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Enquanto houver vida, poesia e filosofia, haverá o que ler... e escrever!

Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo."

O PAPA É POP

A banda brasileira, Engenheiros do Hawaii, gravou em 1990 uma balada de grande sucesso, ao estilo debochado do velho e bom Rock'n'roll, "O Papa é pop"*. No presente artigo, aproveito esse momento em que o atual papa, Bento XVI, renuncia ao seu Pontificado, para fazer uma "costura" entre a letra daquele hit e os desafios e dissabores enfrentados por Joseph Ratzinger durante o seu "calvário", quero dizer, seus anos como líder da Igreja Católica.

*O Papa É Pop foi o quinto álbum de estúdio da banda brasileira de rock Engenheiros do Hawaii. Foi lançado em formato de LP e CDem 1990, pela BMG. Este foi o primeiro álbum produzido pelos próprios integrantes, ele marca a adoção por parte da banda de uma sonoridade mais próxima ao pop, com o uso de teclados, bateria eletrônica, baixo e à guitarra. Seus singles são: "O Exército de um Homem Só", "O Papa é Pop", "Era um Garoto Que, Como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones" e "Pra Ser Sincero".
É considerado o álbum mais vendido da banda, com mais de 400 mil cópias nos primeiros anos. Com ele, os Engenheiros do Hawaii foram considerados a maior banda de rock do Brasil de 1990 em votação promovida pela revista Bizz, em reportagem da mesma revista meses depois e pela revista Veja. – Fonte: Wikipédia


200px-Engenheiros_do_hawaii_o_papa_é_pop.jpg Na década de 1990, a banda brasileira Engenheiros do Hawaii, comandada por Humberto Gessinger, disparava nas rádios de todo o Brasil um hit que tinha a cara da irreverência ao estilo “rock’n’roll”. A música “O Papa é pop” trazia os deboches comuns de qualquer letra de uma balada rock, adaptadas para a realidade do Brasil e também do mundo. Ali havia a indignação normal e recorrente contra a política corrupta do país, entrelaçada em questões internacionais em voga na mídia. Ali se ouvia:

“Todo mundo tá revendo O que nunca foi visto Todo mundo tá comprando Os mais vendidos É qualquer nota, Qualquer notícia Páginas em branco, Fotos coloridas Qualquer nova , Qualquer notícia Qualquer coisa Que se mova É um alvo...”.

João Paulo II.jpg Gessinger, o autor da música, aproveitou-se de um evento inusitado e lamentável – o atentado ao papa João Paulo II, na Praça de São Pedro, em 13 de maio de 1981 –, para fazer sua crítica bem-humorada e, ao mesmo tempo, sarcástica, e conquistar os jovens fãs da banda, daqueles anos de efervescência e brilhantismo do rock nacional. Ele escreveu:

“É qualquer nota, Uma nota preta Páginas em branco, Fotos coloridas Qualquer rota, A rotatividade Qualquer coisa Que se mova É um alvo E ninguém tá salvo Um disparo Um estouro”.

Até aí, ainda estávamos nas estrofes, ou seja, na preparação para todo mundo cantar junto um refrão, que mais parecia palavras de ordem, gritadas por jovens militantes de um partido político ou de uma religião chamada Rock’n’roll. Então, todos cantavam:

“O Papa é Pop, O Papa é Pop! O Pop não poupa ninguém O Papa levou um tiro À queima roupa O Pop não poupa ninguém”.

O cantor e compositor Humberto Gessinger acertou em cheio com seu hit, que caiu no gosto de jovens e adultos, fãs ou não da banda, mas certamente loucos por coisas irreverentes, que mexem com autoridades, celebridades e tabus. O Papa, seja ele quem for, Karol Wojtyla ou Joseph Ratzinger, é tudo isso que foi dito, com o agravante de ser o líder máximo da Igreja Católica Apostólica Romana, que detém os direitos originais do cristianismo, uma das grandes religiões do mundo e promotora da moral e da cultura de todo o Ocidente. Mas Gessinger estava longe de saber que, duas décadas depois, sua balada teria direito a atualização, num revival real.

Bento XVI tchau.jpg O Sumo Pontífice, Bento XVI, atual papa desde 19 de abril de 2005, também foi atingido em cheio. Desta vez não por um tiro, mas por vários. Na verdade, não foram balas que o atingiram e o fizeram tombar do papa-móvel, mas golpes invisíveis, vindos de várias direções e deferidos por quase o mundo inteiro. Vale lembrar que o último papa com esse nome foi Bento XV, que esteve no cargo de 1914 a 1922, durante a Primeira Guerra Mundial. Mas a “guerra” da era Bento XVI é bem outra!

A missão de Joseph Ratzinger já se demonstrava árdua desde o seu começo, quando deveria “substituir” (dizem que algumas pessoas são insubstituíveis), ou melhor, assumir o lugar de um papa que era muito querido por todos, cujo carisma conquistou com facilidade a admiração tanto dos fiéis católicos quanto de outros, com ou sem religião, assim como dos membros do Vaticano, padres e cardeais. Bento XVI, como foi rebatizado, além de não contar com nada disso (ou quase nada), ainda trazia consigo o estigma de ser alemão (o que soa para alguns como “nazista”), agravado por informações de que sua família de origem teria tido relações com o nazismo (ele próprio teria militado na juventude) e por atitudes radicais impopulares, ainda do tempo em que era apenas cardeal, como a punição do padre brasileiro Leonardo Boff, em 1984, através de um processo da Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora do Santo Ofício) por suas ideias “avançadas” para os padrões da Santa Igreja – uma corrente progressista católica, que ficou conhecida como Teologia da Libertação.

O certo é que o papa Bento XVI foi atingido “mortalmente” e tombou. Alegando o peso da idade, 86 anos incompletos, mas insinuando conflitos internos da Igreja, o atual papa renunciou ao Pontificado e diz que agora só tem um desejo: se esconder. Ele já não pretende mais ser um “alvo fácil” e, agora, sabe muito bem que Deus gosta mais de santos-mártires que vão resignados ao encontro da morte do que de homens de boa vontade que pedem “Pai, afasta de mim esse cálice!”, e não quer esperar por aquele momento em que a fé e a esperança na salvação dão lugar à dor e ao sofrimento, que fazem, tanto os “demasiadamente humanos” quanto o Filho de Deus, perguntarem antes do último suspiro: “Deus, meu Deus, por que me desamparaste?”.

Assim foi a descida do papa Bento XVI ao "inferno", ou calvário (seus anos de Pontificado), para que ressuscitasse o velho e cansado Joseph Ratzinger, que agora fará sua trajetória humilde e resignada da glória à clausura, pois, ao que parece, não gostou nenhum pouco de ser “pop”.


Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo.".
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