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Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

Simbolismo ou Pós-Romantismo ?

Este artigo é uma breve análise do período ao qual se desenvolveu o Movimento Simbolista, partindo de uma defesa do uso correto este termo.


“... o movimento cujo maduro desenvolvimento estamos hoje testemunhando não é mera degenerescência ou prolongamento do Romantismo (...) o que temos hoje é um movimento inteiramente distinto...” Edmund Wilson

A palavra simbolismo designada a rotular uma corrente literária, causa estranhamento e incertezas aos estudiosos. Começando pelo próprio nome. O termo é usualmente considerado pelos historiadores da literatura como o período pós-romântico e a palavra simbolismo é considerada muitas vezes inadequada para rotular o movimento (1). Segundo a pesquisadora Anna Balakian (2) o Movimento Simbolista aconteceu na França entre o período de 1885 e 1895 quando houve uma ampla filiação de escritores manifestando suas inquietudes decorrentes das transformações físicas e ideológicas desta época. Para este estudo há, primeiramente de se estabelecer uma distinção para logo em seguida estabelecer-se uma conexão entre o período e as transformações que culminaram no que chamamos de Movimento Romântico e o período e as transformações que fizeram nascer o Simbolismo, para que então possamos confrontar este último termo com outros rótulos literários deste período a fim de melhor compreendê-lo e afirmá-lo.

O valor intrínseco do indivíduo era uma reação do Movimento Romântico frente aos avanços das ideias mecanicistas de certas descobertas científicas. A Matemática e a Física deram um grande salto nos século XVII e XVIII na Europa. Os átomos de Demócrito, as partículas luminosas de Newton e o Empirismo de Descartes eram capazes de explicar a matéria e o seus movimentos. Esta concepção foi aplicada também na observação da sociedade e suas formações, como por exemplo, para a Constituição Norte-Americana a sociedade era apenas uma máquina bem regulada. Este espírito super-racional e lúcido buscava descobrir quais os princípios que regiam o funcionamento destes sistemas regulados, como se tudo fosse passível de explicações exatas. Este período chamado de “clássico” na literatura influenciou poetas, a exemplo dos físicos, matemáticos e astrônomos, a encararem o universo como algo mecânico, como uma máquina que obedecia às Leis da Lógica, “examinavam a natureza humana desapaixonadamente” (WILSON,1959, p.10). Esta forma mecânica e fria tornou-se eventualmente um incômodo, uma vez que excluía a parte sensível da vida e a tornava meramente explicável. No entanto, estas explicações não condiziam ao real. Os românticos, por sua vez, responderam a este avanço científico; a vida não é uma máquina, afinal de contas, na vida há mistério e coisas que a matemática não pode explicar. 135042789335.jpg

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Mediante este impasse o poeta passou a olhar para dentro de si, passou a contemplar a sua alma e enxergar nela algo que não era redutível a um conjunto de leis, números ou sistemas, na alma do poeta romântico havia confusão, mistério, conflitos e fantasias. A preocupação do romântico é o individuo, o individual em todos os seus aspectos, seja na vontade, seja na sensibilidade. O poeta romântico buscou inúmeras formas de falar sobre estes mistérios individuais e singulares de cada indivíduo. Em síntese a ciência do século XVIII desenhou um universo como uma máquina e pôs o homem à parte da natureza, como um observador distante não pertencente ao sistema, mas racional a ele. Em contrapartida a isto, o Romantismo coloca o homem como organismo pertencente, extrinsecamente relacionado e em perpétua conexão com a natureza. Deste modo, as emoções fazem parte deste organismo e podem ser descritas através das palavras e transfundidas pelo meio ambiente. O homem é o herói do mundo, ele é o canal entre o que é real e o que é invisível. É através do homem que o sensível pode ser provado, é o homem quem revela nas suas diversas formas o abstrato. Assim, o poeta romântico faz uma revolução não só na poesia, ao vislumbrar a natureza e descrever as coisas como realmente são na sua sensibilidade, ele revoluciona também a metafísica (3).

Segundo o filósofo A. N. Whitehead 91861-1947) citado por Wilson no livr O Castelo de Axel de Edmund Wilson: “Não há dualismo real, diz Whitehead, entre lagos e colinas exteriores, de um lado, e sentimento pessoais, de outro; os sentimentos humanos e os objetos inanimados são interdependentes e se desenvolvem conjuntamente, de alguma maneira que nossas noções tradicionais de leis de causa e efeito, de dualidade de mente e matéria, corpo e alma, não nos podem dar ideia veraz.” (WILSON, 1959, p12)

Em meados dos séculos XIX, ainda com avanços significativos da ciência e as ideias mecanicistas em destaque, outro campo foi o protagonista de um novo caminho ideológico a ser percorrido pelos os poetas. Desta vez a Biologia com a Teoria da Evolução de Darwin foi o que quebrou os paradigmas. Se com os românticos o homem era exaltado como o herói dos poetas, esta teoria o reduzia a um animal indefeso e novamente pequeno diante do universo. Ou seja, o homem era apenas um produto da hereditariedade da natureza e assim, novamente, passível de explicação. Na literatura esta adaptação às novas descobertas científicas foi chamada de Naturalismo, momento em que os românticos, sem abandonar a ideia do individual, mesclaram a novidade ao que já vinham defendendo.

“(...) Zola, acreditava serem idênticas a composição de um romance e a realização de um experimento de laboratório: bastava apenas fornecer às personagens um meio ambiente e uma hereditariedade específicos e depois acompanhar-lhes as reações automáticas.” (WILSON, 1959, p.12) ZOLA_1902B.jpg

O Naturalismo teve seu auge na prosa e não na poesia, seus principais escritores voltaram à forma impessoal do século XVII, mas com certas diferenças. Enquanto La Rochefoucauld escreveu as Máximas em 1664 reduzindo a natureza humana a princípios universais de conduta, os naturalistas de XIX analisavam o homem em relação com o meio ambiente e a sua época, mas também usavam uma linguagem mais objetiva e precisa. Ambos fazem análises e buscam explicações mecanicistas. Há de se destacar que os naturalistas não deram um passo para trás tendo voltado a esta forma impessoal de escrita, pelo contrário, eles acrescentaram ao Romantismo um novo modo de observar o mundo e o homem, ou melhor, o homem no mundo. Desta vez uma forma mais precisa de argumentação, mas ainda tendo como centro de investigação as emoções e mistérios da vida. Em decorrência destes avanços e diversidades de possibilidades em descrever as descobertas científicas e o olhar para dentro de si, a tendência ao que se chama de Realismo se firmou. Não ignorar nem a ciência e nem o mistério do ser humano foi o que fizeram os realistas. O grande exemplo deste tipo de escrita é Henrick Ibsen (1828-1906) e Flaubert (1821-1880). Madame Bovary de Flaubert é o exemplo mais figurativo desta ruptura dos moldes românticos, um enredo relativamente simples onde o método narrativo alcança a perfeição ao tratar com precisão a estupidez da vida humana. Flaubert e Ibsen desenvolveram suas escritas em moldes românticos, mas criaram para si seus próprios métodos de escrita e de ver o mundo. A obra destes autores caminha de acordo com as mudanças à que estamos nos referindo. A exemplo deles, tantos outros passaram pelos moldes românticos, experimentaram o naturalismo, o realismo, e cada qual de acordo com a sua própria ideologia e desejo estabeleceram métodos, padrões e estéticas particulares. O Romantismo como um todo, nas suas inúmeras possibilidades e interpretações do mundo e da sensibilidade do homem, misturado ao objetivo do naturalismo e as técnicas mecânicas de escrita começaram a tolher a criatividade do poeta, ou seja, dificultavam a necessidade de expressar o que era imagético, o que era sensível. “ A Literatura desloca-se outra vez da baliza clássico-científica para a romântico-poética. E esta segunda reação, final do século, está contraparte da reação romântica em fins do século anterior, ficou conhecida em França por Simbolismo.” (WILSON, 1959, p.15).

democrito2.jpg Há de se destacar que os movimentos não se deram sequencialmente como se está sendo exposto. Esta seja talvez, a dificuldade em aceitar rótulos e afirmações. O Romantismo foi o primeiro grito de revolta do indivíduo. Os métodos, as descobertas, e consequentemente as mudanças de formas e conteúdos dos poemas se dão quase que conjuntamente umas com as outras. Pontuá-las com exatidão é algo utópico, uma vez que cada estudioso busca e encontra respostas em fontes diferentes. O que se sabe com maior segurança é que há diferenças entre os movimentos, mesmo que por vezes estejam turvas aos olhos dos historiadores. Escolhemos o estudo de Edmund Wilson para estabelecer estas diferenças na tentativa de entender o título deste segmento. O que Wilson faz em seu livro é procurar em alguns autores, selecionado por ele conforme sua opinião sobre as leituras, os que representam tendências ou escolas numa forma mais clara ou mais desenvolvida, que, por vezes, levaram o Romantismo mais a diante e podem ser, segundo ele, os precursores do Simbolismo. Não nos é interessante aprofundarmos em cada nome, mas leva-los como parâmetro para entender o termo Simbolismo e suas estranhezas. Wilson analisa respectivamente W.B Yeats, Paul Valéry, T.S. Eliot, Marcel Proust, James Joyce, Gertrude Stein, Rimbaud e Villiers D’Isle-Adam. No entanto, há ainda alguns outros nomes de relevância a serem acrescentados aos primórdios do Simbolismo. O que nos vem ao caso neste momento é estabelecer um caminho sólido, com autores renomados e de peso histórico para discutir este movimento. Outro estudo importante e já citado é o livro O Simbolismo de Anna Balakian. Neste estudo a autora analisa Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé como os precursores do Simbolismo. Balakian cita C. M. Bowra no livro The Heritage of Symbolism (A herança do Simbolismo) que também considera Baudelaire, Verlaine e Mallarmé como os grandes precursores deste movimento, não só pelas suas inovações e técnicas literárias mas porque “tentaram manifestar uma experiência supernatural na linguagem das coisas visíveis e assim quase toda palavra é um símbolo e é usada não em seu sentido comum, mas em associação com aquilo que ela evoca de uma realidade situada além dos sentidos.” (BALAKIAN apud M.C. Bowra, 1943, p.12.)

Não nos cabe também comparar este estudo ao de Wilson, ambos são complementares e partem por caminhos distintos, o primeiro tem a intenção de caracterizar os autores e delinear os pontos da estética Simbolista em suas obras, enquanto que Balakian faz um estudo comparativo do movimento traçando sua evolução já tendo delineado seus escritores. O estudo de Wilson serve de apoio ao de Balakian, o primeiro aprofunda-se às origens sistemáticas do movimento, enquanto que o segundo caminha por um viés histórico, mas não menos importante. Tendo como pontos de referências estes dois concretos estudos partimos para a nossa análise. Diante do avanço nas teorias sobre o homem e o mundo, o espírito científico da primeira metade do século XIX domina toda uma geração de intelectuais e escritores, sendo este o período que compreende a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Industrial iniciada em fins do século XVIII. Embora o progresso técnico-científico tivesse trazido aos homens inúmeras facilidades, trouxe-lhes também uma “sensação de angústia pela aguda conscientização de a sua pequenez no universo, onde ele seria uma ínfima partícula, levando-o a questionar o seu papel nesse Cosmos impassível, organizado e, mais que tudo silencioso. Entram em choque a pretensa explicação científica do mundo e a incompreensão natural da vida”. (FRAGA, 1992, p. 24)

Esta tentativa em falar das coisas e situações do mundo a partir de símbolos vai em contrapartida ao empirismo científico. Há uma tentativa de recolhimento para o mundo interior do pensamento, uma tentativa em explicar poeticamente o que a ciência desconsidera. Partindo deste pressuposto de que os autores simbolistas escrevem de dentro para fora, ou seja, quase que criptografando os sentimentos humanos, Wilson pode incluir ainda na lista dos precursores do movimento T.S Eliot, Proust, James Joyce e também os dadaístas.

moreau2.jpg Anna Balakian faz inúmeros levantamentos de estudos sobre o Simbolismo. Há os que o veem como uma literatura de rejeição do mundo e revolta dos moldes da escrita estabelecida como Paul Valéry. Há os que têm como raízes os traumas psicológicos e trabalham a escrita com técnicas de sinestesia, como é o caso da obra de Svend Johansen. E há também, segundo a estudiosa, um grupo de críticos que pensaram o Simbolismo a partir das diferenças e não das afinidades deste movimento. Por exemplo, quando Jaques Gengoux valora Mallarmé a fim de provar que ele não era Simbolista. Esta discussão levantada por Balakian ainda não esta resolvida. O Simbolismo constitui realmente critérios válidos para discernir valores literários ou é apenas considerado uma “capa exterior para ocultar o realismo, o classicismo ou simplesmente outra fase do ideal parnasiano” ? Seria válido então banir o termo “Simbolismo” como um rótulo literário, tamanha as incertezas que ele causa à crítica? Não temos a intenção de buscar uma rígida classificação a estes e outros autores de obras datadas entre 1857 a 1930. O tempo é irrelevante neste caso. Rejeitar o termo seria abandonar uma linha de pensamento que de certa forma conduzia uma gama de escritores, que por motivos comuns reverberavam em literatura o mal-estar de uma época em constante revolução, cada qual na sua individualidade. Talvez seja este o traço comum entre eles, e não um termo rigidamente classificado e datado. Rotula-los seria uma perda de identidade, mas abandoná-los a própria sorte seria ainda pior. O Simbolismo é mais potente do que uma mera capa, por mais obscuros que pareçam seus valores literários, ainda sim eles são relevantes, e ainda sim ele foi um caminho ao qual muitos escritores seguirem na tentativa de se expressarem.

O Simbolismo ultrapassou barreiras linguísticas e geográficas, mesmo tendo a França como seu local de origem. Algo poderoso aconteceu com os poetas que fez surgir uma base unitária inerente. Tão difícil quanto classificar este movimento é rotular autores com este nome. Na maioria dos estudos há divergências quanto à origem do Simbolismo. Por este motivo é necessário confrontá-lo com outros rótulos literários do período. Wilson considera como precursores do movimento, ou apenas de um modo novo de escrita os até então românticos Gérard de Nerval (1808-1855) e Edgar Alan Poe (1809-1849). Poe e outros poetas dos Estados Unidos estavam caminhando em direção ao Simbolismo. O ponto chave entre Poe e o movimento foi a descoberta deste por Baudelaire. O poeta francês se identificou de tal maneira com a escrita do norte americano que publicou em 1847 um volume com as traduções dos contos de Poe. A partir deste capítulo da história a escrita de Poe influenciou fortemente a literatura francesa. Por este fato Wilson considera os textos de Poe, especialmente os críticos, como as primeiras escrituras do Movimento Simbolista. Poe tentou formular um novo programa literário que amenizava as extravagâncias românticas e corrigia sua frouxidão (WILSON, 1959, p.17). Dez anos mais tarde, em 1857 Le Fleurs du Mal de Charles Baudelaire é publicada e se torna o marco inicial do Movimento Simbolista. Poe não só manteve certos traços românticos na sua reformulação, como intensificou alguns. Se os românticos tentaram fazer racionais os sentimentos, ou seja, tentaram literalizá-los, Poe os transformou em supra-racionais, descreveu as sensações de uma maneira nunca antes vista nesta época. Inovou com a poesia de sonhos, com o irracional, com a musicalidade nas junções das palavras que compunham o poema, com a miscelânea de imagens e com as metáforas. Assim, aos poucos uma nova forma de fazer poesia surgia e se espalhava entre os poetas da França.

“O Movimento Simbolista violou aquelas regras da métrica francesa que os românticos tinham deixado intactas, e logrou enfim atirar pela borda fora, completamente, a clareza e a lógica da tradição clássica francesa, que os românticos haviam ainda respeitado em grande parte.” (WILSON, 1959, p.19)

Outro importante estudioso deste período Álvaro Cardoso Gomes esclarece as características divergentes e convergentes entre o Romantismo e o Simbolismo: “(...) eis as características simbolistas que alguns românticos e parnasianos anteciparam: a capacidade sugestiva, a musicalidade de expressão e o idealismo de origem platônica. Este último, pedra de toque do Simbolismo, tanto para os românticos quanto para os simbolistas, origina-se do místico sueco Emmanuel Swedenborg, para quem “todas as coisas que existem na natureza, desde o que há de menor ao que há de maior são correspondências. A razão para que sejam correspondências reside no fato de que o mundo natural, com tudo o que contém, existe e subsiste graças ao mundo espiritual, e ambos os mundo graças à Divindade””(GOMES, 1984, p.15)

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Se para os românticos a filosofia de Swedenborg satisfazia a concepção cristã do mundo, para os simbolistas este espiritualismo era uma contrapartida aos ideais materialistas e positivistas. Enquanto a poesia Romântica sonha ascender aos céus e descreviam o paraíso, os simbolistas, embora também espiritualizados, viam o mundo como sua única morada. A morte era o fim de tudo e não o começo. A alma estava intrinsecamente ligada à vida material e física, esta relação entre o mundo material e o espiritual recebe o nome de “correspondência” e falaremos mais detidamente sobre ela no tópico a seguir. O poeta simbolista diferentemente do romântico deseja encontrar a unidade material e espiritual aqui na terra, não abandonar a terra para se encontrar com Deus. O suicídio é um ponto chave para entender as divergências entre estes dois movimentos, embora pareça um assunto convergente entre eles, a finalidade a que um poeta romântico e simbolista recorre a este acontecimento é diferente. Enquanto o romântico busca na morte a libertação para uma vida eterna no paraíso, e livre dos pesares e dores terrenas, o simbolista busca na morte um fim para o sofrimento da existência humana, o simbolista não recorre ao suicídio em busca de uma vida de alívio, ele busca o alívio imediato, a completa extinção do sentimento.

A França foi o berço do movimento, e foi lá que ele alcançou seu auge, mas o Simbolismo em si não foi Francês, aconteceu em Paris e Balakian o destaca como Parisiense para distingui-lo e não classificá-lo com esta única nacionalidade (5). Poetas e críticos da Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos foram até Paris para compartilhar as experiências e as memórias do cénacle. Estes escritores voltam aos seus países de origem levando na bagagem um ideal comum, mas que cada qual desenvolveu conforme suas individualidades e a dos seus países. “Na verdade, muito do que foi conhecido como Simbolismo era baseado não no Simbolismo francês, mas numa tradução ou interpretação do Simbolismo francês que foi, de fato, uma mutação do original.”

O Romantismo também foi um movimento internacional que ultrapassou barreiras, mas ele foi o mal du siècle que atacou as terras europeias, foi um movimento de caráter nacional banhado ao lirismo. Já o Simbolismo se nutriu de muitas fontes estrangeiras e por isso alcançou limites geográficos e linguísticos. É um movimento atemporal, pois acima de tudo sobreviveu ao tempo influenciando autores de todas as gerações. A preocupação não-temporal, não-sectária, não-geográfica e não-racional da condição humana (BALAKIAN, 1967, p.15) fez deste movimento assunto sempre atual e fez com os poetas perdessem, mesmo que temporariamente sua identidade nacional e se preocupassem com a arte em sim, rejeitando a sociedade. Os poetas não mais falavam como porta-vozes dos seus países, comunicavam-se em círculos fechados e foi através deles que a França ganhou prestígio intelectual e artístico. A língua francesa

“se tornou a linguagem universal do intercâmbio poético. A visão artística, livre dos ideais nacionais, concentrou-se na relação entre o mundo pessoal do artista, puramente subjetivo, e sua projeção objetiva. (...) Todos foram à Paris.” (BALAKIAN, 1967, p.16)

O romantismo foi o “primeiro grito de protesto” (FRAGA, 1992, p.23) contra o progresso científico e a perda dos valores individuais. Ele se fortaleceu e se enfraqueceu durante todo o seu percurso. Foi pelos ideais românticos que outras estéticas se firmaram e diante destas inúmeras fulgurações que culminaram no Movimento Simbolista, sua origem e desdobramento carregam incertezas e estranhezas. Mas, há neste cerne algo em comum, que mesmo que tenha ultrapassado tantas fronteiras e tenham tido tantas interpretações têm como ideal uma única semente: a filosofia de Emmanuel Swedenborg. Em se tratando do termo para classificar este momento que compreende estas mudanças de ideais literários, tratar este período como pós-romântico seria diminuir um movimento poderoso tanto quanto o próprio Romantismo que também tem as suas particularidades e características específicas. O Simbolismo foi sim alimentado pelos românticos, mas possui um caráter inovador e singular na história da literatura que merece os créditos etimológicos. O Simbolismo não foi só pós-romântico, foi um movimento diferenciado, necessário e universal. Nomear este período com o termo Pós-Romântico não nos é satisfatório. Por mais sutilezas e dificuldades que o termo Simbolismo apresente aos estudiosos, visto mais de perto o Movimento fez da poesia uma questão de sensações, tratou de falar em símbolos, tais quais causam as confusões do termo. Os símbolos do Simbolismo devem ser tratados de maneira diversa às dos símbolos comuns Charles_Baudelaire.jpg fleurs.png “ (...) o sentido de que a Cruz é o símbolo da Cristandade ou as Estrelas e Listras o símbolo dos Estados Unidos. Esse simbolismo difere inclusive de um simbolismo como o de Dante. Pois o tipo familiar de simbolismo é convencional e fixo; o simbolismo da Divina Comédia é convencional, lógico e preciso. Mas, os símbolos da escola simbolista são, via de regra, arbitrariamente escolhidos pelo poeta para representar suas ideias; são uma espécie de disfarce de tais ideias. “Os parnasianos, por sua vez” escreveu Mallarmé, “ tomam da coisa como ela é e a colocam diante de nós – por conseguinte, são faltos de mistério: privam a mente do delicioso prazer de acreditar que está criando. Dar nome a um objeto é aniquilar três quartos da fruição do poema, que deriva da satisfação de adivinhar pouco a pouco: sugeri-lo, evocá-lo – isto é que encanta a imaginação.” (WILSON, 1959, p.22)

O termo Simbolismo designa muito mais do que um período Pós-Romântico ou uma poesia que fala em símbolos, este termo próprio é simbólico, é sugestivo, evocativo, imagético e, portanto, cabe perfeitamente ao Movimento.

  1. WILSON, Edmund, O castelo de Axel, 1959, p.21.
  2. BALAKIAN, Anna. O Simbolismo, Editora Perspectiva, São Paulo, 1967, p.12.
  3. WILSON, Edmud, O Castelo de Axel, Editora Cultrix, 1959, São Paulo, p.12.
  4. GOMES, Álvaro Campo, A estética Simbolista, Editora Cultrix, São Paulo, 1984. Apud SWEDENBORG, Emmanuel, Du Ciel ET de l’Enfer, trad. Franc., Paris, E.Jung – Trenttel, 1872, p.64.
  5. BALAKIAN, Anna, O Simbolismo, Editora Perspectiva, São Paulo, 1967, p.15


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Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas..
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