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Enquanto houver vida, poesia e filosofia, haverá o que ler... e escrever!

Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo."

A NATUREZA (EXTRA)ORDINÁRIA DOS HOMENS DE MILAGRES (Parte 1)

O presente artigo foi extraído do capítulo intitulado "O Avatar e o Reino dos Siddhis", do meu livro "O Governante das Estrelas- Da Materialidade do Eterno" (a ser publicado). Nele, trato da questão dos milagres e de seus produtores à luz da razão, segundo as pesquisas que empreendi sobre o tema. É uma das formas de se abordar o assunto, no sentido de levar as pessoas a pensarem antes de sair por aí acreditando em qualquer evento como se ele fosse algo fora das leis naturais, ou extraordinário.


Jesus e Krishna.jpg Para o mundo ocidental, nunca houve na História da Humanidade, um produtor e executor de milagres maior que Jesus Cristo. Na verdade, o mundo cristão não admite qualquer ‘milagre’ senão os do próprio Jesus (seus seguidores, discípulos e devotos-santos são como “instrumentos” do Avatar de Nazaré, pois atuam em seu nome). Por esse prisma, o “milagre” se configura um fenômeno extraordinário, restrito à profissão de fé cristã. Há uma noção, quase unânime, de que somente um ser sobrenatural pode possuir tal poder, tanto quanto delegar esse poder a outros. Sendo o Nazareno capaz de tais proezas, então, deve ser Ele um ser sobrenatural – ou, como descrito em alguns trechos dos Evangelhos: Ele é o próprio ‘Filho de Deus’. Esta questão, a meu ver, precisa ser minuciosamente examinada, pois a aceitação cega de eventos como extraordinários vem produzindo um “mercado de milagres e de milagreiros”, cada vez mais crescente no meio cristão. Em nome de Deus, ou do Cristo, o intercessor da humanidade, a maioria das igrejas neopentecostais abre seus cultos a multidões de fiéis que, atraídos pela propaganda de “curas milagrosas”, “rituais de desobsessão”, “orações de prosperidade material e econômica” etc., se acotovelam para assistir, participar e se beneficiar dessas “bênçãos divinas”, estando dispostos a darem de seus rendimentos muito mais do que o simples e inocente dízimo, que há séculos é pago como contribuição para o pagamento das despesas de manutenção dos templos cristãos, e que, em contrapartida, além desse propósito social, ainda agrega o valor de garantia de aquisição de “benefícios celestiais”.

Curiosamente, apesar da denúncia e comprovação das fraudes e falcatruas perpetradas por sacerdotes inescrupulosos (auto-intitulados 'ministros de Deus'), ao invés de termos um movimento de repúdio e desaprovação contra esses “caixas 2” da corrupção religiosa, o que vemos é uma ascensão vertiginosa de tais igrejas e um número crescente de gente disposta a “pagar para ver” tais milagres.

O que é, então, um ‘milagre’? Seria mesmo possível a efetivação de um evento de ordem sobrenatural? Há como se provar que as circunstâncias existenciais e as leis naturais possam permitir uma intervenção ‘de fora do mundo’ que produza o inusitado? Para dar respostas a estas perguntas é preciso conhecer as possibilidades que a Existência oferece ao ser humano, seja ele um homem comum ou um Avatar. Precisamos averiguar se há alguma chance de o ser humano ‘burlar’ o que ele próprio categorizou como ‘leis físicas’. Bem, a Razão, ou seja, a faculdade de raciocínio do homem, apoderou-se de seu mundo exterior e interior de tal forma que sua percepção mística e sua intuição foram relegadas a segundo plano (quando não perdidas). O homem lógico, o homem da racionalidade exacerbada, o “são Tomé do cientificismo”, acredita somente no real palpável e acessível (ainda que, em alguns casos, ele se deixe levar pelo ‘virtual’ como real). Cada vez mais, homens e mulheres do mundo inteiro vivem seu dia-a-dia agarrados ao ‘concreto’ e, se muitos ainda acreditam em deuses, em santos ou em anjos, é porque não tiveram oportunidade até agora de trocarem esses ‘ícones religiosos’ por bens materiais perduráveis, que lhe garantam não só a subsistência, mas a fama, o sucesso e, por que não?, o poder. Assim, tendemos a nos surpreender com eventos que desafiam nossa percepção concreta e direta da Vida. E, em acréscimo a isso, nossas vicissitudes e enfermidades nos trazem de volta a fragilidade humana (mesmo que tenhamos muito dinheiro e fama).

O desespero e a dor nos remetem a uma fé primitiva e mística, a partir da qual, desamparados do poder do capital e da medicina, só nos resta crer que forças sobrenaturais existem e podem nos socorrer. Eis a porta aberta para o ‘milagre’. Não somente homens comuns, mas até mesmos cientistas e filósofos sucumbem à teoria do ‘sobrenatural’ e ‘milagroso’. O astrônomo Allan Sandage chegou a dizer que o ‘Big Bang’ só poderia ser compreendido como um “milagre”, e o inventor do laser, Charles Townes, disse que as descobertas da Física parecem afirmar “a existência de uma inteligência trabalhando por trás das leis naturais”. Como vemos, qualquer evento, grande ou pequeno, pode ser interpretado de forma bastante diferente por cada um de nós. O que para um homem carece de importância, às vezes, recebe de outro o rótulo de extraordinário .

É bem verdade que para milhões de cristãos (e mesmo não-cristãos) é difícil não reconhecer, a partir dos relatos bíblicos (a trajetória da sua vida, tanto quanto as profecias encontradas no Velho Testamento), que o Cristo não seja um ‘ser especial’ – ‘extraordinário’ de fato. Vejo Jesus Cristo como um ser excelso – mas como não creio haver almas maiores do que outras (nada em minhas pesquisas me fizeram crer de outra forma), o Cristo é mais propriamente um Grande Avatar, ou seja, um Mahajiva (grande alma encarnada) que, ao longo de inúmeras encarnações, conseguiu avançar todos os níveis existenciais possíveis e, com méritos, Lhe foi concedido o direito de resgatar, não só o Seu próprio karma, como o de um sem-número de pessoas. O fato é que Jesus “atingira completa unidade com essa consciência crística”, ou como eu próprio diria, “reidentificara-se com o Ser Supremo – Hari”. Considero, portanto, o Nazareno um Avatar (e nisso não há ofensa nenhuma ou desconsideração, senão verdadeiro reconhecimento de sua grandeza). O mundo fenomênico é também conhecido como Maya (Grande Ilusão) e é, portanto, o palco de grandes performances ilusionistas.

Alcançar a posição de Avatar não é privilégio desta ou daquela alma, deste ou daquele ser, mas sim o 'coroamento' meritório de todos os jivas, por seu esforço e desempenho no decorrer de várias e várias encarnações. O que acabo de dizer está em concordância com a seguinte citação, extraída do Bhagavad-Gita, para que saibamos bem como são raríssimas tais “grandes almas”: “Após muitos nascimentos e mortes, aquele que acumulou extraordinária sabedoria, realiza sua união comigo [yoga], que sou a causa de todas as causas, e de tudo o que existe. Tal grande alma é muito rara”(cap.7; texto 19).

Mas qual será realmente a natureza dos milagres? Será mesmo um fato extraordinário, fruto do poder de um ser sobrenatural (deus ou qualquer entidade divina)? Será de fato um fenômeno que fere a trajetória normal da Existência, modificando inteiramente a vida dos indivíduos que vivenciam e/ou testemunham tal evento inaudito? Ou será que não passa da ignorância que se tem de leis, que talvez estejam tão acessíveis à observação do homem quanto a da gravidade, cara a Isaac Newton? Os Evangelhos estão recheados de milagres produzidos pelo Nazareno, durante sua passagem na Terra. Curas de cegos, de paralíticos, de epilépticos, expulsão de demônios, multiplicação de pães e peixes, ressuscitação de pessoas, faculdade de andar sobre as águas do mar e acalmar tempestades e, por fim, mesmo sendo morto na cruz, retornar à vida no mesmo corpo que havia abandonado na morte (o poder da ressurreição). Todos, sem exceção, são relatos de fenômenos nada corriqueiros e que, por sua natureza inóspita, causam até hoje a admiração de quem toma conhecimento e passa a acreditar neles. É inegável o valor de tais feitos, no entanto, o que pretendo aqui é trazer esses supostos milagres à luz, não só da Razão, mas também do escrutínio da ‘luz interior’, não para tirar-lhes o mérito de inusitados ou de autênticos, mas para que se compreenda que considerá-los ‘sobrenaturais’ (fora das leis naturais) pode não ser bem a verdade.


Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo.".
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