ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Novos tempos para o cinema

O cinema, enquanto escrita do movimento, novamente se reinventa, com a possibilidade de criação, produção, exibição e compartilhamento de conteúdo na palma da sua mão, através dos recentes celulares smartphones! A vida cotidiana novamente se torna protagonista das fascinantes imagens em movimento, agora ainda mais carregada de criatividade e inovação.


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Quando os Irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, no final do século 19, e começaram a filmar cenas cotidianas, capturando imagens em movimento e exibindo seus curtos filmes em sessões públicas, não imaginavam que estariam inventando também o cinema enquanto experiência coletiva e dando o pontapé inicial para uma linguagem que se reinventa cada vez mais.

O cinema do início do século 20, caracterizado pelas exibições em salas escuras para um grande público, já não é mais o mesmo. Os filmes curtos, sem cor e sem enredo, passaram a ser falados, coloridos e a contar inúmeras histórias, de longa, média e curta duração, retardando ou acelerando imagens, fazendo uso de flashbacks, planos-detalhes, narrativas (ou não narrativas) lineares e não-lineares, e apresentando o mundo ao mundo, real, atual ou fictício, sem ao menos precisar de deslocamento, a não ser que fosse para as salas de exibição.

Desde o surgimento da televisão, por volta da década de 50, que exibia imagens em movimento instantâneas a longa distância, levando as telas e suas histórias para os espaços privados das casas, o cinema novamente se reinventou. As imagens em movimento já não serviam mais para contar histórias apenas em filmes, mas também para produzir reportagens, vinhetas, comerciais, programas de auditório, videoclipes, novelas, seriados, entre várias outras manifestações audiovisuais.

Para Arlindo Machado, em seu livro Arte-Mídia, se considerarmos o cinema, enquanto “escrita do movimento”, televisão e vídeo também passariam a ser cinema. E pensando dessa maneira, o cinema encontraria uma vitalidade nova, que poderia não apenas evitar o processo de fossilização, como também garantir sua hegemonia perante as demais formas de cultura. Com este novo corte e contexto, o cinema expandido se tornaria audiovisual.

Com o surgimento dos computadores, já no final do século 20, novas formas de interação com as imagens se tornaram possíveis e o cinema mais uma vez se reinventou, permitindo a expansão dos efeitos especiais como nunca antes visto. Os computadores permitiram a criação de universos e personagens, até então impensáveis, e facilitaram ainda mais o processo de edição de imagens, até então feito manualmente, ou pelos montadores com suas inúmeras películas, ou pelo vídeocassete e aparelhos similiares, com os editores de vídeo, formato presente na televisão.

A tecnologia digital revolucionou e continua revolucionando o mundo atual e com a popularização da internet, novamente o cinema, enquanto audiovisual expandido, ganhou uma nova vitalidade. Não só a linguagem e a experiência cinematográfica se transformaram com o tempo, mas o espectador de cinema também mudou, agora ele é também produtor. Do público para o privado. Do privado para o público. A vida cotidiana tornou-se novamente protagonista das experiências com as novas tecnologias. Atualmente uma pessoa pode usar o seu celular para produzir imagens, organizadas (ou não) por um roteiro prévio, editar e postar para um grande público, sem ao menos ter que sair de casa.

E são inúmeros os exemplos dos novos usos da linguagem audiovisual (e cinematográfica), vistos e potencializados principalmente por mídias sociais, como o Youtube, Vine e Instagram.

Zach King por exemplo, um jovem dos EUA, poderia ser considerado uma versão contemporânea de Georges Méliès, considerado o pioneiro do cinema de ficção e pai dos efeitos especiais. Zach se tornou popular, com mais de 1 milhão de seguidores no mundo, ao fazer trucagens a partir de banalidades da vida cotidiana, e que podem ser vistas em seu perfil no Vine, aplicativo para celular, caracterizado pela postagem de vídeos de até 6 segundos. Suas experiências aparentemente simples, revelam na verdade, um planejamento cuidadoso e uma edição sofisticada para transmitir a ideia de 'mágica' que as trucagens proporcionam, tal como fazia Méliès.

Aqui no Brasil, o canal no youtube do grupo Porta dos Fundos, revolucionou o mercado de conteúdo de humor, exibindo vídeos e 'esquetes' que satirizam a vida cotidiana com uma abordagem irreverente e considerada politicamente 'incorreta', mas que fez (e faz) o público se identificar imediatamente. Já não seria mais preciso conquistar espaço nas grandes mídias tradicionais como a televisão e o próprio cinema. Eles conseguiram comprovar que conteúdo de qualidade já pode ser produzido, exibido e compartilhado, sem nenhuma intervenção de grandes instituições, como estúdios, emissoras de tv, distribuidoras e salas de exibição. Isso não significa que planejamento, roteiro, produção, execução e o trabalho em equipe não estejam presentes no projeto, mas a relação direta com o público ficou ainda mais próxima e a distribuição do material produzido foi facilitada pelo universo da internet.

O cinema (ou o audiovisual) está cada vez mais acessível para uma grande parcela da população, tanto no aspecto do consumo, no conforto do sofá de casa, quanto na produção de conteúdo, agora disponível na 'palma da mão', com a popularização dos celulares smartphones.

E enquanto ainda estamos assimilando essa nova abordagem e linguagem, novas experiências continuam surgindo em ritmo acelerado, para comprovar que vivemos num período de transição gigantesco, como foi aquele que os Irmãos Lumière vivenciaram.

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Já existem produtoras de vídeos de humor ou culinária, como a 1quarto, e o perfil Receitas em 15 segundos, por exemplo, pensados para o formato do instagram, aplicativo popular para celulares e tablets, com postagem de vídeos (além das fotografias) com duração de até 15 segundos, comprovando que em pouco tempo e com poucos recursos é possível exibir (e produzir) conteúdo divertido, útil, engraçado e talvez até, futuramente, mais crítico e reflexivo. É só uma questão de tempo e aperfeiçoamento, até que possamos ter acesso a microfilmes e webséries, de curtíssima duração e com altíssima qualidade técnica e estética.

Basta ter uma ideia (consistente, claro!) e um celular na mão, para começar a experimentar novas formas de fazer e pensar o cinema, e que poderão ser as precursoras de uma nova linguagem, ainda em construção, mas que sabemos que começou lá em 1895, quando dois irmãos registravam a vida cotidiana, imaginando que sua invenção seria apenas uma moda passageira.

Para quem aprecia histórias, quaisquer que sejam, são novos e bons tempos para o cinema! =)


Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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