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Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

ROBERTO GOMES E O SIMBOLISMO NO TEATRO BRASILEIRO

Esse artigo apresenta um breve estudo sobre o simbolismo no teatro brasileiro, a partir da obra dramatúrgica de Roberto Gomes (1882-1922), autor que se dedicou à produção de peças intimistas, simbólicas, sobre a burguesia carioca da época, e que ainda se mantêm desconhecido na história do nosso teatro.


O movimento simbolista aconteceu na França entre o período de 1885 e 1895 segundo Anna Balakian, uma das principais estudiosas deste período. É designado pelos historiadores da literatura como uma época pós-romântica, e para tanto há convergências em relação aos seus principais pontos de partida: Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, são considerados os quatro grandes nomes precursores da literatura simbolista. Esse texto se propõe a refletir sobre o teatro simbolista e sua relação com a história do teatro brasileiro, que tem como grande nome o dramaturgo Roberto Gomes (1882-1922).

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O movimento literário do simbolismo costuma ser caracterizados por adjetivos eufemísticos como penumbra, o crepúsculo, a morbidez, a decadência e outros tantos. Este último é até mesmo confundido como uma própria nomeação do movimento. No entanto, é importante fazer uma distinção entre o simbolismo e o decadentismo. O decadentismo se impõe como uma atitude dos autores, dos filósofos e estudiosos da época e não como um movimento literário. Diante do avanço nas teorias sobre o homem e o mundo, o espírito científico da primeira metade do século XIX domina toda uma geração de intelectuais e escritores, sendo este o período que compreende à Revolução Francesa (1789) e a Revolução Industrial iniciada em fins do século XVIII. A velocidade em que as mudanças estavam acontecendo na vida do homem e o triunfo da ciência faziam com que surgisse uma ideia de que todos os fenômenos fossem passíveis de serem explicados pelas teorias científicas vigentes no período. Augusto Comte e o Positivismo, Taine e o Determinismo e as teorias evolucionistas de Lamark e Darwin pareciam não deixar mais espaço para a metafísica. A Razão havia tomado conta de toda uma geração de pensadores. Embora, por um lado, parecesse uma constante evolução, instaurava-se um momento de crise por trás de toda esta euforia. Filósofos como Arthur Shopenhauer (1788-1860), Bergson (1859-1941) e Emmanuel Swedenborg (1668-1772) posicionavam seus pensamentos em contrapartida ao materialismo e à atitude cientificista. A ciência passou a ser questionada em relação a sua função na vida do homem, pois questões filosóficas e metafísicas dificultavam a capacidade das teorias científicas de explica-lo. Embora o progresso técnico-científico tivesse trazido aos homens inúmeras facilidades, trouxe-lhes também uma

“sensação de angústia pela aguda conscientização de a sua pequenez no universo, onde ele seria uma ínfima partícula, levando-o a questionar o seu papel nesse Cosmos impassível, organizado e, mais que tudo silencioso. Entram em choque a pretensa explicação científica do mundo e a incompreensão natural da vida”. (FRAGA, 1992, p. 24)

Principalmente nas artes um sentimento de pessimismo, um mal-estar se instaurou. É este estado de espírito que explica o que chamamos de Decadentismo. Eudinyr Fraga no livro O simbolismo no teatro brasileiro, de 1992, conclui sobre o assunto: “O Decadentismo seria a inquietação gerada por uma crise, o Simbolismo, uma reflexão intelectual que se processou logo em seguida.”.

Em se tratando do teatro brasileiro das décadas de 10 e 20 do século XX tem-se os dramaturgos; Coelho Neto (1864-1934), Goulart de Andrade (1881-1936), Oswald de Andrade (1890-1954), João do Rio (1881-1921), Oscar Lopes (1882-1938), Carlos Dias Fernandes (1875-1943), Emiliano Perneta (1866-1921), Durval de Moraes (1882-1948), Marcelo Gama (1878-1915), Paulo Gonçalvez (1897-1927), além de Roberto Gomes (1882-1922). Estes são nomes reunidos por Edynir Fraga no livro já citado. É fato que cada um destes autores tem suas particularidades individuais adquiridas por suas experiências, sua regionalidade, sua conduta política e, em geral, suas vidas particulares. No entanto eles fazem parte dos que escreveram um teatro de cunho nacionalista e que Fraga estuda-os indicando a presença de traços da estética do movimento simbolistas. Como foi dito, embora eles tenham diferenças latentes em suas obras, eles se reúnem neste grupo, pois evidenciam traços de um período marcado pelo sentimento decadente de uma época em transição.

Para tanto, continuarei a seguir Fraga em suas conclusões sobre as características do movimento simbolista no teatro:

1) Inexistência da intriga tradicional, onde fatos se sucedem encadeando-se harmonicamente, visando a narrar uma história substituída por uma atmosfera de tensão e expectativa;

2) Inexistência de caracteres precisos e determinados, sem preocupação de desenho psicológico e coerência interna;

3) Indeterminação de tempo e de lugar, inspirando-se muitas vezes, na lenda e no mito;

4) Criação de dois planos: um visível, e o outro, supra-real, que o circundaria, mas que não ficaria explícito para o público;

5) Através da elaboração de uma linguagem poética, repleta de sugestões, ambiguidades e imagens visuais, o espectador seria remetido de um plano a outro, tornando-se ele próprio um interprete, por meio da sua sensibilidade aguçada pelas correspondências e efeitos sinestésicos;

6) A linguagem perdendo, portanto, parte de suas características dramáticas, adquire feição nitidamente lírica, do que decorre um sentimento de profunda e intensa poesia que envolve as personagens e as situações, transformando-as num todo significante e autônomo, fechado em si mesmo e que não corresponde mimeticamente à realidade. (FRAGA, 1992, p.56)

Em todas as fontes pesquisadas é quase unânime as referências sobre Roberto Gomes, como o autor que mais se enquadra no movimento simbolista brasileiro, e, por conseguinte, às pontuadas conclusões de Eudinyr Fraga. Roberto Gomes nasceu no Rio de Janeiro em 12 de Janeiro de 1882. Ainda criança, os pais o levaram para a Europa e em Paris cursou humanidades. Regressando ao Brasil aos 15 anos de idade, iniciou o curso da Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, bacharelando-se com distinção. A sua erudição e os seus largos estudos na música indicaram-no para crítico da Gazeta de Notícias, onde os seus artigos se revestiam de uma autoridade respeitada. Advogado, professor, jornalista, crítico musical, delicado pianista, inspetor escolar, Roberto Gomes também é um autor teatral de valor, aclamado pela crítica da época como um dos grandes talentos da dramaturgia brasileira. Assim como lamenta Sábato Magaldi no Panorama do teatro brasileiro, é pena que tenha se matado em seus poucos 40 anos e “não tenha sido mais numerosa sua obra, para que o trabalho contínuo lhe apurasse as qualidades”. (MAGALDI, 1962, p, 171).

Gomes nos deixou nove peças teatrais, Ao declinar do dia (1909), O canto sem palavras (1912), A bela tarde (1915), Inocência (1915), O sonho de uma noite de luar (1916), O jardim silencioso (1918), Berenice (1917-8) e A Casa Fechada (1919). Há pouquíssimos estudos sobre a obra de Roberto Gomes. A única pesquisa de maior fôlego dedicada ao autor é a dissertação de mestrado de Marta Morais da Costa, concluída há 35 anos pela Universidade de São Paulo. Nesta dissertação, a autora analisa as peças de Gomes, mas o foco principal foi recolhê-las e organizá-las. Marta também faz um levantamento de críticas publicadas na época sobre as encenações. Esse importante trabalho permitiu tornar acessível os textos do autor, já que a dissertação foi publicada quase inteiramente, em 1983, no livro Teatro de Roberto Gomes, que inclui as oito peças do autor, deixando de fora a comédia Le Papillon escrita na infância.

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Na pesquisa de Costa, ela recolhe depoimentos de amigos de Gomes, que viam o autor como sendo um homem deprimido, melancólico e noturno. Por meio dessas leituras, Costa o define como: “(...) pessoa de extremada sensibilidade (que)e, por isso, melindrava-se facilmente. Possuía um comportamento arredio e desconfiado que se foi acentuado com o tempo. (...) Fisicamente miúdo e frágil, Roberto Gomes teve intensa vida noturna e um excessivo ritmo de trabalho (...) o descompasso de uma concepção nevrótica do mundo com a realidade progressista da época delineiam lhe a imagem de um ser terrivelmente confrontado e dilacerado (...) era um escritor marginalizado, “noturno”, vivendo num mundo próprio de sonhos e recusa, num casulo ideal e sombrio, repleto de objetos de arte, de cães de estimação, de música e de teatro (...)” (COSTA, 1893, pp. 20 e 21)

Como se vê pela fala de Costa, Gomes vive o mal estar decadente e este sentimento se faz característico em suas peças. Era leitor e admirador de Maurice Maeterlinck um dos principais nomes do movimento simbolista no teatro. Destaca-se na obra de Gomes os sentimentos de dor e solidão, do amor impossível e avassalador. As personagens sofrem pelo amor não correspondido e acabam por ceder à morte, ou fugir das desventuras ao invés de encarar o futuro solitário. Em espaços crepusculares, mostra além realidade da vida burguesa na sala da casa de família, no jardim no final da tarde, no quarto escuro, o invisível e o inobservável que circundam as pessoas em suas relações afetivas. “Mesmo que só haja no mundo um modo de sofrer, há, em todo caso, inúmeros modos de expressar o sofrimento.” (Roberto Gomes, In. Jornal do Comércio, 1912)

O tempo e o espaço são, na maioria das vezes, curtos (peças em um ato) e sem muita movimentação. A linguagem poética traz intenções nas entrelinhas que tornam a peça cheia de mistérios, imagens visuais, transportando o espectador de emoção a emoção. O poder da palavra no teatro de Roberto Gomes não é a força motriz das ações, mas é o que dá força a sensibilidade que as situações querem transparecer sem ações propriamente físicas.

O movimento simbolista influenciou toda uma estética que culminaria mais tarde na explosão do moderno que se deu na Semana de 22. Se algumas das peças de Gomes não encontram mais ressonância no teatro contemporâneo (COSTA, 1983, p.48), isto ainda não se sabe, uma vez que os textos ainda se encontram marginalizados e desconhecidos para grande parte dos interessados em fazer teatro. Roberto Gomes é um dramaturgo de importância a ser investigada na história do teatro brasileiro, uma vez ter produzido uma obra rica em sensibilidade e de apelo nacionalista. Quando se trata de enquadrá-lo ao movimento simbolista, é considerável sua posição, no entanto a questão sobre o movimento no Brasil vai além da vida e obra de Gomes. Se por um lado, ele fez repercutir em sua obra a estética deste movimento, é fato que sua vida particular o encaminhava ao sentimento decadente, mas por outro lado, ao olharmos num panorama mais geral sobre a realidade brasileira e as obras que marcam estas duas primeiras décadas do século XX, Fraga nos chama atenção e nos faz pensar se o movimento realmente aconteceu no Brasil, ou se se deu apenas em casos isolados como o de Gomes. Segundo o pesquisador o Brasil estava preocupado com as questões nacionalistas e de denúncia, e o movimento simbolista por sua vez se interessava mais em olhar para o passado, a falar sobre o onírico, a refugiar-se no sonho. Outro ponto levantado por Fraga é que a própria geografia do Brasil “caracterizada pela vitalidade orgânica, pelo excesso de luz e cor, na onipresença da Natureza (...)” (FRAGA, 1992, p. 181), não era ambiente propício para florescer as formas crepusculares e frias a que o movimento propunha, não sendo, portanto, familiar ao brasileiro esta última ambientação.

Para encerrar, Roberto Gomes conseguiu relatar de forma poética, psicológica e absolutamente sensível uma porção da história da vida da burguesia carioca em tempos de contradição e transições e ao mesmo tempo, deixar na nossa história uma obra que quando lida fora do contexto histórico em que está inserida, ainda causa comoção e faz com o que leitor se reconheça em suas relações afetivas.

"A Casa Fechada", de Roberto Gomes, 1975, gravado em externas na histórica Vila de Paranapiacaba, onde a atmosfera criada pelo diretor enfatiza o mistério do texto. Em uma casa desabitada de uma pequena cidade, acontecimentos misteriosos aguçam a curiosidade dos moradores, que pouco a pouco vão revelando suas personalidades.

No elenco, Denise Stoklos, Karin Rodrigues, Jofre Soares, Jairo Arco e Flexa, Dina Lisboa, Luiz Linhares, Paulo Deo, Elisio Albuquerque e Elizabeth Savalla, em sua primeira aparição na televisão. Antunes Filho também faz uma pequena participação como ator.

BIBLIOGRAFIA BALAKIAN, Anna, O simbolismo, Editora Perspectiva, São Paulo, 2000. COSTA, Marta Morais da, “A Dramaturgia de Roberto Gomes, da Casa Fechada à Abertura Modernista”, Revista Letras, Curitiba, UFPR, n.60, 2003. __________________, Teatro de Roberto Gomes, Ed. Instituto Nacional de Artes Cênicas em 1993. FARIA, João Roberto, História do teatro brasileiro: Das Origens ao Teatro Profissional da Primeira Metade do Século XX, Editora Perspectiva, São Paulo, 2012. FRAGA, Eudinyr, Simbolismo no teatro brasileiro, São Paulo, Editora Art e Tec, 1992.


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