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Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos.

Um novo papel para moda

Há 10 anos, Jum Nakao transcende a função meramente comercial da roupa e cria um desfile filosófico e inspirador"


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Dior, 1947. Dois anos após o término da segunda grande guerra, um casaquinho de seda bege e uma ampla saia preta plissada ajudaram a por fim na mentalidade do racionamento que sucedeu aquele período. Se antes os vestidos eram feitos tradicionalmente com 5 metros, agora a Maison usava oito vezes mais. O aumento na matéria prima utilizada é proporcional ao tamanho da coragem que Christian Dior, teve naquela altura. Ora, você consegue imaginar a feição dos presentes nesse desfile ao verem as primeiras modelos entrando com saias amplas quase até os tornozelos, cinturas bem marcadas e bustos calorosamente sexy?

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As grandes revoluções na moda, como o “New Look” citado acima, são transformadoras ao ponto de alterar um raciocínio fresco de pós-guerra e até mesmo devolver a feminilidade à mulher. Entretanto, é preciso grandes mentes por trás do processo. Mentes que pensam o contexto atual da moda, sua função (ou falta dela), seu papel social e seu encargo estético. Foi o que fez Saint Laurent quando colocou o Le Smoking, peça naturalmente masculina, no armário das mulheres, Mary Quant diminuindo a o comprimento em suas saias e André Courrèges, Paco Rabanne e Pierre Cardin criando a Space Age que mesmo tendo sido criado nos anos 1960, parece futurista até os dias de hoje.

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Outros grandes exemplos de eventos transformadores podem ser observados em atitudes micro-arquitetadas, mas que provocam algum tipo de reflexão e, por vezes, ruptura de paradigmas. Como em 1999, quando Alexander McQueen colocou na passarela dois robôs pintando um vestido branco usado por uma modelo em uma plataforma rotativa. Moda espetáculo? Era possível comprar ingressos para assistir aos desfiles de Thierry Mugler em 1980. Moda como comércio choca? Você pode responder essa pergunta depois de revisitar a segunda coleção de Heidi Slimane para a Yes Saint Laurent. Aquela grunge, meio L.A, ultra comercial com cara de fast fashion e preço de alta costura. E por falar nisso, o pai da alta costura, Charles Frederick Worth, além de toda sua contribuição, ainda, pela primeira vez, usou modelos vivas para exibirem as roupas. Imagina só o choque.

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E o que dizer de Zuzu Angel e seu desfile protesto em Nova Iorque? Moda enquanto expressão, protesto e voz. Moda não destoa de arte. Mesmo quando comercial? Às vezes essa união é feita de maneira mais direta, como a colaboração de Elsa Schiaparelli com o Salvador Dali, criando o boom do surrealismo na moda. O Raf Simons também deve levar créditos por firmar a primeira parceria 50/50 com um artista plástico, o Sterling Ruby. Quando Hussein Chalayan mostrou seu vestido que virava uma mesa na passarela, provocou espanto e admiração. O mesmo aconteceu com o obscuro e desafiador Alexander McQueen e seu Pilatos Atlantis com saltos de 30 cm sendo transmitidos para o mundo todo em streaming pela primeira vez, ou com Rick Owens trocando as modelos por bailarinas de stepdance. E para citar um episódio na moda brasileira, Ronaldo Fraga levando crianças e idosos para as passarelas.

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Esse breve panorama através da história da moda serve para nos levar até o momento de catarse criado por Jum Nakao que também merece seu lugar ao sol. Isso aconteceu, mais precisamente, em julho de 2004 no São Paulo Fashion Week. Nakao já era famoso e conceituado no mundo da moda, mas foi nesse ano que elevou seus padrões com seu desfile intitulado como “A Costura do Invisível”.

Para não estragar seu momento de êxtase, sugiro que antes que prossiga a leitura desse texto, assista ao vídeo abaixo que mostra o momento da glória de Nakao. O livro que vem como documentário completo é uma ótima pedida para complementar os conhecimentos desse evento.

Algumas carinhas conhecidas na primeira fila, como Costanza Pascolato e Regina Guerrero, aguardavam o início do desfile. As 700 horas de trabalho da equipe e o transporte das peças feitas na madrugada daquele dia por um caminhão baú evocavam sigilo absoluto. Os releases para a imprensa apontavam uma coleção feita de tecido tecnológico. Paulo Borges, idealizador do SPFW, era o único a saber o que realmente aconteceria ali, para que a ideia fosse aceita.

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As modelos pisam na passarela carregando em seus corpos, vestidos, saias e adornos inspirados na moda do século 19. Estilizadas como playmobils, os cabelos dos bonecos de plásticos criaram a fusão entre a tradição e a industrialização em série. Foi tudo meticulosamente pensado. As peças eram de uma exuberância inacreditável. O cuidado com os detalhes, toda estética e trilha sonora. Apenas isso seria motivo para alçar esse momento como um dos grandes acontecimentos da moda brasileira.

O respiro do trovão

Mas o episódio que se segue por esse desfile conseguiu ser reconhecido por muitos como o grande último evento relevante na moda desse país.

Na entrada final, as modelos se posicionaram diante das 1.200 pessoas que estavam hipnotizadas com o que viam diante delas. De repente, a trilha sonora se intensifica e toda aquela criação de um trabalho primoroso é reduzido a pedaços de papéis rasgados pelas próprias modelos. Elas removem as roupas de seus corpos com fúria como se materializassem ali a magnitude de uma dor. No documentário é possível ver os queixos caindo e revelando o semblante estupefato dos presentes. Ninguém suspeitava que fosse feito de papel, não havia nenhuma informação prévia. Nem mesmo as modelos sabiam o que vestiriam poucos minutos antes de entrar na passarela.

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Uma parede teve de ser derrubada para que um vestido pudesse passar para a Bienal. Várias outras paredes ideológicas foram derrubadas. Nos moldes de Zuzu Angel, com o objetivo de tirar a moda do mundo do consumo e dar a ela um novo significado por meio de suas performances, Jum Nakao fez seu desfile manifesto que colocou na cabeça de muita gente o papel da roupa daqueles dias. Da forma com que tudo se esvai sem a menor importância, tudo é efêmero e passageiro. O estilista colocou ali toda a sua iconoclastia, que no literal significa “quebrador de imagem”, porém, pode ser livremente adaptada para o caso como “rasgador de conceitos”.

Porque Nakao fez isso? "Porque achei que tinha de ser feito. Tinha de fazer algo para expor a minha indignação sobre valores. O papel é o lugar do esboço, parte do processo criativo, é matéria efêmera, rasga, amarela, e sensível à ação do tempo. Em uma folha de papel, podemos ter palavras que transformam a vida e, ao mesmo tempo, uma folha em branco está pronta para ser preenchida de significados"

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Dessa forma Nakao nunca mais desfilou suas criações. Ainda contra seu gosto “Não queria deixar as passarelas, queria transformar o mundo, é diferente”. Segue agora em outras áreas criativas e dando palestras de como foi o processo realizado na Costura do Invisível.

Ao final, muitas pessoas sobem na passarela para pegar um pedaço de papel rasgado como forma de recordação daquele momento.


Lucas Guarnieri

Lucas Guarniéri, 21 anos. Estudante de Comunicação, inquieto cultural e colecionador de projetos. .
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