ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Como treinar seu dragão (interior)?!

Um filme e duas reflexões: Domar nosso lado 'selvagem' pode trazer uma vida mais leve e equilibrada, mas é também este mesmo lado aflorado nas novas gerações que promove profundas mudanças quando as mesmas operam em conjunto.


Terça-feira. 9h. Shopping (estranhamente) deserto, mas aberto para receber grupos e mais grupos de crianças (super animados) de instituições sociais e/ou públicas, em mais uma sessão do (lindo) Projeto Pipoca do Instituto Lagoa Social, com o intuito de promover inclusão social e cultural através de idas ao cinema, exibições mediadas e projetos pedagógicos em desenvolvimento.

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O filme?! "Como treinar seu dragão 2" de Dean DeBlois (2014). O slogan da camiseta usada pelos membros do Instituto "Um só nada faz, o conjunto é que opera" não poderia ser mais coerente com a trama apresentada.

Não vi o primeiro filme e 'caí de paraquedas' na exibição do segundo, mas com o olhar disponível de uma criança, e necessário enquanto professora, entreguei-me à história e fui surpreendentemente cativada por ela.

O quê um dragão teria a ver com crianças e adultos? Tudo. Dragão enquanto nosso 'ser selvagem', que domado, mas não reprimido, convive em harmonia com nosso 'eu civilizado'. Mas, se controlado e pautado pelo ódio e sede de vingança, torna-se letal e sabotador de nós mesmos. (Herói Soluço X Vilão Drago Bludvist)

"Dragões BONS sob controle de pessoas MÁS, fazem coisas RUINS." diz a mãe do jovem protagonista, que incansavelmente insiste pela paz e harmonia entre as partes rivais apresentadas durante o filme.

E quando nós nos machucamos (Spoiler: O dragão Banguela mata 'acidentalmente' o pai de Soluço), podemos remoer nossa escolha ruim, ou nos perdoarmos e seguirmos em frente, colhendo aprendizado.

Se o selvagem que reside em nós for dominado pelo nosso pior e combativo lado, coisas ruins podem acontecer. Mas se nosso lado pacificador e sereno domar (treinar) nossa selvageria, viveremos em paz e em harmonia conosco e com os outros.

Não sou fã de combates. Menos ainda em filmes com público infantil, mas não são justamente combates internos que travamos constantemente em nossa vida adulta? Na complexidade de nossa natureza contraditória, para além do bem e do mal, combatemos internamente sobre quem somos e o que aqui fazemos, num mundo que insiste em oferecer direções, muitas vezes opostas com as quais nos identificamos.

Aceitar ou lutar? Tentar ou acomodar-se? Ficar ou melhorar? Parar ou seguir? Bom ou mau?

O combate é eterno, mas a diferença está no treino que fazemos do nosso dragão interior. Ou encontramos equilíbrio nessa 'convivência' ou viveremos em pé de guerra.

Ainda que tenhamos que aprender a lidar com as escolhas que fazemos (superficialmente determinadas como boas e ruins, quando na verdade são oportunidades), é possível sim vencer pelo amor, pela paz, pelo equilíbrio emocional, pelo toque, pelo gesto, pelo não esquecimento e pelo constante esforço de perseguir a harmonia, mesmo que a rivalidade (interna ou externa) persista no combate violento.

Em muitos momentos, nosso combate interno transforma-se em externo, num universo de opressores e oprimidos, geralmente representados historicamente por grupos de minorias, que em conjunto podem se transformar em David-contra-Golias, demonstrando que coletivamente, minorias "empoderadas" podem combater ou se defender do poder do gigantesco opressor (ou do dragão alpha, no filme).

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De gota em gota, ou de cuspida (de fogo) em cuspida, o conjunto opera pelo todo. Assim como os dragões e humanos no filme. Assim como os idealizadores desse lindo projeto de inclusão cultural que aqui citei brevemente. Assim como em muitas das revoluções históricas que vivenciamos.

O que um filme como este poderia trazer de bom (de preferência com mediação) para as crianças?! Que operando em conjunto, ainda que representando minorias (citando o dócil e corajoso dragão Banguela), verdadeiras revoluções podem acontecer.

Duvida?! Conheça melhor o caso da adolescente Isadora Faber, que provocou profundas mudanças na escola pública aonde estudava, fazendo uso das mídias sociais e do engajamento virtual coletivo, tornando-se ativista reconhecida por uma educação pública de qualidade.

A esperança de mudança reside na renovação de um mundo comum, através das crianças e jovens, as novas gerações, que preservam a selvageria necessária enquanto espíritos-livres, para além do bem e do mal, mas que precisam ser necessariamente mediadas pelas velhas gerações, que carregam a responsabilidade (e o poder) de ajudar a domar esta selvageria pela repressão e raiva ou pela pacificação e equilíbrio entre todas as partes.

“A educação está entre as atividades mais elementares humanas e necessárias da sociedade humana, que jamais permanece tal qual é, porém se renova continuamente através do nascimento, da vida de novos seres humanos.” Hannah Arendt

Treinar seu dragão interior é domar a sua selvageria para viver com mais leveza e paz, mas é também encorajar que as novas gerações promovam a revolução necessária para um novo e melhor mundo, ainda que o combate (infelizmente) exista e seja necessário para trazer equilíbrio e renovação.


Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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