ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Vagas abertas para poetas!

"Difícil não é escrever poesia, mas encontrá-la dentro de si!"


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"Poesia" é um filme sul-coreano, escrito e dirigido por Lee Chang-dong, protagonizado por Mija (Yun Jeong-hie), uma senhora de 66 anos, vaidosa, sagaz e observadora, que resolve aprender a escrever poesias, tarefa que considera difícil, quase impossível, ainda que aprecie e admire quem as escreve.

Mija trabalha como empregada-acompanhante de um senhor de idade com dificuldade de locomoção, e cuida do neto Lee Da-wit (Jongwook) de 16 anos. Sua maior alegria é poder 'alimentá-lo', ou seja, criá-lo, mesmo distante da filha.

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Não sabemos ao certo qual o passado de Mija, mas ainda que ela seja solitária, fale com a filha apenas por telefone, tenha um neto ingrato e se submeta aos trabalhos domésticos e cuidados de um velho rabugento, Mija parece sempre contente, plena e feliz!

Diante da tocante personalidade de Mija, foi impossível para mim, não lembrar da minha avó e seu caderninho de anotações e desenhos, onde sempre inspirada, escrevia pequenos textos, copiava frases interessantes e rascunhava figuras alegres. Assim como Mija, minha avó teve uma vida marcada por sofrimento, mas foi a 'poesia da vida' que a curou de uma depressão e devolveu seu espírito artista e a vontade de viver.

Hoje, infelizmente, ela já não consegue mais fazer poesia. Um AVC a deixou debilitada, mas seu sorriso de poeta ainda toca profundamente meu coração. Poeta é aquele que capta o 'mundo', enquanto o 'mundo' capta os não-poetas.

mescla.jpg Desenho da Vó Teka & Mija em "Poesia"

Minha avó também é "meio poeta, gosta de flores e fala coisas 'esquisitas'".

E Mija é como minha avó, dócil, amortecida pelas dores da vida, guerreira e deslumbrada com as pequenas coisas.

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Mas ainda que a vida pareça difícil, Mija encara tudo com o deslumbramento de uma criança e se aventura num curso de poesia, com a esperança de aprender a colocar em palavras a beleza que vê em tudo, ou melhor, suas 'esquisitices'.

No primeiro dia, o professor mostra uma maçã e pergunta 'quantas vezes 'vemos uma maçã?', 1 vez, 10 vezes, mil vezes?! 'Nenhuma', diz ele. Para escrever poesia é preciso ir além de ver, é preciso sentir, tocar, apalpar, reparar, cheirar, ouvir, morder, degustar a maçã. É preciso repará-la, e assim reparar o mundo a sua volta. Para escrever poesia, é preciso reparar nas coisas mais banais e comuns, que passam despercebidas por nós.

Fazer poesia é transformar algo banal em sentimento, em expressão, em emoção.

É despertar um olhar sensível para o mundo, e encontrar dentro si as palavras que tentam definir este encontro.

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Depois da aula de poesia, Mija volta para casa e observa atentamente sua cozinha, e com o passar dos dias, observa as árvores, o canto dos pássaros, o rio, as pessoas, a vida a sua volta. Uma vizinha pergunta "O que você está olhando?!" "A árvore!" diz Mija. "Mas pra que você está olhando a árvore?!"

"A poesia um dia irá acabar. São raros os que ainda se reúnem para apreciá-la." diz um membro do grupo de poesia.

Nesta correria da vida, é preciso PARAR às vezes, antes que o ´próprio tempo nos 'pare'. =)

As vagas estão abertas para os poetas!

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Ao reparar profundamente no mundo a sua volta, Mija depara-se com a dura realidade de sua própria vida. Como uma flor, murcha, ao descobrir que uma jovem garota, Agnes, se matou após abusos sexuais sofridos por um grupo de colegas da escola. O neto de Mija é um destes garotos. Os pais se reúnem e resolvem pagar uma quantia alta pelo silêncio da família da vítima. E diante de tanta beleza, Mija vê e sente sofrimento, dor, horror, nojo, desprezo, ingratidão, desespero, angústia.

O belo sorriso de Mija se apaga. Tenta, em vão, salvar o neto, anulando-se e humilhando-se. O diagnóstico do mal de Alzheimer, e sua perda de memória, é o que menos a incomoda. Mija só consegue pensar em Agnes, garota inocente que teve sua vida precocemente interrompida pelo desespero e vergonha.

Na tentativa de salvar o neto, Mija então se submete ao mesmo desespero, humilhação e dor de Agnes. Se submete ao mesmo sofrimento que Agnes vivenciou antes de morrer, sabendo que seu neto, tão amado, fez parte disso tudo.

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Sobre flores, árvores, pássaros e dias ensolarados, Mija rascunha versos belos e desconexos, mas não consegue escrever poesia. Não consegue encontrar encaixe ou coerência. Não consegue dar unidade aos sentimentos confusos que sente. Ela vê toda beleza ao seu redor, mas não consegue encontrá-la dentro de si.

O mundo é tão belo por fora, mas com o passar dos dias, Mija, como uma maçã ou fruto qualquer, apodrece por dentro.

No último dia de aula, com a promessa dos alunos entregarem uma poesia, Mija, a única 'poeta', despede-se da vida, encontrando (e desencontrando) a si mesma, com sua única e última poesia, "A canção de Agnes".

"Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." Clarisse Lispector.


Ally Collaço

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