ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

O mundo pelo olhar de um menino

Menino este que inocente, curioso e inquieto, precisa ser mantido dentro de nós para que um mundo em comum possa ser renovado. Que esta voz de menino não se cale dentro de nós, ainda que outras vozes repressoras tentem calar a nossa própria! <3


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Alê Abreu, o autor deste filme, estava cansado das (super) animações que existiam e quis fazer algo DIFERENTE, segundo sua fala na 13ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis (2014). Não melhor, apenas diferente. E criou uma obra-prima, unindo seus 'rabiscos' e uma boa história. Seu filme está rodando o mundo e recebendo os principais prêmios do cinema de animação, entre eles, o Prêmio Cristal de longa-metragem no 38º Festival do Filme de Animação de Annecy, na França. Para mim, é o melhor filme de animação já realizado, pela simplicidade e profundidade que apresenta.

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O traço simples do rabisco aproxima o público do criador, pois é na sua fragilidade e imperfeição, que percebemos a capacidade da criatividade e inovação humana. Quanto mais digital nos tornamos, mais o mundo físico parece interessante. A novidade se torna óbvia, e o que era óbvio passa a ser a novidade!

Somos capazes, em especial as crianças, de ver que foi um ser humano que desenhou cada frame desta obra, diferente das animações atuais, onde não sabemos mais onde começa a produção humana e onde termina o trabalho da máquina. A perfeição cada vez mais costumeira das animações atuais, através do uso de sofisticados softwares, tem nos afastado do nosso exercício de percepção. As coisas parecem nascer 'prontas', e na educação das novas gerações, é fundamental reforçar a origem do que se apresenta para elas. Compreender a relação entre o passado e o presente, para então pensar o futuro, é um dos itens fundamentais no processo educativo.

Um menino que vive numa área rural aventura-se no universo urbano, em busca de seu pai. É pelo olhar dessa criança que percebemos todo o impacto que a ação humana provoca no outro. A desigualdade social, a poluição, a produção em série, a sociedade do consumo e espetáculo, a exploração do trabalho, a infelicidade causada pela monotonia da vida urbana, o grito de liberdade das massas, o silêncio imposto pela repressão dos estados de poder e o papel fundamental do educador de plantar as 'sementes' do saber entre aqueles que são a esperança do futuro: as crianças.

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Hannah Arendt diz que a educação está entre as atividades mais elementares e necessárias da humanidade, que jamais permanece tal qual é, pois se renova continuamente através do nascimento e da vida de novos seres humanos, num "estado de vir a ser”. O desafio das velhas gerações seria o de transmitir valores e saberes, mas ao mesmo tempo, permitir que o novo possa ser criado, preparando as novas gerações para a tarefa de renovar um mundo comum.

Neste filme, a metáfora da transmissão desses saberes e valores, parece estar na flauta que o pai do menino toca e carrega consigo, numa espécie de voz em busca de liberdade, representada no pássaro colorido, que entra em conflito com a voz repressora da águia negra. Voz esta que continua calando muitos de nós, mas que sempre estará em conflito, enquanto houver gerações que se incomodem com a injustiça social e com a tentativa vã de lhes calar, enquanto ainda possuírem voz.

As mídias sociais, por exemplo, potencializaram esta voz jovem, como pudemos observar no exemplo da famosa fanpage Diário de Classe da adolescente Isadora Faber, ao denunciar os problemas da escola pública aonde estudava e que gerou repercussão nacional. Sua coragem está inspirando outros jovens a fazerem um uso mais engajado dos perfis criados nos ambientes virtuais. Grandes instituições começam a temer esta voz, e não veem outra alternativa, que não seja praticar a escuta.

Ainda falando de metáforas, a esperança de mudança reside também na semente que o pai do menino entrega para que o filho plante. O papel do educador é plantar para que gerações futuras possam colher. E aí reside o maior dos desafios: pensar no coletivo e cumprir seu papel, ainda que nenhum fruto para si mesmo possa ser colhido.

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E é este menino, confuso e inocente, criança e espírito livre, que acompanha a si mesmo, enquanto adulto e depois idoso, em sua trajetória de vida. Para Nietzsche, é na criança que reside o espírito livre, aquele que promove mudanças, cria novos valores e transforma o mundo. É também quem exerce a criatividade e inovação. É preciso permanecer de certa forma, eternamente criança, ou parte dela, para não sucumbir a um mundo repressor.

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Esta é só uma das belíssimas metáforas que este filme, quase sem falas, mas com uma impecável trilha sonora, carrega. Se você não viu ainda, recomendo que veja. E se inspire com o trabalho de Alê Abreu, que só queria fazer algo DIFERENTE, enquanto espírito-livre, negando-se a fazer do jeito que todo mundo está se acostumando a fazer! =)


Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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