ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

O papa é pop e usa twitter!

Se até uma das mais antigas instituições humanas tem se utilizado de mídias sociais para manter contato com o público, porque as escolas e famílias ainda não vem fazendo o mesmo de maneira mais adequada e direcionada?


igreja.jpg

De vez em quando eu entro em alguma sala de aula e vejo um cartaz escrito "Proibido uso do celular", mas basta dar uma voltinha em qualquer escola e observar jovens e crianças, para se convencer de que dizer isso, é quase como dizer para as 'velhas' gerações em seus respectivos contextos, que é "Proibido ler um livro" ou "Proibido usar all star" ou "Proibido ouvir Chico Buarque" ou "Proibido respirar".

Gente! As novas gerações fazem tudo isso e um pouco mais no seu 'canivete suíço eletrônico', conceito (que adoro!) do Henry Jenkins. O celular já se tornou uma extensão de nosso cérebro para armazenar informações. Extensão da nossa fala e escuta para nos comunicarmos com o outro. Extensão da nossa criatividade, quando escrevemos, fotogramos, filmamos e editamos com um aparelho que cabe na palma da nossa mão!

Se crianças e jovens se divertem, jogam e se comunicam através dos celulares, porque ainda há os que acreditam que elas não aprendem e não desenvolvem habilidades durante esse uso? O uso do twitter por exemplo, que exige uma escrita de até 140 caracteres, ajuda o usuário a desenvolver a capacidade de síntese diante daquilo que quer transmitir e informar, além de facilitar a criação de um clipping de conteúdo! (entre outras múltiplas habilidades que ainda estão sendo estudadas em inúmeras plataformas que pipocam a todo instante!)

Com direcionamento e mediação, as instituições educacionais podem (e muito!) tirar um ótimo proveito destas novas ferramentas. Apesar de termos belos exemplos em todo o mundo, ainda não é o que estamos vendo acontecer na velocidade que gostaríamos, até porque ainda há muitos adultos e educadores (pais, professores e afins) que não sabem fazer um bom uso das ferramentas que tem disponíveis. Ou não conhecem e nem experimentam, ou então permitem e fazem um uso liberado e excessivo, sem medir as consequências, ou só veem o lado negativo, entre outras situações absurdas. Você, que concorda comigo (ou não!), provavelmente já presenciou alguma delas.

Para poder orientar e preparar as novas gerações para fazer um uso mais adequado das novas mídias e tecnologias, é preciso, enquanto adulto e 'imigrante digital', também se preparar e se alfabetizar com uma linguagem que para os 'nativos digitais' (nascidos nos últimos 20 anos, quando o computador, a internet e os smartphones se popularizaram) é sua língua materna!

Se até a Igreja, através do perfil no twitter do Papa, já percebeu que precisava se reinventar, porque ainda há instituições, como a família e a escola, que não se reinventam? Por não saber como lidar, muitas preferem proibir, censurar, limitar e ignorar que o uso de novas mídias veio para ficar e é preciso cuidado e preparo para saber atravessar esse acelerado processo de transformação.

Por ser professora de cinema (yes, baby!) na Educação Básica, ficou mais fácil me adaptar e direcionar o uso dos celulares em sala de aula. Mas reforço, que em muitas escolas que já estive, foi preciso insistência para que a escola me permitisse liberar este uso. E ele se revelou um grande aliado das aulas, na verdade. Ao falar um pouquinho sobre a história do cinema e citar algum filme, um dos meus alunos rapidamente pesquisa no google o ano preciso de sua exibição e informa toda a turma. Porque então eu me preocuparia em fazê-los decorar nomes e datas, quando estas informações podem ser armazenadas e acessadas num aparelho, se eu posso investir um tempo maior em fazê-los PENSAR sobre filmes e relações possíveis, SENSIBILIZAR seu olhar crítico e reflexivo para o universo audiovisual, DISCUTIR sobre ideias e orientá-los a executar estas ideias, através da linguagem audiovisual.

Ao invés de somente cadernos e livros, os alunos usam o computador para escrever seus roteiros e acessam e-mail para enviá-los para mim e tirar suas dúvidas. Ao invés de somente canetas e lápis, eles usam seus celulares e câmeras para se expressarem em vídeos curtos e belíssimas fotografias. E ao invés de cobrar anotação na agenda, estratégia ainda constantemente utilizada pela escola, nós usamos grupos no facebook para nos comunicarmos e darmos continuidade a aulas que não cabem nos 50 minutos semanais. O interesse maior está em aprender e aplicar no dia-dia todo esse aprendizado!

O que se ganha com isso? Um público que sabe se expressar na linguagem audiovisual e cinematográfica, é um público mais atento, e possivelmente mais crítico em relação ao que consome. E se mais crítico, mais exigente, e se mais exigente, maior a tendência de produções de qualidade serem produzidas, tanto por eles, quanto por quem se compromete a produzir algo que transforme as pessoas ao invés de apenas mantê-las na mediocridade.

Se quisermos um cinema (e conteúdo em geral) de qualidade, precisamos educar um público que exija conteúdo de qualidade. E essas não são palavras minhas, mas de muitos pesquisadores, entre eles, Maria Luiza Belloni, que trouxe o campo da mídia-educação para o Brasil. Uma linha de pensamento que acredita e defende uma educação com, sobre e através das mídias!

E se as novas gerações tem se utilizado das mídias para encontrar novas maneiras de se expressar, é nosso papel nos esforçarmos ao máximo para acompanhar este ritmo, ainda que jamais possamos dar conta! Se até o Papa (não vou nem entrar em questões de crenças e ideologias, agora, ok?!), entidade supostamente super conservadora, já está fazendo uso, porque ainda há os que se negam a se preparar para este novo contexto?!


Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @obvious //Ally Collaço