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Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

Depois da tempestade

Este texto é um ensaio sobre as dores e conformidades da perda. O que dói e o que deixa, aos poucos, de doer.


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A chuva caiu, lágrimas são as mais presentes e constantes. Os olhos. São pares dispersos, curiosos, distantes, questionadores. O que mais se presencia durante a chuva são olhos. Olhos que trazem gargantas sentidas, que puxam do fundo dos órgãos uma força para não gritar e apenas soltar um suspiro sentido.

Há olhos que mergulham num profundo sentimento de vazio, de não entendimento que se tornam vagos. Olhos buscam em todos os cantos um conforto inexistente. As lágrimas cobrem olhos sinceros, dores profundas. Os soluços fazem olhos fecharem e mergulharem em azuis ocos. Há dor, há muita dor, mas ainda há os que buscam nos olhos, sorrisos. Há os que riem, e camuflam uma ferida. Sorrisos desesperados, gestos soltos, corações pulsantes. Busca.

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Os olhos cheios de sal e água têm medo de se fecharem. Medo de se encontrar mais de perto com este coração que dói e esta mente que se questiona. Os olhos dizem a todos os cantos que o melhor é permanecer acordado, olhando tudo o que pode ser visto para enganar uma dor que existe e que dói sem resposta. Olhos de chuva. Tempo de chuva. Tempestade. Vento perdido. Olhos que doem.

Enquanto olhos se perseguem buscando a melhor posição, a melhor visão, choros vêm do fundo da alma e saem aos socos, como pancadas no corpo. Choros sofridos que se mostram não suficientes para saciar a dor. Choros pouco intensos em movimentos e sons, mas que transbordam dor, sofrimento. Este choro é o que machuca os que não foram feridos pela perda. Este choro choca. Este choro mostra a realidade de corpos que se precisam, de almas que se completam, de um mundo injusto e inexplicável. Quando os olhos fecham e se enrugam vêm acompanhados de um soluço seco que dói fisicamente no peito, que fere profundo na alma. Esta junção de movimentos, olhos e peito, é o que marca, é o que fica. O abdômen se contrai forçando este soluço a sair, mas a dor... fica.

O que é material e perene cobre o que era sentimental e vivo. O que ainda é vivo, fica, sofre, mas se conforma. Fica o tempo que cura. Fica a saudade, que não deve, mas passa. Ficam os gestos que se esquecem, mas não se acredita. Fica a presença enquanto for necessária para conforto. Olhos aos poucos se acostumam com uma ausência que será preenchida. Aos poucos os abdômens voltam a relaxar, o sal deixa de ser tão ruim e o sol volta a aparecer. Aos poucos a tempestade vai embora até que outra tome seu lugar e esta dor que cicatriza volte a aparecer e o peito calejado aprenda a aceitar.

Aos poucos todo o vivo deixa de ser.

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Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas..
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