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Sapere Aude

Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas.

Roberto Gomes vida, obra e entrelinhas

Este é um artigo sobre a breve vida do dramaturgo brasileiro Roberto Gomes, um dos maiores expoentes do Teatro Simbolista no Brasil.


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Roberto Luís Eduardo Ribeiro Gomes nasceu no dia 12 de Janeiro de 1822 no Rio de Janeiro. Filho do comendador Luiz Gomes Ribeiro e da francesa dona Blanche Ribeiro Gomes. Teve uma infância rica em cultura erudita e educação formal, uma vez o senhor Luiz Gomes ser um dos diretores do Banco Nacional. Roberto Gomes aos oito anos de idade viaja com a mãe para Paris, onde estrutura toda a sua educação. Em Paris cursou humanidades no Lycée Jaison de Sally dominando a língua francesa. Tem um brilhante desempenho, mesmo que ainda muito jovem, como pianista, participa de saraus artísticos como ator, músico e desenhista. Em 1897 o banco em que seu pai trabalhava chega à falência, e com a perda da fortuna regressam ao Brasil. Roberto Gomes inicia em 1902 o curso da Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, bacharelando-se com distinção. Após a morte de seu pai em 1905 começou a lecionar francês. Pela sua erudição e os seus largos estudos na música foi indicado para crítico da Gazeta de Notícias, no qual os seus artigos se revestiam de uma autoridade respeitada. Assinava seus primeiros artigos deste jornal com o pseudônimo Bemol. Também era crítico musical e teatral do Jornal A Notícia no qual assinava com o pseudônimo Sem. Somente depois de 1911 é que passou a assinar as críticas com o próprio nome. Conquistou através de um concurso a cátedra de professor de francês do Instituto Benjamim Constant, onde lecionou por sete anos. Funcionário do ensino Municipal, ocupou o cargo de inspetor escolar, que, à época, fora ocupado por grandes nomes da literatura como Medeiros e Albuquerque e Olavo Bilac. Juntamente com Olavo Bilac e Guimarães Passos produziu o Guide dês étas Unis du Brésil, um guia turístico da cidade do Rio de Janeiro: sua colaboração neste projeto foi vertê-lo para o francês. Advogado, professor, jornalista, crítico musical, delicado pianista, inspetor escolar, Roberto Gomes também foi um autor teatral de valor, aclamado pela crítica da época como um dos grandes talentos da dramaturgia brasileira.

11414533_10152775183245927_1839346346_n.jpg Era costume da época os eruditos realizarem conferências e Gomes não foi menos reverenciado neste contexto. Falou sobre Emilio Zola (1902), sobre Grieg, Liszt (1911), sobre os cães, seus amados e fieis amigos (1907), sobre Maeterlinck (1918) e sobre as artes no Brasil (1912). Era um estudioso exemplar e estava sempre atento ao mundo das artes. Em 1920 Roberto Gomes ficou doente e se aposentou como inspetor escolar. Dois anos mais tarde, em 1922, no dia 31 de Dezembro, na Rua D. Carlota, em Botafogo no Rio de Janeiro, tira a própria vida aos 40 anos de idade com um tiro no peito. Em se tratando da sua personalidade, era comumente destacado como um homem de sensibilidade exacerbada, noturno, enfermo, inteligente, culto, mas ao mesmo tempo doce e meigo. “Roberto Gomes foi uma figura doce e meiga, um torturado moral que inventava complicações sentimentais para sofrer. Quem lidou de perto com ele, guardar-lhe-á a memória como a da vítima de uma educação excessivamente carinhosa.” (MEDEIROS E ALBUQUERQUE, SBAT, 1923.). “(...) pessoa de extremada sensibilidade e, por isso, melindrava-se facilmente. Possuía um comportamento arredio e desconfiado que se foi acentuado com o tempo. (...) Fisicamente miúdo e frágil, Roberto Gomes teve intensa vida noturna e um excessivo ritmo de trabalho (...) o descompasso de uma concepção nevrótica do mundo com a realidade progressista da época delineiam lhe a imagem de um ser terrivelmente confrontado e dilacerado (...) era um escritor marginalizado, “noturno”, vivendo num mundo próprio de sonhos e recusa, num casulo ideal e sombrio, repleto de objetos de arte, de cães de estimação, de música e de teatro (...)” (COSTA, 1983, pags. 20 e 21 )

Gomes nos deixou nove peças teatrais, Ao declinar do dia (1909), O canto sem palavras (1912), A bela tarde (1915), Inocência (1915), O sonho de uma noite de luar (1916), O jardim silencioso (1918), Berenice (1917-8) e A Casa Fechada (1919). Há ainda a peça Beijo ao luar (1913) que se encontra desaparecida e não se tem notícias de sua encenação. Sabe-se somente, pela revista Careta, que no mês de Maio de 1913 foi realizada uma leitura pública desta peça, que seria um drama em quatro atos. Há pouquíssimos estudos sobre a obra de Roberto Gomes. A única pesquisa de maior fôlego dedicada ao autor é a dissertação de mestrado da Marta Morais da Costa, concluída há 35 anos pela Universidade de São Paulo. Marta faz um levantamento de críticas publicadas na época sobre as encenações. Esse importante trabalho permitiu tornar acessível os textos do autor, já que a dissertação foi publicada quase inteiramente, em 1983, no livro: Teatro de Roberto Gomes, que inclui as oito peças do autor, deixando de fora a comédia escrita na adolescência Le papillon (1898).

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Gomes vive os ideais decadentes, e em seus dias traz as características que se destacam em suas peças. Um homem noturno, de saúde frágil, solitário e de poucas palavras. Era leitor e admirador de Maurice Maeterlinck e Henry Bataille, e em sua obra destaca-se o teatro da paixão, os sentimentos de dor e solidão e o amor impossível e avassalador a que o belga, marco do simbolista teatral, tem como ponto de destaque em sua obra. (COSTA, 1983, p.22) As personagens sofrem por um amor não correspondido e acabam por ceder à morte, ou mesmo fugir das desventuras a encarar o futuro solitário. Os espaços de suas peças são quase sempre crepusculares, e mostram a realidade da vida burguesa: a sala da casa de família, o jardim no final da tarde, o quarto escuro. “Mesmo que só haja no mundo um modo de sofrer, há, em todo caso, inúmeros modos de expressar o sofrimento” (Roberto Gomes, In. Jornal do Comércio, 1912).

Essas referências podem ser observadas em várias características de sua obra. Os sentimentos que mais aparecem nas obras de Gomes são os de dor, da solidão e principalmente do amor impossível. Através deles, segundo a corrente de pensamento do teatro da paixão, podia-se melhor compreender o ser humano. (COSTA, 1983, p.22) De Maeterlinck encontramos na obra de Gomes o tema principal do amor avassalador, o amor impossível, que encontrava na morte a única solução para sua angústia. As peças de Maeterlinck têm várias características inovadoras - ao estilo dos textos que iniciam o processo de modernidade no drama –, tais como a valorização do gesto, do soluço, do gemido, do silêncio ao invés da palavra propriamente dita, que explique a situação. Como grande admirador e estudioso do belga é nítida esta influência no teatro de Gomes. Segundo a pesquisadora Lara Moler, Maeterlinck manifesta seu desejo por resgatar o teatro das convenções, colocando-o de volta ao seu pedestal “no templo supremo e sublime do sonho” (MOLER, 2006, p.13). Segundo Marta Costa (1978) as peças de Gomes que revelam maior proximidade com Maeterlinck são: Ao declinar do dia, Sonho de uma noite de luar, Jardim silencioso, Berenice e A casa fechada..

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Roberto Gomes viveu em uma época de transição, próxima à passagem do século, marcada no Brasil por discussões sociais e culturais, que tinham como modelo os movimentos europeus . Para que se possa compreender melhor a obra deste autor faz-se necessário debruçar-se sobre a relação cultural existente entre Brasil e Europa. Gomes tinha grande admiração pela cultura e literatura francesas, uma vez que viveu durante os anos de sua formação naquele país. Assim, em suas obras percebe-se uma proximidade ao teatro francês, bem como ao teatro belga. Como ele, grande parte dos escritores brasileiros desta época cultivava admiração à cultura europeia, no entanto também havia entre eles aqueles que defendiam um ideário nacionalista de busca pela arte nacional, e caminhavam em direção ao modernismo. Gomes, apesar da clara referência a modelos de literatura europeus em sua obra, ao mesmo tempo era fiel ao nacionalismo, o que originou uma dramaturgia bastante próxima dos costumes brasileiros.

O teatro do começo do século no Brasil misturava espetáculos direcionados a um público popular, como as comédias e revistas, com encenações de companhias estrangeiras que apresentavam dramas, melodramas, tragédias e óperas, entre outros. Estes espetáculos eram, em geral, voltados para uma elite intelectual e econômica. A época foi chamada de belle époque e existia no Rio de Janeiro um público refinado e poliglota que apreciava o teatro europeu. Neste contexto, Gomes, sendo um escritor de um teatro “sério” (COSTA, 1983, p.16) nacional, dificilmente conseguiria sucesso perante um público burguês que privilegiava o teatro estrangeiro. Suas peças, ao que se sabe, também não receberam encenações que pudessem colocar nos palcos de maneira criativa sua temática e sua forma, que fugiam à estrutura corrente, não tendo a encenação moderna chegado ainda ao Brasil.

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Havia no Brasil autores que se dedicavam a um teatro que poderia se reconhecer como nacionalista, já que tinham como foco os costumes da época. Goulart de Andrade (1881-1936), Coelho Neto (1864-1934), Cláudio de Souza (1876-1954), João do Rio (1881-1921), Viriato Correia (1884-1967), Oduvaldo Viana (1892-1972), entre outros eram autores que tinham como marca o flagrante social, retratavam mais a moral que a psicologia, o comportamento em grupo ao invés do individual (OLIVEIRA, 1999, p. 31). Embora Gomes tenha se dedicado a outras atividades durante sua curta vida, foi, sobretudo, por suas peças que seu nome ganhou destaque. Ele é um autor de uma singularidade fascinante diante do panorama teatral brasileiro da época. Suas peças carregam um ar decadentista sobre o mundo, sobre a vida dos homens, sobre as relações afetivas e sobre a solidão. Ao mesmo tempo em que se encontram nas peças ápices melodramáticos, Gomes também trabalha com leveza nas personagens e suas situações.

Poucos estudos versam sobre as peças de Gomes, raramente encenadas (com exceção de A casa fechada). Trata-se, no entanto, de um teatro que dialoga com algumas vertentes importantes do teatro moderno ocidental e, ao mesmo tempo, traz para a cena episódios tipicamente brasileiros. As peças deste dramaturgo retratam quase que cruamente os sentimentos e aflições das personagens, em meio à realidade do Rio de Janeiro da época. A partir da análise de suas peças, pode-se traçar um panorama de uma sociedade em transformação, em busca de afirmar sua nacionalidade. Além da dissertação mestrado de Marta Morais da Costa há dois artigos importantes que têm como tema central a obra de Gomes: “A dramaturgia de Roberto Gomes, da Casa fechada à abertura modernista”, também da pesquisadora Costa, publicado na Revista Letras de Curitiba em 2003. E o artigo “Formas crepusculares, dores silenciosas: o teatro simbolista de Roberto Gomes” da pesquisadora Elen de Medeiros, publicado na Revista Pitágoras 500 da Universidade Estadual de Campinas, em outubro de 2011. Há também um pequeno artigo de Cláudia de Arruda Campos “O simbolismo do teatro brasileiro: deixando a sombra”, publicado na revista USP em 1994, que fala de Gomes, mas não se aprofunda, somente faz um resumo do contexto deste autor mediante a o livro de Eudinyr Fraga, Simbolismo no teatro brasileiro. Este livro, por sua vez, analisa a obra de doze autores brasileiros que têm traços da estética simbolistas: Coelho Neto, Goulart de Andrade, João do Rio, Graça Aranha, Oswald de Andrade, Oscar Lopes, Carlos Dias Fernandes, Emiliano Perneta, Durval de Moraes, Marcelo Gama, Paulo Gonçalves e Roberto Gomes. Além da análise sobre os autores, o livro apresenta dois capítulos teóricos: “Simbolismo” e “Teatro Simbolista”, que traçam um percurso desta corrente estética desde Baudelaire e Maeterlinck até suas influências no teatro brasileiro, e também analisa as razões históricas do surgimento deste movimento no Brasil neo-republicano.

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Entre os livros que levantaram apontamentos específicos, porém breves, sobre Roberto Gomes, encontrei no Panorama do teatro brasileiro de Sábato Magaldi, 1962, um capítulo intitulado “Sensibilidades Crepusculares”, em que ele dedica a atenção aos movimentos decadentistas no teatro brasileiro. Neste capítulo, Magaldi comenta o teatro de Goulart de Andrade, Oscar Lopes, João do Rio, Paulo Gonçalves e Roberto Gomes. Faz um resumo explicativo e crítico sobre as peças A casa fechada, Sonho de uma noite de luar, Berenice e O canto sem palavras. No livro organizado por João Roberto Faria, planejado e editado por J. Guinsburg, História do teatro brasileiro das origens ao teatro profissional da primeira metade do século XX, há um capítulo que versa sobre o teatro pré-moderno, no qual Marta Morais da Costa contribuiu com um estudo sobre a estética simbolista no Brasil, e, juntamente com os nomes dos autores teatrais citados acima, está Roberto Gomes. Assim como os outros estudos encontrados sobre o autor, com exceção da dissertação de mestrado, o capítulo apresenta um breve resumo sobre as peças que não foge ao que já foi escrito nos artigos de 1983 e 2003, de Costa, e no capítulo de Magaldi, de 1962.

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Pode-se concluir que não há quase estudos que tenham se aprofundado no teatro deste autor, ou nas encenações do período, sendo que a fortuna crítica existente apresenta apontamentos semelhantes. Como mais um exemplo, cito o livro Aspectos do teatro brasileiro de Paulo Roberto Correia de Oliveira, de 1999, que dedica um capítulo a Roberto Gomes, mas que não acrescenta nada a mais que as ideias de Magaldi incluídas no Panorama do teatro brasileiro. No livro Dicionário do teatro brasileiro; temas, formas e conceitos, 2006, Gomes é citado em pelo menos sete pontos diferentes (bifes, peça bem-feita, poesia, prosa poética, quiproquó, repertório e simbolismo), na maioria deles fazendo referência à peça Berenice. Também no livro de Mario Nunes, 40 anos de teatro, o nome do dramaturgo é citado inúmeras vezes, uma vez que o volume 1 do livro é voltado especificamente à análise do período de 1913 a 1920, praticamente os anos de vida produtiva de Gomes. Ambos são livros de consulta e não fazem muitas críticas ao autor, apenas marcam seus pontos estéticos e históricos.

Gomes teve contato com uma dramaturgia inovadora quando morou na Europa, que repercutiu na sua obra. Destaca-se, nesse sentido, no teatro brasileiro de sua época, que consistia principalmente na produção de comédias de costumes ou do teatro musicado, ao propor um teatro calcado na psicologia das personagens e não em ações. Além disso, ao que parece, não havia, à época, no Brasil, artistas preparados para encenar uma peça que fugisse aos padrões realistas ou às comédias, o que fazia com que a obra de Gomes perdesse, no palco, todas as nuances de sentimento e simbolismo expressas nos textos. Trata-se de um dramaturgo que já ansiava por uma encenação moderna, mas antes dela existir no Brasil.

BLIOGRAFIA

COSTA, Marta Morais da. “A Dramaturgia de Roberto Gomes, da Casa Fechada à Abertura Modernista”, Revista Letras, Curitiba, n.60, p.259-274, jul./dez.2003. Editora UFPR. _______. Teatro de Roberto Gomes, Ed. Instituto Nacional de Artes Cênicas, São Paulo, 1993. FRAGA, Eudinyr. O simbolismo no teatro brasileiro, Editora Art&Tec, São Paulo, 1992. ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1998.


Bianca Almeida

Bianca Almeida é atriz. Graduada em Filosofia e Mestra em Artes da Cena na Universidade Estadual de Campinas. Amante de animais, livros e pessoas..
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