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Arte, Cultura & Sociedade Atual

João Paulo de Oliveira

Jornalista, escritor e produtor compulsivo de conteúdo
- AmalgamaCultural.net -

Warld Cup - a guerra cotidiana no país do futebol

Um grupo de fotógrafos e ativistas se juntam para realizar um trabalho fotográfico coletivo durante a Copa do Mundo no Brasil. O projeto "Warld Cup" buscou capturar momentos antagônicos à propagada festa social promovida pelo futebol por aqui. Com exposição marcada para o Parque das Ruínas, no Rio, o projeto já recebeu propostas de exibição em várias partes do mundo.


Sebastian Gil Miranda - WarldCup.jpg Foto: Sebastian Gil Miranda

A Copa do Mundo no Brasil foi escolhida em 2007. Há longos sete anos, se alguém perguntasse a maioria das pessoas que não vive por aqui o que sabia ou pensava sobre o país, na certa, uma boa porcentagem iria dizer que aqui seria o país do futebol e com o povo pacífico, sem se alterar mesmo diante injustiças e prerrogativas antidemocráticas. Entretanto, a primeira verdade foi sepultada em campo e a segunda, um ano antes, nas manifestações de 2013. Assistir ao documentário Domínio Público é ter certeza de que não somos tão ingênuos e domados pela bola e pela novela como tantos achavam. Assista aqui. Para o organizador do projeto fotográfico “Warld Cup”, Sebastian Gil Miranda, uma das diferenças fundamentais para as mobilizações daqui e das que viveu na Argentina é, justamente, a noção de coletividade que o brasileiro apresentou nessa situação. Para o artista argentino que nasceu na França, há na bacia do Prata uma sensação ao mesmo tempo ideológica e egoísta no “ir à rua”. Para Gil Miranda, “aqui, as pessoas se manifestam em apoio às condições dos outros, ao bem-estar coletivo e não apenas pensando em si ou por determinação partidária”. Miranda diz ter percebido esse tipo de “luta” antes mesmo das manifestações de 2013, já nas duas edições em que esteve presente do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (2001 e 2002).

Tárcio Teixeira - WarldCup.jpg Foto: Tárcio Teixeira

Com o espírito envolvido com as questões sociais despertadas pela competição na América do Sul e, curioso para entender como seria a Copa do Mundo, mas sob outra ótica, longe da badalação da Zona Sul carioca ou mesmo, nos estádio, Miranda veio ao Mundial para fotografar o brasileiro e o Brasil que talvez não estivessem no foco das lentes da imprensa local e internacional. Assim, se propôs a participar de alguns atos e a assistir aos jogos em bairros mais pobres e favelas do Rio e de São Paulo. Não por acaso, acabou conhecendo e se encontrando com outros fotógrafos e pessoas que também participaram do momento de efervescência urbana e política do ano passado. Com isso, preparou rapidamente uma proposta de ação coletiva e com a temática fechada em torno da etnografia do futebol, de sua relação com a vida social e àquilo que os olhos geralmente não são levados, pediu aos participantes que enviassem fotos de momentos especiais no tal país pacífico do futebol. Com alguns contatos, conseguiu o apoio de outros profissionais que estavam no país e assim, criou uma rede (ainda aberta) que hoje conta com vários brasileiros, mas também, franceses, holandeses, italianos, estadunidenses, mexicanos e belgas.

Steef Fleur - WarldCup.jpg Foto: Steef Flour

Daniel Marenco - WarldCup.jpg Foto: Daniel Marenco

Tão logo o site recebeu suas primeiras fotos, uma nova ação foi programada: a exposição de algumas das fotos no dia da final. Entretanto, se a ideia inicial foi estar onde a bola não via, agora, a proposta era fazer essa exposição bem perto do principal acontecimento do campeonato. Assim, no domingo, 13 de julho, alguns colaboradores se dirigiram para a praça Sans Peña, na Tijuca, bem próximo ao mítico Maracanã, palco da peleja entre Alemanha e Argentina. Logo pela manhã, armaram todas as 50 fotos em torno de um respirador do metrô, na praça. Gil Miranda lembra que o que mais o impressionou naquele momento era a quantidade desproporcional de policiais e manifestantes – “havia uma manifestação marcada para a praça, porém, quando chegamos, ela estava muito vazia. Com o passar do tempo, algumas pessoas foram chegando, porém a proporção era de cerca de um manifestante para 15, 20 policiais”. Segundo o proponente da Warld Cup, não só os civis, mas também, membros da própria polícia também se interessaram com as fotos exibidas. Um deles, inclusive, pediu até para ficar com uma das imagens que retratava, segundo o mesmo, o capitão de sua tropa. Claro que o pedido foi negado e mais tarde soube-se que seria esse o mesmo policial a roubar a câmera de um jornalista canadense. Coincidência, assim como, a ação brutal que ocorreria poucos minutos depois da retirada das imagens da exposição que, justamente, se fazia em boa parte, pelas lamentáveis imagens da repressão sofrida pelos ativistas e manifestantes antes e durante a Copa. É possível pensar que o interesse de um policial pelas fotos é o oposto da proposta de denúncia social: se por um lado uma imagem do choque transmite ao cidadão uma repugnância e uma memória de um tempo repressivo e autoritário. Já para o militar, pelo contrário, é o símbolo de sua força, de uma admiração sensorial e simbólica pelo poder coercitivo e de si.

Alessandro Falco - WarldCup.jpg Foto: Alessandro Falco

Passado o Mundial, “Warld Cup” começa a circular com suas fotos. No último sábado, 19 de julho, esteve no MAR – Museu de Arte do Rio, durante a apresentação do documentário Domínio Público que denuncia a política de remoção e autoritária do Estado do Rio de Janeiro. E, agora, a partir dessa quarta, 23, até o dia 10 de agosto será exibida no Parque das Ruínas em Santa Teresa, também no Rio. As imagens beiram o artístico e o etnográfico, mas falam, sobretudo, de um país em que a bola rola, a polícia bate e a esperança se faz na inocência de tantos que ali são retratados e, também, naqueles que se puseram na linha de frente para retratar.

Coletivo Tem Morador - WarldCup.jpg Foto: Coletivo Tem Morador

Serviço: - Exposição Warld Cup – Parque das Ruínas | de 23 de julho a 10 de agosto - Site Warld Cup - Fotos exposição Sans Peña - Fotos exposição MAR


João Paulo de Oliveira

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