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Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos.

Her: O novo filme de Spike Jonze.

Apaixonar-se pela voz do seu sistema operacional parece ser falta de qualquer resquício de sanidade? Não para Spike Jonze que amplia a relação homem-máquina em um âmbito maior que sua funcionalidade mecânica, criando uma espécie de ficção científica romântica em seu novo filme.


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Hi, I’m here.

Essa é a primeira frase dita pelo sistema operacional Samantha (voz por Scarlett Johansson). A simples saudação anima, pois parece fazer referência ao curta-metragem lançado por Spike Jonze em 2011 chamado “I’m here”. Nele, Jonze nos faz imergir em uma história onde a relação homem-máquina transcende a função instrumental, apresentando-nos a dois robôs que se apaixonam e nutrem um sentimento tão forte que o ato de doar-se para o outro é feito sem hesitar.

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No curta, o diretor coloca em questão se os seres lógicos construídos com chips e peças possuem mais sentimento e amor ao próximo do que os feitos de carne e osso. Contudo, em Her, o diretor faz absolutamente o contrário, exibe um relacionamento que parecia ser improvável e que vai além da relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia.

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No longa, Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário de meia idade que escreve cartas de amor para os outros e que preenche o vazio, decorrente de um divórcio, com as mais variadas tecnologias. Vídeo games interativos e sistemas automatizados comandados por voz fazem parte do pano de fundo de uma Los Angeles do futuro (o ano exato não é especificado). Tudo muda quando ele compra um novo sistema operacional para seu computador. Desses hiper inteligentes capazes de realizar tarefas em frações de segundo, como ler um livro.

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Embora criados para facilitar a vida humana, o personagem principal utiliza a tecnologia para tornar mais fácil a convivência consigo mesmo. Uma vez que estava carente de perspectivas de vida, apaixonar-se pela voz de seu computador não parecia tão ilógico. Ainda mais quando é uma voz como a de Scarlett Johansson. Entretanto, uma descrição grossa e curta sobre o filme, reduzindo-o em “uma história de um homem que se apaixona por uma versão ultra tecnológica da Siri” é injusta e não compreende as reflexões presentes no contexto.

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Esse conceito bruto pode até ter sido o ponto de partida de Spike Jonze ao pensar em Her. No entanto, sua mise en scene é construída de tal forma que um romance entre homem e máquina soa lúcida e porque não possível? Como uma ode a Annie Hall, eles tentam adivinhar as vidas de pessoas aleatórias e o piquenique com os amigos de Theodore que acham Samantha uma ótima companhia são exemplos de cenas em que acreditamos nessa possibilidade.

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O sexo é literalmente transcendental e abre uma questão: precisamos mesmo dos nossos corpos? Ou está tudo em nossos cérebros? Samantha diz que sente Theodore, ao que ele responde entre gemidos que a sente também. É tudo tão real em suas imaginações que todas as necessidades afetivas e sexuais daquele momento são preenchidas, sem o toque, sem o mínimo contato.

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É em seu apartamento, refletindo luzes da cidade no chão de madeira onde Joaquim Phoenix impressiona por sua atuação. São momentos de insegurança, de amor desmedido e de loucuras com sua amada virtual que o renderia qualquer grande prêmio de melhor ator. Aliás, o filme ganhou um Globo de Ouro na categoria de melhor roteiro e concorre em cinco outras na premiação da academia (Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original).

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Jonze é também conhecido pela extensa e respeitada lista de videoclipes que dirigiu. Nela, incluem-se, Bjork, Sonic Youth, Daft Punk, R.E.M, Chemical Brothers, Arcade Fire e outros. Em Her, ele transforma sua estética de clipes em algo magicamente pessoal. As montagens – inserções silenciosas de Theodore e sua ex-mulher Catherine (Rooney Mara), mergulhados em tranquilidade, são sublimes – e a trilha sonora (composta por Arcade Fire, Karen O, The Breeders e etc...) são panos de fundos ideais e sensíveis para acompanhar o ritmo do longa. Em certo ponto, Samantha compõe uma peça de música a fim de criar uma nova forma de capturar uma tarde maravilhosa, ao invés de uma fotografia.

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No fim das contas, Spike Jonze nos mostra em Her que é um romântico transcendentalista. Como Theodore que está de luto por sua vida, com o atrito de suas limitações em uma espécie de ficção científica romântica que apresenta a perspectiva de uma singularidade que não significa o fim da humanidade, e sim sua libertação. Porque não importa a época, as pessoas sempre vão estar a procura do amor, em qualquer forma.

“Nosso mundo é cada vez mais amável, especialmente em Los Angeles. No entanto, cada vez um se sente mais isolado e só. No filme, não se sabe muito bem se esse futuro é utópico. Mas acho que nossa sociedade tende a isso. E, apesar de tudo o que precisa, sente-se cada vez mais só”

Spike Jonze


Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos. .
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