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Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos.

Sven Nykvist e o brilhantismo da simplicidade.

Sven Nykvist, o cinegrafista sueco que transformava a simplicidade em algo exuberante. Se Tarkovsky esculpia o tempo em seus filmes, Nykvist esculpe a atmosfera em composições de cenas que são tão inseparáveis do enredo que se complementam formando verdadeiras obras-primas audiovisuais cujo reconhecimento é dado até hoje.


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Alguém disse uma vez no processo de filmagem que “se o filme é o bebê, o diretor é a mãe, o roteirista é o pai e, por fim, o cinegrafista é a parteira”. Sven Nykvist foi responsável por conceber composições extraordinárias de filmes como “O Sacrifício e Persona”, além de uma respeitada lista de filmes que tiveram seu nome como diretor de fotografia e cinegrafista.

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Filho de missionários luteranos e movido pela ausência dos pais, Nykvist estudou na Escola Municipal de Fotógrafos em Estocolmo e entrou para a indústria do cinema aos 19 anos. Começou sendo assistente de câmera trabalhando em vários filmes pequenos. Porém, encontrou-se profissionalmente ao trabalhar com o também sueco Ingmar Bergman, que viria a se tornar uma grande união. O início dessa parceria é consagrado nas filmagens de “Noites de Circo”. Sven era um dos três cinegrafistas trabalhando na película, junto com Hilding Bladh e Gunnar Fischer.

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Fischer era conhecido pela atmosfera típica dos filmes de Bergman. Favorecia o frio, iluminação sombria, muitas vezes duramente superexpostas e com contrastes fotográficos dramáticos. Nykvist havia começado a fazer filmes querendo emular suas técnicas. Entretanto, Fischer e Bergman se separaram após as filmagens de “O Olho do Diabo” quando o diretor não conseguiu convencer o cinegrafista a suavizar suas técnicas de iluminação. Foi aí que nasceu a era Bergman-Nykvist, a mais madura e frutífera de ambas carreiras.

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A visão cinematográfica dos dois pode ter vindo de suas experiências em comum dos escuros invernos da Suécia e seus verões radiantes. Nykvist e Bergman compartilham a mesma preferência por locações de filmagens e luz natural. Concordam que a luz pode alterar o significado das ações de um personagem. Como Bergman disse no documentário “Light Keeps Me Company” dirigido pelo filho de Sven, Carl-Gustavo Nykvist , “Sven e eu víamos as coisas da mesma forma, pensávamos as coisas da mesma forma e nosso sentimento com a luz era a mesma. Nós tivemos as mesmas posições básicas sobre posicionamento da câmera”.

A parceria começou efetivamente com o filme “A fonte da Donzela (1960)” passando pela trilogia do silêncio “Através de um Espelho (1961)”, “Luz de Inverno (1962)” e “O Silêncio (1963)”, que revelou a confiança de Nykvist em luz natural, e composições geometricamente precisas.

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“Quando Ingmar e eu fizemos Luz de Inverno que se passava em uma igreja em um dia de inverno na Suécia, decidimos que não deveria haver qualquer sombra lógica nesse cenário. Sentamos por semanas em uma igreja no norte da Suécia olhando para a luz durante as onze da manhã até as duas da tarde. Vimos que ela mudou muito e isso ajudou a escrever o roteiro porque ele sempre escreve os humores dos personagens. Pedi para o designer de produção construir um teto na igreja para que eu não tivesse qualquer possibilidade de colocação de luzes ou luz de fundo. Tive que começar com luz refletida e depois disso filmei tudo com luz refletida, eu realmente me sinto mal quando vejo uma luz direta nos rostos dos atores e deixando-os com um nariz grande por causa da sombra.”

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Por muitos anos os suecos resistiram ao uso da cor em filmes, considerando-a uma fonte de beleza superficial. Em 1964, Bergman respondeu as provocações da crítica a seus filmes “mórbidos” fazendo uma farsa. “Para não Falar de Todas Essas Mulheres” usava a cor para realçar a beleza dos conjuntos ornamentados e as extravagantes fantasias de 1920. Contudo, nenhum dos dois ficou satisfeito com o resultado, citando a falta de atmosfera e iluminação excessiva. Depois disso, ninguém teria suspeitado que Nykvist viria se tornar um dos grandes mestres do cinema colorido.

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Nykvist não se deu bem na extravagância porque era um servo da simplicidade. Provou isso na realização de uma das maiores obras primas de Bergman, “Persona (1966)”, na qual grande parte de sua genialidade se deve a fotografia do filme. De volta ao preto e branco, em contrastes fortes e closes intimistas, Sven criou a atmosfera perfeita para que o diretor contasse a história da relação de duas mulheres. Bibi Anderson e Liv Ullman atuaram brilhantemente ao mostrar as facetas que os seres humanos usam em suas vidas a ponto de não reconhecer a sua real face.

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Em sua segunda tentativa de filmar em cores, “A Paixão de Ana (1969)” utilizou tons mais suaves. Mas, foi com “Gritos e Sussurros (1972)” que Nykvist acertou a mão e foi laureado com um prêmio da academia. Nos anos 70, aproveitou a flexibilização das regulamentações sindicais em que os EUA permitiram que os europeus trabalhassem na indústria do cinema americano. No meio dos anos 80, ele estava trabalhando mais em Hollywood que em qualquer outro lugar. Woody Allen, fanático assumido por Bergman, não poderia deixar de trabalhar com seu diretor de fotografia. Fizeram bons filmes, o melhor foi “Crimes e Pecados (1989)”, porém ele estava infeliz com a necessidade de Allen por iluminações mais escuras, que segundo ele, “deixava os rostos dos atores parecendo tomates”.

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Muitos discutem qual foi a melhor realização de Sven Nykvist, seu trabalho com o diretor soviético Andrei Tarkovsky aquece ainda mais essa discussão. No último filme de Tarkovsky, “O Sacrifício (1986)” Nykvist mostrou todo seu brilhantismo em cenas como o clímax – uma tomada interrupta de dez minutos de uma casa em chamas visto de uma câmera colocada distante -. A cena teve que ser gravada duas vezes, pois na primeira vez foi utilizada apenas uma câmera e ela acabou quebrando. Da segunda vez, foram exigidas duas câmeras, a casa foi reconstruída para depois ser queimada novamente.

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Seu segundo Oscar veio com “Fanny e Alexander (1982)” de novo com Bergman, dessa vez mostrando os embaraços da burguesia. Em 1997, durante as filmagens de “Celebridade”, filme de Allen, Nykvist foi diagnosticado com afasia progressiva – uma doença rara no cérebro que causa o embaralhamento de palavras e eventualmente leva a perda completa da fala. Uma ironia com alguém que passou a vida inteira se comunicando visualmente ao invés de verbalmente. Sven Nykvist morreu em 2006 louvando a simplicidade como ele mesmo disse nos anos 90:

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“Levei 30 anos para chegar a simplicidade. Antes eu fazia muito do que achava que eram lindas capturas com muita iluminação e muitos efeitos, absolutamente nenhum era motivados por nada no filme. Assim que tínhamos uma pintura na parede, nós pensamos que deveria ter um brilho em torno dela, foi terrível e eu mal posso suportar ver meus próprios filmes na televisão mais, olho por dois minutos e em seguida dou graças a Deus que existe uma palavra chamada simplicidade.”


Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos. .
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