ally collaço

Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Despedindo-me de mim!

Estar grávida é uma experiência única. É impossível compreender, sem estar, sem vivenciar. Este é um texto-desabafo de como é estar grávida de 19 semanas. Há muita coisa pela frente, muita coisa na cabeça, e não sei mais quem sou ou serei... sinto que estou me despedindo de mim...


Eu sinto falta de tomar cerveja de forma descontraída e sinto falta dessa sensação (descontraída) num futuro que ainda nem chegou. Jamais segurarei um copo de cerveja de novo sem comprometimento com nada. Cerveja certamente ainda voltarei a tomar um dia, mas sem aquela liberdade de ter o mundo e o tempo pela frente. Mas não estamos falando só de uma simples cerveja, não é mesmo?!

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Essa liberdade já se foi. Já não sou mais só "eu" aqui nesse mundo. Há outro ser dentro de mim. O que faço pra mim, faço pra ela. Porque não cuidei melhor de mim antes?

Sinto falta de não sentir culpa quando resolvo não comer salada quando não estou a fim. Como...por ela, eu como. Sem vontade às vezes, mas como.

Quantas mais coisas eu farei, só por causa dela?! Quem é essa que me tornei?

E com culpa, como coisas que talvez não devesse comer. Que não daria pra ela comer nos primeiros anos de vida. Mas eu como. E digo "Filha, saiba que vc está provando esse gosto agora, mas mamãe não vai te dar quando vc estiver aqui fora..." E abocanho um x-salada delicioso!! Além das fritas, claro! E uma dose de culpa depois.

Fico ouvindo o silêncio da casa e pensando que vou sentir falta disso também.

Amarro o cadarço e penso que em breve não conseguirei mais fazer isso. E até já me acostumei com o xixizinho que escapa de vez em quando.

Xingo sozinha no trânsito, escuto música alta e penso que tudo isso vai ficar para trás também. Do que mais abrirei mão?!

Tento imaginar como vai ser fazer cocô com uma criança junto, algo tão íntimo e pessoal, nunca compartilhado com ninguém depois de virar gente grande.

Chorei um pouquinho ao encaixotar meus livros, imaginando se um dia vou voltar a estudar de novo. Acariciei calmamente os favoritos e guardei com carinho na caixa. "Até logo, talvez!"

De vez em quando eu choro, pensando como vai ser o casamento depois de haver um bebê. Iremos nos amar da mesma forma? Como será não sermos só nós dois? Seremos os mesmos? Viveremos conflitos inimagináveis na hora de educar? As diferenças ficarão evidentes? O futuro incerto assusta um pouco.

Todos os dias me olho no espelho, e assim como procuro algum progresso de barriguinha crescendo, imagino como vai ficar meu corpo no final de tudo, no depois.

Vou me amar murchinha? Com estrias? Com peito caído? E cansada?

Observo a casa, o vazio e silêncio. Sentirei falta?

Entro no quarto dela, ainda incompleto. Aliso os móveis, cheiro as roupinhas, procurando vestígios de um futuro que ainda nem chegou.

Como ela vai ser? O rosto? O cheiro? O sorriso? Como vai ser esse amor que vou sentir? Vou saber cuidar? Terei nojinho do cocô? Será que falta mais alguma coisa do enxoval?

Sento, listo tudo, arrumo a primeira versão da mala da maternidade, com apenas 19 semanas de gestação. Começo a rir quando recebo o diário-virtual do papai. "Mamãe está ansiosa, filha, já fez até a mala."

Pai carinhoso. Apaixonado. Transbordo de amor por ele. Por ela. Terei ciúmes deles?

Quem serei eu na próxima semana? Nos próximos meses? Quem serei eu mãe? Que até então foi só menina, filha, mulher, esposa...

Me irrito quando tocam na minha barriga sem antes me cumprimentar. Me irrito quando dizem que a gravidez me deixou mais bonita. E acho que deixou mesmo, mas me irrito ao ouvir isso.

Me irrito com minha própria irritação.

Choro sem motivo às vezes, e muitas vezes com motivo. Uma palavra grosseira, um sentimento que não sei lidar, um ciúme inexplicável que resolve aparecer.

Perco o controle quando acho que estão tentando proteger minha filha de mim. "Você precisa se acalmar." "A filha é minha e me acalmo se eu quiser!"

Às vezes, abraço a barriga no banho e choro, imploro pra ela ficar. Pra ela me querer como mãe.

Me desculpo porque não tô cuidando direito de mim. Se não como direito, se me estresso, se me descontrolo emocionalmente, se estou com medo.

Sinto medo. Vou conseguir parir? Vai dar tudo certo? Ela vai ser saudável? Se não for, serei capaz de amar e lidar? Vou conseguir amamentar? Vou saber amamentar? Meu peito vai doer?

Gosto do peito maior. Sexy! Vai ser sexy depois?

E assim como sinto falta de coisas que já comecei a me despedir, fico ansiosa esperando as novas acontecerem...

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Como vai ser levá-la no primeiro dia da escola? Ajudar com a tarefa? Vê-la segurando a mochilinha?

Como vai ser fazer o primeiro rabinho de cavalo? E vê-la correr no parque? Receber o primeiro desenho abstrato ou escrito "eu te amo"...

Como vai ser o pézinho quando ela nascer? Dedos perfeitos e fofinhos? Os olhos abrirem pela primeira vez. Serão castanhos como os nossos? Duas lindas jabuticabas? Será cabeluda? Liso como o pai ou enroladinho como a mãe?

Terá traços do nosso rosto ou parecerá com algum parente?

Como vai ser aquela mãozinha agarrando a minha, me olhando toda apaixonada? Me abraçando com pureza e amor?

Aqueles dedinhos miudinhos segurando o meu. A boquinha sugando o leite. O rosto adormecendo. O calorzinho no meu peito.

E ouvir a voz dela? Fininha, engraçada, fofa e doce. Ouvir ela me chamar ou chamar o papai...

E como seremos nós 3 desbravando o mundo juntos?! De mãos dadas, andando na rua. Ou vê-la no colo do papai adormecida e cansada de brincar.

Como será ela adolescente? Seus gostos? Suas opiniões e ideias? Seremos amigas? Serei a mãe chata? Seremos próximas? Brigaremos algum dia?

Conseguirei sobreviver um dia sem estar com ela, pela primeira vez?

Conseguirei dividí-la com o mundo? Deixar alguém segurá-la, sendo tão frágil?

Conseguirei ser dura e forte quando necessário, e doce em todas as horas?

Segurarei o choro quando ela ralar o joelho pela primeira vez? Ou cair o dente e sangrar? Serei forte quando ela se decepcionar com uma amiga ou relacionamento amoroso?

Aceitarei bem sua sexualidade? Saberei lidar com ela, seja como for?

Acharei suas perguntas engraçadas? Terei paciência com seu ritmo? Saberei respeitá-la na sua identidade?

São tantas, milhares, infinitas perguntas...

Decidir ser mãe é um caminho, cheio de surpresas, alegrias e tristezas. Um caminho cheio de medos, inseguranças, ansiedade e expectativa.

Estar disposta a ser mãe é abrir mão de quem você é agora, para ir conhecendo quem você se tornará em breve.

É uma dolorosa e necessária despedida. Cada um na sua própria jornada, da sua maneira, no seu tempo.

Essa transição não é fácil, a tal ponto que o parto é o marco entre quem você era e quem começará a ser.

Não há mágica para parir. É um rompimento físico e emocional forte. É um rasgo.

E para a sábia natureza, parece-me que não poderia ser diferente.

É perceber "não estarei mais sozinha daqui em diante." Daqui para sempre.

É assustador. É lindo. É mágico. É simplesmente, único! Não há nada que eu já tenha vivido, perto do que estou vivendo agora. Como não escrever sobre isso?!

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Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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