lendas tenham ainda seu valor inestimável, porém, há de se observar também, que esse valor deve ficar circunscrito à instância do imaginário, que de modo nenhum se mistura com aquela na qual se situa a “razão”. Sendo assim, nos causa espécie, a nós, homens da razão, que pessoas tidas como “cultas”, formadoras de opinião, líderes políticos e religiosos, crendo ou não a fundo nessas narrativas, utilizem-se delas para ainda hoje manipular as mentes e os corações de seres humanos que, vingados os objetivos da Filosofia, já deveriam estar, como diria Immanuel Kant, em sua maioridade, portanto emancipados e senhores do seu agir e do seu pensar.

O fato é que também não podemos deixar de observar e considerar, nós, homens da pós-modernidade, da ciência e da tecnologia, da razão e do conhecimento, que, se o mito ainda tem algum valor (e não tenho dúvidas sobre isso), esse valor deverá se limitar ao seu âmbito, ou seja, deve ser considerado como narrativas que acalentam as mentes mais pueris, como as das crianças e de outras pessoas, que por alguma razão, mesmo já na fase adulta de sua vida, não conseguem alcançar o patamar adequado ao que chamamos “maturidade”.

É exatamente neste contexto, que levanto minha voz, para salientar que me causa espécie que, a despeito de suas obrigações com a religião cristã e seu alto cargo dentro da instituição cristã, o sr. Joseph Ratzinger publique sua trilogia, que certamente será lida por milhões no mundo inteiro, com a irresponsabilidade, ouso dizer, de reforçar (senão de fazer ressuscitar) lendas que em nada favorecem o “crescimento” do pensamento humano, sendo, outrossim, exemplos de vergonha para toda humanidade, se não em sua parcela cristã, pelo menos em toda a outra que resta.

Até ao ponto que sei, a lenda bíblica, encontrada no livro de Gênesis, sobre a Criação e, em particular, o suposto "pecado original", atribuído ao primeiro casal criado, Adão e Eva, só serviu até hoje de vilipêndio para humanidade, discórdia entre os gêneros humanos, má consciência e escárnio da raça humana. Não consigo perceber nessas narrativas bíblicas nada mais que isso. Que valor, portanto, posso creditar a estorietas tão “malignas” como essas, travestidas de revelação divina, mas, na verdade, verdaeiros contos de horror? Por que eu, homem do século XXI deveria me render (novamente, agora que já não sou mais criança) a essas fantasias pueris perversas, sem qualquer utilidade para o meu crescimento como ser humano (feito à imagem do meu Criador)?

O sr. Ratzinger, investido do seu papel de líder religioso cristão, rebusca em acalanto o mito da Virgem Maria, para dar floreios à sua obra, sem perceber que toda essa vangloriação da virgindade contrasta, se contrapõe, melhor dizendo, às realidades humanas de todos os tempos, e mais ainda dos dias de hoje, em que homens e mulheres buscam a liberdade para exercer sua sexualidade, haja vista as novas modalidades não só de relacionamentos afetivos, como do próprio matrimônio. Que pretende esse senhor, ao esfacelar a criatividade dos fazedores de "Presépios de Natal", afirmando categoricamente que estão todos enganados – “não havia animais junto à manjedoura do menino Jesus”? Houve, por acaso também, alguma estrela-guia no céu, magos e espíritos de luz circundando e “bajulando” tal acontecimento? Houve, por acaso, um tal acontecimento, sr. Ratzinger? Poderia também eu, do alto de minha racionalidade, questionar isso, e o questiono! Questiono pura e simplesmente porque "sei" que trata-se de uma narrativa mítica e não, como o senhor pretende reafirmar (crendo que todos nós ainda vivemos na Idade Média), "um fato histórico".

É lamentável que homens, que se dizem cultos e lideranças no mundo, ainda queiram que retornemos aos primórdios de nossa primitividade e irracionalidade, simplesmente para reforçar tradições que, bem compreendidas, já deveriam estar sob a poeira do tempo e da razão. As religiões institucionais e seus mantenedores (sacerdotes e seguidores) vivem num mundo mitológico em decadência, em ruínas, mas não o sabem, porque a “ilusão” do mito os tomou sobremodo, subjugou suas mentes, atirou sua razão a um calabouço escuro e fétido, igual ao de Papillon, no qual comer baratas é quase um banquete. Nós, sr. Ratzinger, nós, homens do conhecimento, do pleno meio-dia, do século XXI, nos recusamos a retornar a essa escuridão, a esse calabouço, a esse labirinto mitorreligioso, a essa caverna platônica. Nós, sr. Ratzinger, já crescemos, já nos libertamos – nós já vimos o Sol.


Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo.".
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