ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Parem de terceirizar as crianças!!

Nunca um filme representou tanto a voz daqueles que imploram pelo fim da 'terceirização' das crianças! Se você deseja ser pai ou mãe, VEJA o filme. Se você não deseja, VEJA também!


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Hoje me deparei com um texto-desabafo de uma mãe ativista, da fanpage Quartinho da Dany trazendo como reflexão, a terceirização das crianças. Curti, comentei e compartilhei. E para quem quiser, está aqui.

Como em muitos posts online, a interação dos fãs acaba por enriquecer o tópico levantado, trazendo, na melhor das hipóteses, uma boa discussão. E falar sobre a terceirização das crianças é falar sobre educação e sobre o importante papel dos pais.

Não é novidade que muitos pais tem jornadas de trabalhos longas e acabam deixando seus filhos aos cuidados da escola, babás, avós e até da tv. Alguns conseguem fazer das poucas horas, um tempo de suposta qualidade, mas a questão para pensarmos aqui é: se homens e mulheres não tem tempo para cuidar e educar seus filhos, porque tê-los então?!

Tony Kaye lançou em 2011 um filme chamado "O substituto", que se encaixa perfeitamente nesta importante discussão.

Quem deseja ter filhos, DEVERIA ver esse filme e refletir muito antes de tomar uma decisão. E quem não deseja, também deveria ver, afinal o futuro pertence às novas (e terceirizadas) gerações, e todos nós fazemos parte do processo de formação delas, em maior ou menor escala. Vivemos uma crise na educação, como já afirmou Hannah Arendt no livro "Entre o passado e o futuro", onde precisamos reinventar o papel da escola, para que a própria existência humana não se imploda.

“A educação está entre as atividades mais elementares humanas e necessárias da sociedade humana, que jamais permanece tal qual é, porém se renova continuamente através do nascimento, da vida de novos seres humanos.” “Um estado de vir a ser”, onde a “criança, objeto da educação, possui para o educador um duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação; é um novo ser humano e é um ser humano em formação.” P. 234 e 235

“A criança requer cuidado e proteção especiais para que nada de destrutivo lhe aconteça de parte do mundo. Porém o mundo necessita de proteção, para que não seja derrubado e destruído pelo assédio do novo que irrompe sobre ele a cada nova geração.” “Por precisar ser protegida do mundo, o lugar tradicional da criança é a família.” P. 235

“Qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria ter crianças, e é preciso proibi-la de tomar parte em sua educação.” P. 239

A grande crise na educação estaria ligada ao fato de que ‘toda e qualquer responsabilidade pelo mundo está sendo rejeitada, seja a responsabilidade de dar ordens, seja a de obedecê-las.” “Os adultos se recusam a assumir responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças.” P. 240

No filme de Kaye, o protagonista Henry Barthes (Adrian Brody) é um (eterno) professor substituto de escolas públicas (EUA) que (aparentemente) prefere não se apegar aos alunos (nem a ninguém). Algo ruim que aconteceu no passado contribuiu para que ele tivesse a empatia necessária para se relacionar com seus alunos "problemáticos", ao mesmo tempo que o tornou alguém solitário e desanimado com a vida.

Oriundo de um lar "desestruturado", apresentado de forma fragmentada por um avô doente e uma mãe viciada e suicida, Barthes (sobrenome curioso, não?!) parece compreender cada jovem alma perturbada e com poucas palavras é capaz de confortar e conquistar o outro. É um 'pai', um psicólogo, um amigo, um 'substituto' de tudo isso, como todo "bom" professor acaba sendo na vida de algumas crianças e jovens. É também responsável pela formação de cada pequeno ser "incompleto" que cruza o seu caminho, e isso é um enorme fardo, quando seus atos contribuem para finais infelizes. Afinal, nem sempre dizer que tudo 'vai ficar bem' é a solução para os mais profundos dramas de uma alma perturbada.

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Na sequência final do filme, Barthes pergunta quem já sentiu um peso grande, como se a vida estivesse nos sufocando. Todos os adolescentes da sala de aula levantam a mão e ele também. Então ele diz que Edgar Allan Poe também sentia isso há 100 anos e escreveu um conto chamado "A queda da casa de Usher". Ele diz que o conto não era sobre a casa, mas sobre um estado de espírito.

Para mim, este filme não é sobre um professor substituto, mas sobre o estado de espírito (atual?) de todos os professores e profissionais envolvidos com a Educação das novas gerações. É um misto de desânimo e esperança.

Em determinado trecho, ele desabafa com seus alunos (temporários) que ir para escola e aprender sobre as coisas é a única chance que temos de não nos tornarmos reféns de quem domina o processo da comunicação. É ser capaz de avaliar o que consumimos, criticar e recusar aquilo que não concordamos.

Diariamente vemos jovens 'desperdiçarem' o tempo vivido na escola, por considerarem inútil ou desinteressante. E somente quando tiverem maturidade para avaliar, é que verão que desperdiçaram esse tempo lamentando ao invés de torná-lo mais produtivo. Ao mesmo tempo isso reflete que, nós professores e educadores, estamos falhando em nossa função, quando diante de inúmeras abordagens, percebemos que nenhuma delas funciona. Tentamos outra ou desistimos?!!

É preciso reinventar a escola ou ela irá implodir! (se já não implodiu). Lembro na minha primeira semana de aula, empolgada com o novo desafio de lecionar, de ouvir outra professora dizer "Aproveita, que essa paixão vai passar!". Eu não compreendia como aquele sentimento poderia passar e compreendia ainda menos, porque alguém que perdeu essa paixão, continuaria no ofício de professora.

Já faz 6 anos que ouvi essa frase e ainda não perdi a paixão, mas confesso que às vezes me sinto no caminho. Já vivo o misto inconstante de desanimar e ter esperança ao mesmo tempo. Com o passar dos anos, você entende que a experiência de professora não vai te ajudar a solucionar os problemas, porque a cada ano, em cada turma, em cada dia, um novo desafio irá se apresentar e você terá que aprender a lidar com ele. A pergunta que sempre me faço é: eu quero isso pra mim? Enquanto eu for professora, a resposta será sim.

O que é ser um bom professor? É ter empatia e ser capaz de ouvir os alunos, quando seus pais poderiam e deveriam cumprir esse papel? O profº Henry Barthes diz no filme, que deveria haver um teste 'vocacional' para saber quem poderia ter filho. Deveria haver uma seleção, pois nem todos estão preparados para esta 'vocação'.

Colocar um filho no mundo é assumir uma responsabilidade eterna e diária, mas parece que muitas pessoas não cumprem esse papel. E isso se reflete em escolas vazias nas reuniões de pais, que deveriam fazer parte de sua rotina. Discutir sobre a educação dos filhos, num espaço que frequentam em boa parte da vida. Mas não há tempo. Não é uma prioridade. "Que a escola resolva o que 'eu' não posso resolver!" Os pais estão terceirizando a educação!

Está cada vez mais difícil lidar com as dificuldades de ser professor. De entrar numa sala de aula todos os dias e não desanimar com o descaso dos jovens, dos pais, dos governos com este profissional que precisa sozinho "conquistar", ou na pior das hipóteses, "dominar" uma turma de 20, 30, 40, ou 100 alunos. Se já é desafiador ser pai e mãe de 1 ou 2 crianças, imagine de um grupo tão grande?! É realmente pedir demais!! É agir de forma irresponsável!!

E talvez a culpa não seja toda dos pais, mas de todo um contexto e sistema injusto, que não favorece nenhuma das partes. Como reverter?! Parando de ter filhos ou implodindo esse sistema injusto e desumano.

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Mas em Barthes, como em todo (bom) professor, também há esperança. Quando ele acolhe uma jovem prostituta, oferecendo a chance de mudar sua trajetória, ele oferece perspectiva. E muitos alunos, com muita raiva de si e do mundo, só precisam dessa chance, dessa oportunidade que pode mudar suas vidas para sempre. Só precisam de voz e serem ouvidos, muitas vezes!

Quando me dou conta que tenho essa oportunidade nas mãos, de realmente ajudar alguém, percebo que não há valor que compense essa missão. Que isso preenche minha vida de motivos para continuar sendo professora. É um sentimento paradoxal, querer e não querer, ser e não ser. Talvez fazer bem para o outro é também fazer mal a mim mesma. Terei a coragem necessária?!

Manter-se passageiro enquanto professor, talvez seja a melhor oportunidade para manter-se apaixonado. Para não desanimar e continuar tentando, mesmo quando tudo parece desabar neste ofício. Manter-se fresco e novo na experiência de lecionar. Conhecendo novos alunos e novos colegas. Conhecendo novas escolas ou escolas que se reinventam a cada dia, para cada aluno e professor.

Professores não devem ser os substitutos dos pais. Ninguém deve ser. E se não se pode assumir a responsabilidade e decência de ser pai e mãe, então não seja pai e mãe!

Talvez para Barthes, ser um bom professor é viver o desapego. É estar ali somente o necessário para oferecer perspectivas e depois recomeçar num novo lugar. Não se acomodar ou deixar que a paixão se desgaste, porque se ninguém mais quiser cumprir esse papel, o de professor, num mundo os pais estão ausentes, o que será de todos nós?!!

“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e jovens. A educação, é também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso, com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum.” Hannah Arendt no livro Entre o passado e o futuro - P. 247


Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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