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Enquanto houver vida, poesia e filosofia, haverá o que ler... e escrever!

Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo."

O EXÉRCITO INVISÍVEL DE THOREAU

Considerado o pai do ambientalismo, fonte de inspiração de grandes homens, como Gandhi, e famoso por negar-se a pagar os impostos ao Governo americano para que este financiasse a escravidão e a Guerra Mexicana, em meados do século 19, Henry David Thoreau é apresentado aqui como o homem que sozinho assumiu as consequências de seguir sua própria consciência, mesmo à custa de ir para a cadeia, em defesa do seu direito, como cidadão, de opor-se às decisões e desmandos do Governo do seu país. Sua figura é lembrada aqui, em vista dos acontecimentos no Brasil, como as manifestações iniciadas em junho contra o aumento da tarifa de ônibus em S. paulo e em outras capitais, e a chamada "Primavera Árabe", que vem se estendendo desde 2010, na Tunísia, até a atualidade, na Síria.


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A História nos traz os relatos de várias civilizações, das mais antigas às de apenas alguns séculos atrás, sua organização política, suas crenças e costumes. Ficamos sabendo, por exemplo, que os gregos fundaram a pólis, uma organização sociopolítica inédita na história da humanidade, criaram as leis reguladoras dos deveres e direitos dos cidadãos, legaram-nos o conceito de democracia, além de serem os precursores de todas as ciências, com a Filosofia. Mas toda essa “história” foi feita por homens, no caso grego, pelos filósofos, eles anteciparam muita coisa que só se consolidaria e se confirmaria muito mais tarde com a evolução das ciências. Hoje, porém, poucos sabem como chegamos ao atual estágio de civilização e quem foram os grandes homens que contribuíram com tudo isso e são responsáveis por certas conquistas, tanto tecnocientíficas quanto sociopolíticas.

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Pouco mais de duzentos anos nos separam de Henry David Thoreau, um cidadão norte-americano, nascido em 1817, mas há algo, para não dizer muitas coisas, que nos torna, mesmo em pleno século 21, muito próximos dele. Essa proximidade não é uma espécie de salto na História que, como por milagre, encolhe dois séculos para aproximar homens tão distantes. Não! Thoreau se faz presente naquilo que marcaria também outros grandes homens que nesses dois séculos tomaram para si o pensamento dele e o tornaram inesquecível.

Só para se ter uma ideia, Thoreau é considerado por muitos “o pai do ambientalismo”, ou seja, ele foi uma espécie de precursor do movimento ecológico, que tomaria forma somente na década de 1960. Desde jovem interessava-se pela natureza, tendo sido um auxiliar do naturalista suíço Louis Agassiz na coleta de espécimes locais. Em 1838, criou em Concord, sua cidade natal, juntamente com seu irmão, uma escola, na qual, entre outras coisas incluía passeios no campo como aula. Viveu durante muitos anos na floresta, período em que escreveu Walden ou A Vida nos Bosques, lançado em 1854, tornando-se em breve uma referência no campo da ecologia e do meio ambiente.

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Antes, porém, ainda em 1849, Thoreau publicara A Desobediência Civil. Esse ensaio foi resultado de um fato ocorrido em 1846, quando Thoreau passou uma noite na cadeia por ter se recusado a pagar impostos para o Governo. Ele tomou tal decisão por não concordar que o Governo americano usasse seu dinheiro para financiar a escravidão e a guerra do México. Sua decisão se baseava no pensamento de que o dinheiro público deveria ser empregado em coisas úteis para a povo americano, como a construção de escolas e estradas, por exemplo. Em seu ensaio, Thoreau advoga que todo cidadão tem o direito de negar-se a cooperar financeiramente com o Estado quando este se utilizar do dinheiro arrecadado para levar a cabo medidas que não promovam o bem de todos, como era o caso, em sua época.

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Essa atitude de Thoreau, de se contrapor ao Governo negando-se a pagar o imposto, ao que parece, serviu de influência para movimentos libertários que viriam anos depois. Homens como Tolstói, Gandhi e Luther King foram certamente influenciados pelo pensamento desse abolicionista, ambientalista e transcendentalista norte-americano. Gandhi, por exemplo, levou até às últimas consequências a desobediência civil, juntamente com sua doutrina do ahimsa (não violência), contra o governo britânico, e se saiu vitorioso, conseguindo a independência da Índia. Infelizmente, também despertou a ira daqueles que não concordaram com a consequente divisão do seu país em dois, Índia e Paquistão, e acabou morto por um hindu, logo depois.

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Um pouco antes de Gandhi e antes mesmo de Thoreau, o movimento conhecido como Iluminismo, surgido na Europa do século 18, mais precisamente na França, levado à frente por grandes pensadores, como Denis Diderot, Jean D’Alembert, Voltaire, Montesquieu e John Locke, entre outros, foi uma contraposição ao que eles repudiavam como abusos da Igreja e dos Estados europeus. Como uma reação em cadeia, pouco a pouco outros movimentos foram surgindo pela Europa e para além dela também, nos quais o povo, insatisfeito com seus Governos, fez verdadeiras revoluções que modificaram toda a estrutura sociopolítica daqueles países. Na América, por exemplo, a Revolução Americana, que culminou com a Independência dos Estados Unidos, é outro grande exemplo dessa reação em série.

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Chegando aos dias atuais, e à nossa realidade aqui no Brasil, em tempos em que jovens militantes saem às ruas para se manifestar contra tudo o que discordam na política nacional, questões como a corrupção política, o descaso com as reivindicações pelas necessidades sociais, o sucateamento da saúde pública e a situação de abandono da educação acabaram por promover um boom de violência incontrolável, produzindo o caos nesses últimos três meses nas maiores cidades do país. Desnorteadas, as autoridades lançam mão de artifícios, como a proibição do uso de máscaras nas manifestações e a polícia usa de meios também violentos para conter a progressão da massa humana em direção a prédios públicos e privados. Os vândalos se aproveitam para extravasar sua brutalidade represada e, em meio a bons e maus manifestantes, a legitimidade das manifestações se esvai no derramamento de sangue de culpados e inocentes. Contudo, a despeito dos prós e dos contras, das perdas e danos, algo positivo, certamente, virá daí, pois sabe-se por meio da História que nenhum esforço é em vão.

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As manifestações populares no Brasil não são as únicas deflagradas nesses anos de efervescência social. A série de conflitos entre povos e governantes, iniciados em 2010, na Tunísia, conhecida como“Primavera Árabe”, vem promovendo um efeito cascata em todas as nações árabes, tendo como eventos mais trágicos os atuais na Síria, que estão levando os Estados Unidos a ameaçarem uma intervenção armada naquele país já em frangalhos.

Diante de tudo o que foi relatado até aqui, parece inevitável reconhecer que a atitude de um homem, sozinho, como foi o caso de Henry David Thoreau alguns séculos atrás, jamais deve ser considerada pequena ou insignificante, pois, por menor que possa parecer a seus contemporâneos, tal ato,como uma pequena porém boa semente, muito provavelmente aparecerá para as futuras gerações como uma árvore frondosa que dará muitos frutos, assim como sombra e apoio aos militantes que estarão no front das lutas sociais, mudando não só a paisagem ao seu redor, como também as condições de vida de toda a gente.

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Já é fácil notar que não há mais necessidade de um homem lutar sozinho por seus direitos ou por aquilo que dita sua consciência. Hoje, estamos todos numa "aldeia global" e estar só é exceção, e não regra, uma vez que é inegável o poder das redes sociais, propiciado pelo advento da Internet, em arregimentar militantes simpáticos tanto a causas sociais quanto às individuais ou das minorias. Destarte, de repente, forma-se, como do nada, um exército descomunal que marcha sem temor contra os que se utilizam do poder como tirania e não como concessão do povo.

Henry David Thoreau é um daqueles grandes homens que escapam ao comum da "produção industrial da Natureza", que, de tempos em tempos, parece querer nos lembrar que somente a Humanidade é capaz de fazer da Terra um mundo melhor para todos os seres, a despeito das raças e dos reinos. Infelizmente, Mr.Thoreau não viveu suficientemente para saber que a sua solidão se tornaria no futuro uma “solidão acompanhada”.


Jaya Hari Das

"Escrevo sobre coisas que me parecem interessantes, para que a leitura seja interessante. Escrevo exatamente como penso. Mas, se me perguntarem de onde vêm esses pensamentos, não saberei dizê-lo.".
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