amago

Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

Antes da chuva

Este artigo é uma reflexão sensível sobre a morte, sobre perda, sobre a confusão que a ausência causa naqueles que ficam.


É mágico perceber, mas em dias como este a chuva demora a cair. Deus cobre o céu com um manto cinza, sopra constantemente um sopro frio e faz o vento esculpir as árvores. Depois que passa, tudo volta ao normal.

Quando a notícia chega aos ouvidos, ou já se esperava, ou é uma surpresa tão grande que dói mais o corpo que a alma. Fecha-se os olhos e tenta-se recordar dos momentos que foram compartilhados, das horas que passaram no mesmo lugar, dos assuntos trocados, das opiniões e até julga-se se era bom ou não. E então, tenta-se, esforça-se para recordar a fisionomia com o já presente medo do esquecimento. Quando foi a última vez que ficamos frente a frente? Qual mesmo a cor dos olhos? A risada?

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Ah! O modo como franzia a testa!!! Mexia nos cabelos! Usava as mãos!

Difícil é recordar com clareza!

Mais tarde quando se convence que mesmo queridos, os detalhes que havia reparado eram poucos. De tão próximos não era necessário olhar tão de perto, perceber os mistérios de um corpo que apenas guardava a alma que tanto se amava. Mas, agora, o que dói na verdade é não poder mais ver os gestos para poder guardá-los, enfim, para sempre.

A mente se esforça e o tudo o que passa por ela são forçadas recordações, são teimosas sensações que não existem, mas que deveriam estar acontecendo. Um corpo só, mas, que antes estava presente. Uma alma cansada que doía e hoje descansa da dor física e se conforta ao saber da dor dos que o amavam. Dor que quanto mais dói mais revela o maior amor, a maior falta, a mais dura e sofrida recuperação.

Esperando para ver o corpo pela última vez imagina-se que além ainda há os que estavam mais perto, os que a dor deve ser tamanha e insuportável. Há os que dependiam do corpo que se vai, há os que amavam o todo e precisavam do todo.

Imagina-se que chegará a hora de soltar as desajeitadas palavras de conforto que têm a intenção de conformar o inconformável. Há lágrimas que caem de corpos sem esforços, mas em descarrego. Há os que terão de dar as roupas, os pertences, desfazer-se dos bens queridos, dormir na mesma cama, sentar-se no mesmo sofá, usufruir das mesmas conquistas. A estes, compreende-se o que na verdade dói. A estes se entende o que realmente fere, machuca e sangra.

A presença que permanece, a memória que nunca é boa o suficiente, o medo da vigia onipresente, do esquecimento, da não gratidão, da insegurança de não ter a memória como realmente merecia.

O que fica é o que não se pode ver e certas vezes nem se pode sentir, mas de tanto que se cobra, sente-se e assim, machuca-se!

Os traços realmente são de difícil acesso. O perfume é instigado pelos narizes que tinham o cotidiano compartilhado. Aos que são frutos desta energia fica-se a cobrança de uma eterna lembrança, de uma página que nunca poderá ser virada, de um braço que nunca poderá ser encolhido, de olhos que nunca poderão dormir, de tempos que nunca poderão passar.

Além de boas lembranças alojar-se-á nas pobres mentes um zunido que não descansará.

Dor. Pesada. Confusa.

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Muitas vezes nem dói. Mas, deve doer, deve sangrar, deve mostrar que nesta dor mora um amor. Nestas lágrimas moram a saudade. Neste corpo que se contorce ainda há vestígios de alguém.

Os corações que ainda batem bombeiam um não acreditar, um não aceitar. Raiva de um céu cinza em respeito a uma vida que se vai. Raiva do Deus que não se esforçou o suficiente, que não estava por perto, que não conhecia tão bem, que maltrata e castiga. Raiva dos que vieram assistir à dor, dos que recordam o que não se pode mais recordar. Raiva das músicas que mantêm vestígios. Raiva dos abraços desajeitados. Raiva da vida, do novo começo, da superação.

Raiva. Dor. Pesada. Confusa.

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O tempo vai passar, as cores irão voltar. Sorrisos voltarão a surgir. A memória vai falhar ainda e cada vez mais, os cheiros desaparecerão de vez. As lembranças, por mais teimosas, chegarão ao fim. Restará a saudade, os pedidos, as desculpas e os perdões... restará a vida... que segue...

Quem nunca morreu que atire a primeira pedra!

https://www.youtube.com/watch?v=ya9UtSdIBI8


Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas..
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