Christine Alencar

Melomaníaca, nordestina sem sotaque, aprendiz de escritora. Futura mochileira e talvez um dia, esposa do Marcos Ramos.

Quando os sapatos se tornam tão importantes quanto água e comida

Apesar de já durar mais de 4 anos, as consequências da guerra na Síria nunca estiveram tão presentes nos nossos noticiários. Mortes, fronteiras que abrem e fecham, a dor de não ter lugar para ir nem casa para voltar, a busca por um novo lar e pela chance de ter de volta à vida que lhes foi tirada.


ap_sirijos-pabegeliai-keliauja-i-makedonija-is-graikijos-55e068cc0f15a.jpg Fotografia: Santi Palacios/Associated Press

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a guerra civil na Síria é a pior crise humanitária deste século e já causou mais de 250 mil mortes, além de ter resultado em mais de 7 milhões de refugiados, números que crescem todos os dias.

Além das mortes ocasionadas pelos ataques da guerra, cerca de dois mil imigrantes morreram, só em 2015, tentando atravessar o Mediterrâneo. O desespero e a urgência em escapar da guerra, obrigam os refugiados a buscarem alternativas não seguras para atravessar o mar em busca de asilo, pagando caro para ter um pouco de esperança, que muitas vezes é levada pelas ondas. E, mesmo os que conseguem realizar a travessia, não estão livres das dificuldades, pois precisam enfrentar a batalha de conseguir a documentação necessária para permanecerem no país, ainda sob o risco de serem deportados e obrigados a recomeçarem a jornada.

crop_3233861.jpg Fotografia:Bulent Kilic/Agence France-Presse

Pra quem está do outro lado da tela da TV (ou do mundo), é quase impossível imaginar como é precisar fugir do seu país e sem ter destino certo para ir. E tão difícil quanto isto é entender por que tantos países se recusam a abrir suas fronteiras e acolher os refugiados da guerra.

8995EA28-CF4E-4170-B5D2-C131ACF199B1_cx0_cy7_cw0_mw1024_mh1024_s.jpg Fotografia: Istvan Ruzsa/Agence France-Presse

Por mais que pareça absurdo permitir que milhares de pessoas fiquem sem país, sem uma chance de tentar reconstruir suas vidas, deixando para trás o trauma de ter sido expulso da própria casa, sem culpa nenhuma, facilita se imaginarmos que os países são como nossas casas, e que para recebermos pessoas é preciso ter espaço para acolhê-las, comida, lugar para dormir...do contrário, uma crise se instala.

Mas, o receio de não ter estrutura para acolher a todos não é a única razão para que vários países mantenham suas portas fechadas, a principal causa dessa “omissão” de socorro, é o medo dos governantes de que terroristas se aproveitem da situação para adentrar ao país e o tornar mais um alvo de ataques.

part-ref-ts-par8275261-1-1-0.jpg Fotografia: Bulent Kilic/Agence France-Presse

Mesmo com todos esses riscos, algumas nações (seja por pressão popular causada pelo impacto das notícias na mídia, que se tornou um dos maiores aliados dos refugiados na busca por fronteiras abertas, seja por interesses políticos), abriram seus braços e acolheram parte da população síria que não teve alternativa a não ser fugir, contando apenas com a sorte e com a solidariedade de algumas pessoas pelo caminho. O Brasil foi um dos países que abriu suas portas e é líder no ranking de países da América do Sul que mais recebem refugiados de guerra. Cerca de 2.100 sírios conseguiram chegar ao Brasil na tentativa de recomeçar.

Richard_Wainwright_resize.jpg Fotografia: Richard Wainwright

Mas e depois de atravessar a fronteira e conseguir a documentação para ficar no país? O que acontece? O sofrimento acaba e todos respiram aliviados por encontrarem um lugar pra reconstruírem suas vidas? Bom, não é bem assim. Muitos dos sírios que conseguiram permissão para entrar no Brasil e em alguns outros países, ainda sofrem com o recomeço, visto que em alguns lugares, os refugiados são obrigados a ficarem em campos semelhantes aos campos de concentração, o que os priva de uma vida normal e digna, sendo que outros nem possuem abrigo para ficar e são largados a própria sorte mais uma vez, além dos preconceitos e da dificuldade que todos temos em nos adaptar a um lugar de cultura, leis e pessoas diferentes daquelas que costumamos conviver, tudo isso intensificado pela lembrança de que estar ali foi uma necessidade e não uma opção.


Christine Alencar

Melomaníaca, nordestina sem sotaque, aprendiz de escritora. Futura mochileira e talvez um dia, esposa do Marcos Ramos..
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