amago

Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

A bela tarde; uma análise da peça de Roberto Gomes

Este artigo é uma análise da peça do dramaturgo Roberto Gomes (1892-1922) "A bela tarde". Este curto ato discute a solidão humana e os encontros e desencontros de almas que amam e não são correspondidas, mas, que precisam aprender a conviver com as dores e cicatrizes que a vida causa.

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A peça A bela tarde, do dramaturgo Roberto Gomes (1982-1922), foi representada pela primeira vez em 14 de Junho de 1915 no Teatro Trianon, Rio de Janeiro, pela Companhia de Cristiano de Souza. Os papeis foram assim divididos: Primo Juca – Cristiano de Souza, Nicota – Ema de Souza, Papai – Lino Ribeiro, Mamãe – Laura Cortina, Vizinho – Carlos Abreu, Criada – Helena Castro e Rapaz – Augusto Anibal. A peça foi representada uma segunda vez somente no ano de 1940 pela Companhia de Procópio Ferreira na cidade de São Paulo. (COSTA, 1978, p.81).

            Cronologicamente esta é a terceira peça de Gomes apresentada ao público. Autor de Ao declinar do dia (1909) e O canto sem palavras (1910). Roberto Gomes apresenta uma peça curta em um ato que traz os sentimentos como a força motriz do enredo. Uma peça sem peripécias, sem ações e quase nenhuma movimentação indica a presença de traços do movimento simbolista que são marcantes em suas peças anteriores.

 

Antes de entrarmos no enredo da peça vale atentarmos a epígrafe:

“Foram duas pequenas dores que se encontraram no crepúsculo” (GOMES, 1983, p.146).

Esta frase contêm dois temas muito correntes na estética de Gomes; as dores e o crepúsculo. Esta epígrafe narra o auge deste curto ato, quando duas personagens reconhecem suas dores uma na outra em um fim de tarde de um dia qualquer. Roberto Gomes cria personagens em situações cotidianas convivendo com as suas próprias dores. É nas relações cotidianas que estas personagens relatam o que há de mais profundo na alma do ser humano apaixonado. O cair da tarde, quando o sol esta se pondo, é o cenário propício, de acordo com as peças de Gomes, para que as angústias se intensifiquem e as revelações então, aconteçam. E é exatamente isso que este ato narra. Dois seres humanos apaixonados e desiludidos conversando sobre a intensidade de suas dores.  

A bela tarde tem enredo e composição simples. Possui unidades de tempo e espaço definidos em um jardim da casa de uma família carioca da classe média, ao crepúsculo do dia.

Na Tijuca. Um jardim. À esquerda, a casa, adornada com plantas e trepadeiras. Uma varanda, comunicando com o jardim por uma escadaria, dá para a sala de jantar. Ao fundo, à direita, o portão rústico, e a estrada que vai subindo pela montanha. Seis horas da tarde. Através das árvores, avistam-se ao longe o Rio e a baía, dourada pelos últimos raios do sol agonizante. Grandes nuvens de ouro e sangue serpeiam pelo céu imenso que resplende. São as derradeiras fulgurações, antes da noite silenciosa que vai lentamente cair. (GOMES, 1983, p. 147)

 

            Esta rubrica inicial vai além do realismo em descrever o cenário da peça. Fala sobre as plantas que ordenam a casa, sobre a arquitetura e estilo dela, expandindo o espaço. Indica a hora em que o ato acontecerá a fim de sugerir o tempo e a iluminação do cenário “Seis horas da tarde. (...) dourada pelos últimos raios de sol agonizante, (...) nuvens de ouro e sangue”. No entanto Gomes transforma esta descrição em poesia. Para o leitor o inicio das sensações já começa na rubrica. Ele é convidado a imaginar não só um cenário para a história que se segue, mas também é instigado a penetrar nesta atmosfera crepuscular. O leitor precisa decifrar subjetivamente os códigos que certas palavras sugerem a ele. “Grandes nuvens de ouro e sangue serpeiam pelo céu imenso que resplende. São as derradeiras fulgurações, antes da noite silenciosa que vai lentamente cair.” Gomes dá qualidades além das cores para o crepúsculo. O sol agonizante e as nuvens de ouro e sangue indicam que o entardecer é triste e fere a alma. A luz do sol luta para permanecer, mas a escuridão vai aos poucos tomando conta do céu deixando um rastro de sangue. Toda esta descrição simbólica permite ao leitor decifrar as angústias que estão por vir neste ato.

     A peça se não for encenada de maneira adequada pode perder suas nuances simbólicas. Ao ser posta em cena, deve-se se atentar a estas indicações dadas pelo autor para que o texto não seja mais atraente que a encenação. O leitor em sua individuação interpreta o texto e a descrição do cenário como sua imaginação lhe convir, mas no palco a ele é apresentado imagens, objetivas, concretas, já prontas de um cenário.  Por isso todo o conjunto da obra deve estar adequado ao texto escrito para que esta atmosfera de “derradeiras fulgurações, antes da noite silenciosa” cair, chegue ao espectador com a mesma intensidade que o texto chega à imaginação do leitor. Este é um dos desafios que os textos simbolistas carregam na história do teatro[1] Transpor à cena toda a simbologia do texto[2].

            Em se tratando da primeira encenação em 1915 têm-se críticas bastante favoráveis, mas que são destinadas apenas ao texto e não à encenação:

Esse pequeno acto, que passa alegre, que faz rir às vezes e roça apenas o visível emocional é, entretanto, de uma infinita amargura. De uma resignação, de uma dor calada mais infinita. (Gazeta de Notícias, 1915)

 

            A peça não está dividida em cenas, como é o caso da primeira peça em um ato de Gomes, Ao declinar do dia. A bela tarde tem apenas um ato que segue uma única cena. De início estão no jardim da casa PAPAI (Manduca), MAMÃE, NICOTA (filha) E PRIMO JUCA. O diálogo coloquial é regado de leve ironia cômica por parte da personagem Primo Juca. Trata-se de uma típica conversa entre membros de uma família que tem a intimidade da convivência como registro em suas falas. Papai começa a peça indagando às outras três personagens sobre o cheiro das orquídeas. Ninguém, no entanto, consegue sentir qualquer cheiro na flor, mas ele insiste.

PAPAI - Venha cheirar!

MAMÃE – (levanta-se pesadamente e vai, sem abandonar o crochê, respira a flor). Não cheira a nada.

PAPAI – Não tem perfume?

MAMÃE – Nem sombra. (Vai sentar-se)

PAPAI – Essa agora! (Torna a cheirar a orquídea. E, de repente) Nicota!

NICOTA – (interrompendo a leitura) Papai?

PAPAI – Vem cá! (Nicota chega-se a ele) Aspira com força esta flor... Mais... E dize-me o que sentes.

NICOTA – Não sinto nada papai.

PAPAI – (de mau humor) Naturalmente... Quando tua mãe diz uma coisa... (Ela vai sentar-se... e continua a ler. Ela fica rodando pela vizinhança das orquídeas, e após breve hesitação:) Ô Juca?

O PRIMO JUCA – (sorvendo o cigarro, sem olhar) que é?

PAPAI - Abala-te para cá, um instante...vem dizer-me que cheiro deita esta flor?

O PRIMO JUCA – Muito bom.

PAPAI – Juca!

O PRIMO JUCA – Palavra! Inebriante. Dói-me até a cabeça. (Nicota ri-se. Papai olha para ela. O primo Juca continua a fumar). (GOMES, 1983, p.148)

Os diálogos do primeiro momento da peça se dão entre estes personagens nesta linha de intimidade e ironia entre eles. O primo Juca é a única personagem neste início que reproduz falas mais apuradas de sentimentalidade e poesia, embora seja ele também o provocador dos diálogos e o centro das ironias. Após a discussão sobre o cheiro das orquídeas, primo Juca começa a ler as notícias do jornal em voz alta para que os outros possam ouvir e acompanhar fazendo comentários. Em meio à conversa surge o tenente Fontes, personagem que não aparece em cena, mas tem fundamental importância no enredo. O tenente Fontes fora embora para o Ceará noivo, prestes a se casar. Primo Juca mais uma vez com ato de ironia insinua à família a relação de Fontes e Nicota. E o diálogo revela a primeira dor; a de Nicota:

NICOTA – Eu queria tanto passar um verão em Petrópolis.

PAPAI – Para o ano, talvez vamos.

NICOTA – Você diz isso todos os anos.

MAMÃE – Não está bem aqui?

NICOTA – Estou.

MAMÃE – Então?

O PRIMO JUCA – Com certeza, menos bem que o ano passado.

NICOTA – (Fechando o livro) Por que?

O PRIMO JUCA – Porque o moço Fontes já não anda por estas matas.

MAMÃE – Que tem o tenente Fontes com a vida de minha filha?

O PRIMO JUCA – Não tem nada, mãe austera. Era apenas um bom companheiro. (GOMES, 1983, p.149)

Embora pareça que o primo Juca seja um homem causador de conflitos, ele e Nicota se assemelharão futuramente na peça. O que nos leva a crer que Juca sente-se à vontade para insinuar a dor de Nicota uma vez que ela é espelho da sua, como se verá a diante.

A conversa segue com o mesmo tom de intimidade e coloquialidade entre os membros da família. No decorrer do diálogo Juca permanece sempre muito próximo afetivamente à Nicota. Ambos preferem não frequentar o five ‘o clock tea do Conselheiro Antunes. Ambos preferem ficar recolhidos em casa, eles se reconhecem em suas necessidades de solidão. Gomes, até aqui apresenta cenas levemente cômicas com personagens tipificados para ilustrar as futilidades das pessoas da família em contraste com as cenas sérias do drama das personagens Nicota e Primo Juca. A cena em que o primo Juca lê em tom sério e irônico a revista “A moça cristã” que mamãe sugere para leitura de Nicota ao invés de um romance que a jovem lê, comprova o que esta sendo dito:

O PRIMO JUCA – Estou lendo seriamente. (lendo) “A verdadeira moça deve ser como a coruja que evita a luz do dia.”

MAMÃE – Pois então?

NICOTA – Podiam escolher um pássaro mais simpático.

PAPAI – A pomba.

MAMÃE – A pomba não evita a luz do dia.

O PRIMO JUCA – (lendo) “A moça deve assemelhar-se à tartaruga que nunca abandona a casa, e quando anda, a carrega consigo.”

MAMÃE – É uma comparação poética.

NICOTA – Poética! (Papai ri-se).

MAMÃE – Não é difícil meter tudo a ridículo.

O PRIMO JUCA – Não meto nada a ridículo. Leio simplesmente. (Lê) “A verdadeira moça deve ser como a luz que está melhor dentro da lanterna do que ao ar livre!” (À Nicota) Já, para a lanterna!

MAMÃE – Me dê a revista!

O PRIMO JUCA – Só esta para terminar: “A verdadeira moça deve ser como um caldo de hospital, que quase não tem olhos...”

PAPAI – Quê?

O PRIMO JUCA – Espera. A moça não acabou. (continuando)... “não tem olhos, isto é, deve evitar o mais possível ver o que se passa em torno de si”. (atirando a revista) Santo Deus! (GOMES, 1983, p. 151)

Aqui está, além de um momento satírico da estética de Gomes ainda não explorado em suas peças anteriores, também a crítica aos costumes da sociedade, que faz parte de seu discurso dramático desde a Ao declinar do dia.

Nesta cena percebe-se que a personagem Mamãe é uma senhora enraizada numa cultura machista e defensora de um ideal patriarcal vigente à época. No entanto primo Juca, Nicota e Papai riem-se da leitura, colocando-se em um lado oposto à personalidade e crenças de Mamãe. Muito embora esta crítica pelo viés da comicidade não cresça na peça, e,  portanto, não se estenda além desta pequena parte, Gomes chama atenção para esta realidade, satirizando-a. A família está à procura de um bom noivo para Nicota e o primo Juca é julgado pela suas relações afetivas com “bailarinas, cantoras e mulher sem a menor vergonha”. Deste modo, há crítica, mas não há uma intenção moralizante. Gomes apenas usa uma deste jogo cênico para que o leitor /espectador sinta-se incomodado em concordar com o assunto, já que soam ridículas as afirmações da revista.

Nicota e o primo Juca saem de cena, deixando papai e mamãe sozinhos. Nicota ao voltar fica na varanda ouvindo a conversa entre os dois que diz respeito ao primo Juca. Mamãe está certa que Juca estava amando, mas de um tempo para cá sofreu uma grande desilusão. E logo Papai e Mamãe concluem que Lili Carambola, uma jovem prostituta, a quem primo Juca depositara todo seu amor por quase seis anos, é a causadora desta desilusão.  Mamãe confessa que lera indiscretamente uma carta deixada aberta encima da mesa no quarto de Juca, e conclui que seja de Lili carambola. Na carta estava escrito, além de ofensas ao velho Juca, que Lili havia fugido com o seu massagista Alcino. Revela-se, portanto, a segunda dor deste enredo; a do primo Juca.

Ao chegar o vizinho interrompendo a conversa de papai e mamãe, travam outro diálogo corriqueiro até o momento em que a personagem Rapaz chega pedindo ajuda. Diz que dona Josepha teve um chilique. Esta personagem não tem nenhuma descrição no texto, o que nos indica, provavelmente, tratar-se de alguém conhecida da mamãe e moradora da vizinhança. Papai e Mamãe correm até a casa de Dona Josepha para socorrê-la. Primo Juca e Nicota se encontram sozinhos em casa enquanto o sol começa a se pôr.

O diálogo travado entre o primo Juca e Nicota, nesta cena tem mais traços característicos da estética simbolista de Gomes. Não há mais o tom corriqueiro, coloquial e cômico que houve até então. Embora ainda seja um diálogo entre membros de uma família, as frases carregam insinuações de que ambos precisam revelar suas dores. Primo Juca, como foi visto no início, tinha conhecimento da dor de Nicota, cujo amor pelo tenente Fontes não fora correspondido. E Nicota, por ter ouvido a conversa dos pais, agora sabe que primo Juca também sofrera com o abandono.

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NICOTA – (...) estou mais a par do que pensam. Sei de muita coisa, primo Juca!

O PRIMO JUCA – Que muita coisa?

(...)

NICOTA – Sei de tudo! E compreendo tudo!

O PRIMO JUCA – Compreendes?

NICOTA – Sim, compreendo! Ah! Ter-se toda a confiança numa pessoa e um dia...

O PRIMO JUCA – Pois espera, para falar nessas coisas, que tenhas vivido um pouco e sofrido um pouco!

NICOTA – Eu já vivi, já... eu também...eu também... (Prorrompendo em soluções e atirando-se-lhe aos braços) Ah, primo Juca, sou uma desgraçada!

O PRIMO JUCA – Desgraçada?

NICOTA – Só me resta morrer! (GOMES, 1983, p. 159)

Nicota, por se identificar com o sofrimento de Juca desabafa suas confissões. Conta ao primo Juca que o tenente Fontes havia prometido casar-se com ela, dando-lhe até mesmo um beijo. Jurara que a amaria para sempre, que era a mais linda dentre as mulheres, que pediria sua mão em casamento para o pai e morariam no Leme em um “chalé com um jardim e uma cascata”. Nicota confessa que no mês passado, quando soube que Fontes estava noivo e partiria para o Ceará, tentou tirar a própria vida. Primo Juca em sua posição de parente protetor e homem mais velho tenta consolá-la, mas sua dor aos poucos também vai transparecendo. Finalmente, Roberto Gomes afirma todo o seu caráter simbólico que lhe é característico. Coloca nas falas do primo Juca sua visão pessimista sobre o amor, sobre o abandono, sobre a felicidade que ninguém pode ter senão momentaneamente, sobre a tristeza eterna a que o ser humano está condenado. 

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NICOTA – São velhos. Já não sentem. (falando sobre papai e mamãe)

O PRIMO JUCA – Sentem sim. Eles também têm as suas tristezas... outras pequenas tristezas que não nos comoveriam se as conhecêssemos, e que eles nos calam.

NICOTA – Por que?

O PRIMO JUCA – Porque percebem confusamente que, embora nos amem, estão muito longe de nós.

NICOTA – Deveriam falar.

O PRIMO JUCA – Mas, falam! Todos nós falamos... do calor, do cometa, da festa de amanhã... e os dias vão correndo. Mas no meio daquele turbilhão fofo de palavras, que surja em nossa vida um fato grave, que nasça em nosso peito um fundo sentimento, e pela primeira vez faz-se em nós o silêncio. Continuamos a viver uns ao lado dos outros, trocando palavras e sorrisos, e mais isolados, entretanto, mais longínquos do que as mais longínquas estrelas!

NICOTA – (com tristeza) E vivemos sempre assim?

O PRIMO JUCA - e vamos assim vivendo, resignados e mudos. Os anos passam, amontoando sobre nós o peso da grande solidão humana, até que um dia...

NICOTA – um dia?

O PRIMO JUCA – um dia, como hoje... depois de uma tarde luminosa e bela, quando chega devagarinho a noite e que a natureza inteira emudece, preparando-se para o grande repouso, então, aquela hora triste infinitamente, uma languidez mole aos poucos nos invade, e sentimos surdir em nós, irresistível e terno, o desejo angustioso de soluçar baixinho contra um peito amigo. (E, com efeito, Nicota, encostada ao peito do rimo Juca, soluça baixinho, enquanto ao longe, um sino tange calmamente)

NICOTA – Primo Juca!

O PRIMO JUCA – E falamos então. Rejeitando a roupagem vã das palavras fictícias, balbuciamos as outras, as imortais palavras de verdade e de dor! Os mais fundos segredos sobem da alma aos lábios, e, desnudando os nossos corações, mostramos sem pudor tudo o que chora em nós.

NICOTA – Ah! Que houve para isso?

O PRIMO JUCA – Nada houve. Foram duas pequenas dores que se encontraram no crepúsculo, e que se contemplam um instante antes de separar-se. (GOMES, 1983, pp.161-162)

Neste pequeno trecho Gomes expõe o primo Juca como um observador da vida. Descreve por suas palavras um pensamento pessimista e determinista da vida, em que tudo é somente dor, e não há nada que possamos fazer para nos livrar disso, senão aceitar que ela existe para todos variando de intensidade e motivos. “Eles também têm as suas tristezas...”. Também está contida na fala de Juca a solidão mascarada em que o ser humano vive. Embora esteja em meio à família e pareçam todos estarem sempre bem acompanhados, como a peça mesmo nos apresentou até aqui, quando olhamos mais contidamente para cada pessoa em particular é possível encontrar as mais profundas tristezas. “Continuamos a viver uns ao lado dos outros, trocando palavras e sorrisos, e mais isolados, entretanto, mais longínquos do que as mais longínquas estrelas!”. Tristezas tais que não são compartilhadas, pois elas distanciam as pessoas. Cada um sente como se sua dor fosse única e mais forte que as dos outros, e por isso não as confessa. Cada qual aprende a viver com sua própria dor, em sua própria solidão. “Os anos passam, amontoando sobre nós o peso da grande solidão humana.”.

O crepúsculo não é só uma preferência temática do autor. Nas peças de Gomes é no entardecer, no cair da noite que a vida começa a se silenciar, que o ser humano começa a se recolher e, portanto, se encontra consigo mesmo, sozinho à noite, sem a companhia de mais ninguém.  É no crepúsculo que as dores se aguçam. “Quando chega devagarinho a noite é que a natureza inteira emudece”. É no crepúsculo que se percebe a solidão, e mais ainda, se percebe o peso que ela causa na vida humana. Ter durante todo o dia a companhia de outros, que não sabem de suas tristezas e, portanto, não estão presentes, faz com que estas duas personagens, Nicota e Primo Juca, sintam-se sozinhos na hora da necessidade. “E sentimos surdir em nós, irresistível e terno, o desejo angustioso de soluçar baixinho contra um peito amigo.”.  Acreditam que o outro não reconheceria a verdade dos seus segredos revelados, sendo possível que zombassem dos sentimentos alheio. “Os mais fundos segredos sobem da alma aos lábios, e, desnudando os nossos corações, mostramos sem pudor tudo o que chora em nós”. Mas, como o determinismo das relações afetivas fadadas ao sofrimento é a causa dominante no pensamento de primo Juca, não há nada que possa retardar este sofrimento, portanto, ele apenas usa deste momento para explicar a Nicota que a dor não é exclusiva a ela. Que muito ainda ela irá amar e sofrer. Juca distancia a intimidade da dor de Nicota da sua dor quando diz: “Nada houve. Foram duas pequenas dores que se encontraram no crepúsculo, e que se contemplam um instante antes de separar-se.” Primo Juca entende que foi preciso este encontro para que Nicota amadurecesse, no entanto, não há como eles permanecerem unidos. Cada qual voltará a sua própria realidade de sofrimento e solidão. Mesmo que Nicota insista em permanecer atenta às necessidades afetuosas do primo Juca, ele concluí que esta compreensão mútua das dores, assim como a felicidade e tudo o mais na vida, também é efêmera. O que fica são apenas lembranças, e estas também mudam de qualidade:

O PRIMO JUCA – (...) Estes belos momentos não podem durar muito. Amanhã já te arrependerá das tuas confidências, e, mais tarde as evoque com uma compaixão irônica. Sorrimos tão cruelmente do nosso passado! Mas, não sorrias nunca desta bela tarde em que tua almazinha de criança e o meu velho coração palpitaram e sofreram face a face, tão miseravelmente. O Fontes não merece de certo as tuas lágrimas, Lili muito menos as minhas. Mas, não escolhemos as nossas dores. As causas podem ser pequenas, o sofrimento é sempre grande. (GOMES, 1983, p. 162).

Pode-se claramente fazer uma analogia ao cheiro da orquídea que o Papai insistia em sentir no começo da peça. Para ele o cheiro estava lá, realmente existia, mas ninguém era capaz de senti-lo. Da mesma forma, estas duas pequenas dores estão postas nos corações de Juca e Nicota, mas provavelmente haja aqueles que não sejam capazes de compreendê-las. Em entrevista ao jornal O Imparcial Roberto Gomes fala algo que explica esta analogia:

Procurei nesse acto antes sugerir do que mostrar. (...) Através dessas duas pequenas dores particulares, procurei fazer sentir um pouco outra dor, a grande dor da solidão de que sofrem todos os seres humanos. (COSTA apud GOMES, 1978, p.81).

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Ao cruzar estas duas dores, Gomes ilustra que a orquídea pode sim ter um cheiro, que o valor do sofrimento de cada um é relativo. Que a dor humana existe e habita todos os corações, mesmo que não possam ver elas estão lá.

Do ponto de vista dramatúrgico, pode-se dizer que os diálogos que compõem este ato não levam a peça a nenhuma ação e nenhuma conclusão propriamente dita. Peter Szondi chama de “crise do drama” esta substituição da “ação” pela “situação”[1]. As peças de Gomes refletem a crise do drama uma vez que não há uma luta entre os heróis e o destino, como acontece na tragédia grega e nem conflitos entre seres humanos como acontece no drama do classicismo. Há nas peças de Gomes o momento presente, uma situação presente que carrega implicitamente um passado e um futuro, mas que não são postos em cena. Gomes captura um único momento em que suas personagens são surpreendidas pelo destino, e estão completamente indefesos em relação a ele. O homem na dramaturgia de Roberto Gomes é completamente impotente frente ao seu destino. O que leva os diálogos a acontecerem é somente uma tentativa das personagens em explicar e entender sua própria situação. Há apenas momentos de recordação de ações passadas, que reverberam personagens em conflitos internos permanentes. Este conflito interno vai sendo desenrolado durante a peça em diálogos estáticos que expõe somente o emocional das personagens em cena. O como as rubricas nos mostram, somente os diálogos não são suficientes para expor toda a situação, Gomes faz sempre minuciosas indicações cênicas. A peça não se completa só nos diálogos das personagens, mas no próprio cenário, iluminação e detalhes que compõem este quadro quase estático e carregado de significações.

Referências Bibliográficas

COSTA, Marta Morais da. “A Dramaturgia de Roberto Gomes, da Casa Fechada à Abertura Modernista”, Revista Letras, Curitiba, n.60, p.259-274, jul./dez.2003. Editora UFPR. _______. Teatro de Roberto Gomes, Ed. Instituto Nacional de Artes Cênicas, São Paulo, 1993. FRAGA, Eudinyr. O simbolismo no teatro brasileiro, Editora Art&Tec, São Paulo, 1992. ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1998.


Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas..
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