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Bem vindo ao meu alpendre. Puxe a cadeira de fio mais próxima e deixe-se afetar.

Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos.

As 17 primaveras de Angelo

Angelo Bonini contou apenas dezessete primaveras mas suas fotografias imprimem um olhar sólido e somam várias referências que educaram seu olhar para as coisas simples.


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Uma rolada rápida em qualquer feed de notícias nos mostra a busca incessante em ser diferente. De certa forma, as pessoas querem apresentar suas vidas da maneira mais interessante possível. Usam a tecnologia a seu favor, mergulham em referências passadas e jogam com artilharia pesada para captar a atenção, seja de quem for. Dessa forma, exageros são premeditados, artes vazias são empilhadas aos montes no limbo e tudo culmina para a perda de toda a beleza do ato de se expressar puramente.

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Essa tendência de afogamento em conteúdo digital arremessa uma mão de areia nos nossos olhos. A exigência para se diferenciar é tão grande que procuramos fazer e ver coisas grandiosas. E isso só agrava a nossa patologia do imediatismo. De viajar e olhar para o vidro que possui aplicativos e não o vidro que mostra o mundo lá fora. A simplicidade e os atos pequenos são valorizados apenas em grandes campanhas. Contudo, o ponto aqui não é trazer a tona teorias que dizem que o digital desumaniza o homem, e sim exercer a prática de nos lembramos que o simples ainda é belo, e por vezes é a chave para o verdadeiro diferencial em um uma época em que as pessoas usam a fórmula do “mais é mais”.

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Esse contexto serviu para ajudar a explicar o porquê a arte de Angelo Bonini fisgou meus sentidos e minha atenção. Passando por um dos muitos grupos de fotografia que participo, percebi fotos com um olhar diferente dos outros participantes. A cada foto postada, era uma pedrada nos meus sentidos. Enfim nos conhecemos e fui descobrir que a pessoal por trás das belíssimas fotografias era um rapaz de apenas dezessete anos que mora no sul. Fiquei perplexo. Não que pessoas dessa idade não sejam capazes de tirar boas fotos, aliás, pelo contrário. Hoje em dia vemos aparecer vários prodígios em todas as áreas da arte. A razão de tal perplexidade foi obviamente observar que eram fotos com referência. Elas têm potência equivalente as de alguém que passou alguns anos da vida incrementando sua bagagem cultural.

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Sobre equipamentos, ele transita pelo digital e analógico com facilidade. Apoderou-se da Yashica da mãe e depois foi se aventurar com uma Olympus. Hoje tem uma DSLR e retomou sua paixão pela fotografia analógica. Tirou da gaveta a Yashica e adquiriu duas polaroids de modelos diferentes. São esses os olhos artísticos dele. Por vezes, enxerga a subjetividade da vida através de paisagens desfocadas e granuladas com cores amenas. Ou a exatidão e o realismo que a própria vida espera que tenhamos vistas por distâncias focais que aproximam o cotidiano dos olhos.

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A história de Angelo começou cedo. Ele me disse que desde os sete anos tinha o sonho de fazer cinematografia. A partir daí a paixão por fotografia foi natural. Com uma câmera de dois megapixels de um mp5 que possuía, começou a se divertir e dar os primeiros cliques. Ao passar das primaveras, foi ganhando magnitude interior e moldando seu olhar. Já prestava atenção na incidência da luz, analisava reflexos e sombras, admirava cores e a construção de componentes de um enquadramento. Via alguns ambientes ou situações e achava interessante fotografar, ou em suas palavras “Isso parece cena de algum filme do Tarkovsky”.

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Angelo reflete sobre o ato de fotografar em uma de nossas conversas:

“A fotografia foi o que eu escolhi para apresentar as pessoas o mundo interno que eu enfrento e a maneira que o mundo externo se apresenta para mim. Comecei a compreender cada vez mais que ninguém vê a mesma coisa ao olhar pela janela e isso é o que mais me surpreende dentro da arte. O fato de sermos diferentes e vivermos em um mundo completamente diferente. Tenho a crença de que é o papel do artista representar o que há nele. Já não sei o que fotografo, o meu trabalho é bastante baseado no inconsciente, no meu jeito de ver o mundo e a junção de tudo que carrego comigo. Hoje ando de olhos abertos e busco cada vez mais estar dentro das minhas concepções e atender ao que espero de mim. Não sei onde vou estar daqui alguns anos, mas espero estar longe. Bem longe. Talvez fazendo filmes, ou fotografando, ou mesmo vendendo arte na praia, só não me vejo fazendo outra coisa se não vendo a vida nesse ângulo tão criativo e trabalhando com a gratidão como recompensa.”

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Como citado acima, o cineasta russo foi uma grande referência para o jovem fotógrafo. Aliás, é inevitável a comparação de alguns elementos que caracterizam o trabalho de ambos. O apreço por ambientes e luzes naturais e o olhar incomum sobre o comum. O livro de polaroids do cineasta exala domínio e maestria sobre o equipamento e o conceito de suas obras. Outras referências incluem Carine Wallauer, Nathalie Daoust, Bastian Kalous e Amber Ortolano. Foi a partir desses nomes que ele entendeu a fotografia como expressão e então inseriu subjetividade ao seu trabalho

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Por fim, sempre tive um espírito “filantrópico cultural”. Se um dia eu almejasse a fama, ou o poder de voz ampliado que seja, usaria para dar espaço e notoriedade para aqueles que, na minha concepção, realmente merecem. A indústria cultural ou os moldes e padrões que são socados em nossas cabeças, nos faz engolir muita coisa com a promessa de qualidade. Mas nem sempre é o que procuramos para alimentar nossos sentidos. É por isso que resolvi aproveitar meu espaço aqui para apresentar o Angelo. Da mesma forma que sua arte me arrebatou, eu espero que te afete também.

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Você pode entrar em contato com o Angelo ou ver mais do seu trabalho.


Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos. .
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