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Devaneios sobre cinema e outras coisas!

Ally Collaço

Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?

Maternidade e o encontro com a própria sombra!

Apresento aqui a minha leitura do livro de Laura Gutman sobre a maternidade. Espero que esta resenha 'ilumine' os caminhos de quem se sente confusa(o) em relação ao tema.


Estou quase no final da minha gestação e este livro se mostrou de extrema importância para compreender todo o período de pós-parto que irei enfrentar em breve, o chamado 'puerpério'. Tenho amigas que já ouviram falar do livro, escrito em 2007, mas não o leram, e que ao me relatarem suas experiências e frustrações no pós-parto e cuidados com o bebê, fez me pensar que ter lido o livro poderia ter feito diferença. Espero que ele me ajude e que esta sucinta resenha ajude você, leitor(a)! =)

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A proposta de Gutman, psicoterapeuta familiar, é ajudar as mães a lidarem com suas emoções durante a gestação e no pós-parto, trazendo temas como a fusão emocional entre mãe-bebê, parto, amamentação, sexualidade, papel do pai, organização familiar, cuidados com o recém-nascido, etc. É preciso manter a mente aberta e compreender que a autora oferece fundamentação para movimentos que surgiram recentemente, como a amamentação à livre demanda, criação com apego, humanização do parto, etc.

Gutman parte da perspectiva de Carl Jung, que acredita que a mãe e o bebê permanecem em fusão emocional até os 2 primeiros anos de vida, e se a mulher compreender que o bebê é uma projeção de suas sombras (questões inconscientes mal resolvidas), poderá se sair melhor nas crises de choro, problemas com amamentação e cuidados com um serzinho tão frágil como um bebê. A autora distingue estas sombras (do puerpério) da depressão pós-parto, muitas vezes diagnosticada precocemente, resultando em uso de medicação, quando a psicoterapia já poderia ajudar.

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O puerpério

No primeiro capítulo, Laura explica a fusão emocional, onde tudo que a mãe sente se projeta no bebê. Se ela está triste, preocupada ou desesperada, é comum o bebê manifestar as mesmas emoções, muitas vezes fisicamente, então ela recomenda que ao invés de tentar entender o que se passa com o bebê, a mãe deve se perguntar "o que se passa comigo?". Essa fusão se torna uma grande oportunidade para a mulher mergulhar num profundo processo de autoconhecimento.

"O bebê vive como se fosse dele tudo aquilo que a mãe sente e recorda, aquilo que preocupa ou rejeita. Porque nesse sentido, são dois seres em um." (pág. 17)

"À medida que uma mulher vai assumindo a própria sombra, observa-a, indaga, investiga, questiona a si mesma, libera o filho da manifestação dessa sombra." (pág.29)

Laura critica a idealização que a sociedade faz da gestação e da maternidade, escondendo a complexidade de sentimentos que a mulher sente, na medida em que a 'montanha russa' hormonal afeta os sentidos da mulher, fazendo-a se sentir triste e alegre ao mesmo tempo, animada e assustada, segura e insegura com a chegada do bebê. Após o parto nasce um bebê, mas também nasce uma mãe, uma nova mulher, que se despede de si mesma para conhecer sua nova versão, e este processo de transformação pode ser doloroso, confuso e ilógico.

"Há uma tendência social de apresentar as grávidas embelezadas com o ventre à mostra, observando, reclusas, o mundo a partir do próprio umbigo, infantilizadas e cercadas de pensamentos supérfluos, folheando revistas românticas ou de conselhos úteis. (...) A tendência cultural consegue congelá-las nessa ´fantasia´, um espaço no qual se vive de camisola cercada de florezinhas de papel, achando que estarão brincando de boneca. Não estão dispostas a se preparar para encontrar a própria sombra, que indefectivelmente aproveitará o parto para entrar na festa sem ser convidada." (pág. 87)

É preciso apoiar estas mulheres nesta fase tão delicada do pós-parto, procurando compreendê-las e abrindo espaço para que se expressem, sem julgamentos e interferências. É preciso falar do puerpério e desmistificar que tudo será lindo e perfeito com a chegada de um novo ser! É lindo, mas extremamente assustador e um caminho desconhecido, de erros, tentativas e alguns acertos.

O parto

No segundo capítulo, Gutman fala sobre o parto e sua relação com a sexualidade da mulher. Vivemos num contexto de extrema exposição, onde as mulheres tem agendado cesarianas e transmitido seus partos em tempo real, quando deveriam considerar o momento como algo íntimo, pessoal e delicado.

"Atravessar um parto é se preparar para a erupção do vulcão interno, e essa experiência é tão avassaladora que requer muita preparação emocional, apoio, acompanhamento, amor, compreensão e coragem por parte da mulher e de quem pretende assisti-la. (...) O parto deveria ser revelador, no sentido de que cada mulher deveria ter a possibilidade de parir de maneira mais próxima daquilo que ela é em essência. São poucas as mulheres que conseguem se ver refletidas no parto que acabam de atravessar. Os partos não são bons nem ruins, mas a vivência de cada mãe é fundamental para a compreensão posterior de suas dificuldades no início do vínculo com seu filho." (pág. 40 e 41)

Independente de como o bebê venha ao mundo, o parto representa um rompimento, uma passagem importante para a mulher. Gutman o considera uma experiência mística, e talvez o fato mais importante da vida sexual das mulheres, "e por se tratar de um fato sexual, temos o direito de vivê-lo na intimidade e com profundo respeito à pessoa como ser único, sua história, suas necessidades e desejos pessoais", corroborando para o discurso do parto humanizado, movimento recente e atual no Brasil.

O bebê, a criança e sua mãe fusionada

No capítulo 5, Gutman fala da gestação extra-uterina com duração de 9 meses, onde as necessidades básicas do bebê seriam a comunicação, o contato e a alimentação permanente, como acontece durante os 9 meses intrauterinos, e que garantidos, podem oferecer maior equilíbrio emocional para a mãe e para o bebê.

Para a autora, o bebê deve estar sempre em comunicação e contato permanente com a figura materna através do olhar, da percepção de sua presença e do seu amor. E permanente significa o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento e ritmo. Assim, ele se sentirá seguro e confortado, como se sentia dentro do ventre da mãe. E assim como ele se alimentava o tempo todo dentro do útero, à livre demanda, a alimentação também deveria ter esse aspecto, até que ele comece a se comunicar de outras maneiras que não seja somente pelo choro. O ideal seria criar condições para que a mulher pudesse cumprir este período sem ter que se afastar do bebê, apesar de sabermos que, na maioria das vezes, isto não seja possível, infelizmente.

Neste capítulo, Gutman também defende a importância de sempre conversar com os bebês e crianças, além de explicar tudo que está se passando com eles, como uma troca de fralda, um banho quente, etc. "Devemos conversar sobre o que acontece conosco, o que sentimos, sobre a origem de nossas preocupações, os motivos de nossas alegrias, nossos projetos e desejos, êxitos e dificuldades, amores e desamores, conquistas e perdas. (...) Exercitar o hábito de falar, todos os dias, diante de cada situação que se apresentar e colocar em palavras o que fazemos, o que sentimos, o que acontece conosco, o que somos." (pág. 109 e 111)

Ela diz que esse processo de comunicação ajuda na separação da fusão emocional mãe-bebê, onde a criança com cerca de 2 anos passará a ter noção da própria existência, enquanto ser único, denominando-se de "eu", e aos poucos se integrará ao mundo externo. E entraria aqui o papel fundamental do pai.

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O papel do pai: apoiar e separar

Para Gutman, o pai apoiar a mãe significa responsabilizar-se por tudo aquilo que não diz respeito ao bebê, como "amamentar, ninar, acalmar, higienizar, alimentar e apoiar o recém-nascido." Caberia ao pai cuidar de todas as tarefas domésticas, a atenção dos filhos maiores, a organização do lar, a administração do dinheiro, os conflitos com outras pessoas, as relações intrafamiliares, o reconhecimento do mundo e as decisões mentais", para que a mãe possa exercer a maternidade com plenitude e com total equilíbrio emocional. Pelo menos, nos dois primeiros anos de vida, que é o tempo que costuma durar a fusão emocional entre mãe-bebê.

Ela diz que quando o pai não dá esse suporte emocional importante, muitos conflitos se erguem sobre o casal, na medida em que muitos pais esperam que a mulher, além de ser mãe, cuide da casa, dos maridos e de tudo mais. Isso só resulta em mulheres estressadas, sobrecarregadas, com bebês desesperados por estarem sem o colo permanente da mãe. A autora defende que toda mãe é capaz de cuidar sozinha do seu bebê, dispensando a ajuda do pai, porém sem o suporte emocional citado acima, e concentrando outras tarefas, além do bebê, é inevitável que o desequilíbrio familiar se instale.

"O pai não tem de exercer a maternidade; tem de apoiar a mãe em seu papel na maternidade." (pág. 132)

Para Gutman, o equilíbrio familiar existe quando o pai sustenta emocionalmente à mãe, que respectivamente sustenta emocionalmente a criança. E aqui, cabe um questionamento interessante: Quem apoia o pai? A autora diz que "o homem é apoiado pela própria estrutura emocional" e que o tempo de lazer do homem contribui para este estado emocional de equilíbrio.

Aqui é importante analisar com cautela as afirmações de Gutman, na medida em que muitos homens não dão suporte emocional para as mães e ainda contam com seus momentos de lazer, resultando em crises e brigas entre o casal. É preciso que a mulher tenha atenção exclusiva para o bebê, que o pai garanta isso, e procure se manter em equilíbrio para aceitar e apoiar a esposa sem julgamentos e questionamentos sobre o bebê.

E por fim, Gutman diz que o pai exercerá o papel importante de separador emocional entre mãe-bebê, por volta dos dois anos de idade, apresentando uma nova estrutura familiar, de mãe e pai que se apoiam mutuamente e juntos apoiam emocionalmente seu filho.

Doenças infantis

No capítulo 7, Gutman também fala das doenças infantis como manifestações do estado emocional da mãe. Ela diz que "o sintoma físico é o melhor indício de que o ser humano dispõe para buscar a origem do desequilíbrio" e oferece a oportunidade de encarar as doenças como formas da mãe compreender a si mesma e o bebê.

"A medicina tradicional tem como objetivo fazer a doença desaparecer e, mais ainda, eliminar os sintomas. Lutar contra a doença implica lutar contra nós mesmos (contra nossa sombra, que também somos nós.) E por isso falha. O objetivo jamais deveria ser a eliminação do sintoma, uma vez que ele nos permitirá compreender o caminho a ser seguido. (...) Ouvir realmente um sintoma nos obriga a ser mais sinceros com nós mesmos." (pág. 161)

O caminho que ela aconselha seguir para lidar com as doenças infantis é verificar se as necessidades básicas da criança foram atendidas; buscar sombras da mãe e no caso de crianças com mais de 2 nos, identificar se a doença não é uma manifestação da sombra da própria criança.

A educação das crianças

Nos capítulos seguintes, a autora fala da importância de sermos verdadeiros com as crianças e de exercemos a paciência, tolerância e dedicação na educação delas. Procurar exercer a escuta, ao invés de somente impor nossas vontades e desejos do mundo adulto, tidos como os 'necessários' limites. Parar de ocupá-las com tantos afazeres para que o mundo dos adultos funcione perfeitamente. Lembrar que creches ou instituições da primeira infância não são para elas, mas para pais que não tem tempo para elas, quando tempo e atenção dos pais é o que verdadeiramente elas mais precisam nos primeiros anos de vida.

"Estamos perdendo de vista a natureza da criança humana. São seres que precisam de contato, intimidade, brincadeira, momentos de ´não fazer nada´, de estar, simplesmente, no colo. Merecem que sejam respeitados seus ritmos de sono e de vigília, e de estar com o outro e permanecer, e usar chupeta, e ser mimados, e ficar à toa, e perder tempo. Enfim, merecem ser bebês. Ser criança". (pág. 219)

"São necessários adultos que tenham vontade de se comprometer com o mundo interior ao qual serão levados, inevitavelmente, pelas crianças. Comprando menos brinquedos, assistindo menos televisão, brincando menos no computador e pedindo às crianças que os ajudem a varrer ou pôr a mesa. Porque brincar de mãe com a própria mãe é pura magia." (pág. 220)

Afinal, a integridade emocional é construída na infância, e cabe a nós nos perguntarmos qual o mundo afetivo que queremos para elas!

Além destes temas, Gutman também defende o respeito do tempo da criança em relação ao desfralde, que acaba acontecendo precocemente por vontade dos adultos. Fala da criança violenta que sofre violência não somente física, mas emocional também, e que isso deve ser considerado nas análises comportamentais, além de outros temas interessantes.

Coloquei aqui apenas alguns trechos e temas que chamaram a minha atenção no livro e que valiam ser expostos. Para melhor compreensão e interpretação, recomendo a leitura completa do livro, que poderá enriquecer o olhar dos pais interessados no processo educativo de seus filhos. Cabe extrair o que há de melhor, adaptar o que for possível, e olhar com carinho as reflexões que a autora traz em seu livro, considerado referência por muita gente, nessa confusa fase do pós-parto e no exercício da maternidade!


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Eu sou aquela que tem mais perguntas que respostas. Inquieta e curiosa. Apaixonada por cinema, novas experiências, histórias e uma boa prosa. Também curto poesia, comida, música, museu e fotografia. Intensidade já faz parte do meu dia. Bora?.
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