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De gênio, cinéfilo e louco...

Júlio César do Nascimento

...todo mundo tem um pouco

Como nasce uma prostituta?

Em "Jovem e Bela", François Ozon traz mais questionamentos que respostas, e mostra como a iniciação no mundo do sexo por dinheiro pode se confundir com o próprio despertar de uma sexualidade intrigante.


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Sempre com seu cinema que intercala produções mais leves com outras mais reflexivas, o diretor francês François Ozon, após o excelente Dentro de Casa (Dans La Maison, 2012), cuja temática era o voyeurismo, agora retorna em seu último trabalho com outro tema igualmente "picante": o sexo por dinheiro. Em Jovem e Bela (Jeune Et Jolie, 2013), Ozon parte da seguinte proposta: a desconstrução do estereótipo da mulher que se prostitui por necessidade, ou seja, por ser vítima da falta de outras oportunidades de algum ganho financeiro para (sobre)viver.

Somos apresentados, então, a Isabelle (Marine Vacth), que como o próprio nome do filme já diz, é dona de uma beleza e juventude à flor da pele, cercadas por uma aura de curiosidade (e de uma certa melancolia) no olhar e nas atitudes da personagem. Isabelle, em teoria, aparentemente não teria motivos para iniciar-se, ao menos da maneira usual, no ramo da prostituição: possui boas condições financeiras, é universitária, está de viagem com a família durante uma temporada de verão... Obviamente, aqui não se trata de generalizações, pois sabemos que há garotas de programa que se encaixariam no perfil acima, mas apenas para mostrar como o diretor suspende todo o "pré-conceito" que poderia servir como justificativa para as ações da personagem.

Após alguns encontros com um garoto que conhece durante a viagem, Isabelle tem finalmente sua primeira relação sexual; e partir desse momento, percebe-se que a jovem não viveu apenas sua "primeira vez", mas que minimamente adquiriu um entendimento sobre seu próprio corpo em transição: a de que ele tornou-se uma arma, um objeto de desejo, é algo pelo qual as pessoas poderiam "pagar" para que pudessem tê-lo. Mas esse entendimento inicial também gera outros questionamentos: "o que fazer com ele, agora?", ou "quais são os limites do prazer?". Dessa forma, a personagem é motivada a viver posteriormente outras experiências sexuais - e a cobrar por elas! A atriz se entrega quando necessário nas cenas mais quentes, mas a direção de Ozon conduz o filme para que ele nunca soe vulgar ou apelativo. Pelo contrário: o diretor consegue passar exatamente as duas imagens de um mesmo feminino: a garota reservada na fase das descobertas, mas que também se entrega na cama em busca de aventura e dinheiro.

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(O parágrafo a seguir contém spoiler.) Devido a determinado incidente, a mãe de Isabelle acaba descobrindo as atividades secretas da filha, e fica completamente chocada não só com o fato em si, mas também porque Isabelle estava se envolvendo mais frequentemente com determinado cliente já de idade. O fato da jovem ter dado maior preferência a esse cliente, pode ser interpretado não só como uma tentativa de busca da figura paterna ausente, já que sua mãe é separada e vive com outro homem, mas também para atingir a própria mãe de alguma forma; que inclusive força Isabelle a procurar ajuda terapêutica, pois acredita que a filha sofre de um "distúrbio de comportamento".

Isabelle chega a fazer uma pausa na vida de garota de programa, e começa até mesmo a engatar um namoro com um cara que conhece numa festa. Mas a jovem não consegue manter a relação por muito tempo, e aí, uma nova constatação: a de que seu corpo não é apenas um objeto de desejo para o outro, mas ela própria é um sujeito desejante, e de que há algo para além de um ganho financeiro que a motiva a fazer o que faz. Dessa forma, deparamo-nos junto a Isabelle com a dimensão da fantasia, que ela terá de perpassar para chegar a algum entendimento.

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Como observado, Ozon não oferece respostas prontas para o espectador que justifiquem a inserção da personagem no mundo da prostituição. Pensar apenas do ponto de vista material, é desconsiderar que Isabelle traça um caminho de descobertas sobre si ao mesmo tempo que se aventura nas suas experiências sexuais. O diretor nos dá apenas uma breve conclusão: a de que a relação do ser humano com o sexo e com o próprio corpo é algo da ordem do desejo e da fantasia, e nelas estão contidas dimensões de poder, dominação e afeto. Portanto, apenas a protagonista tem a chave para desvendar o mistério que é a sua sexualidade.


Júlio César do Nascimento

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