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Arte, Cultura & Sociedade Atual

João Paulo de Oliveira

Jornalista, escritor e produtor compulsivo de conteúdo
- AmalgamaCultural.net -

Copacabana Mon Amour - Rogério Sganzerla (1970)

A produção nacional de cinema no final dos anos 60 e início dos 70 foi abalada pelo endurecimento do regime ditatorial em 1968, com o A.I. 5. Entretanto, tendo como característica um caráter simbólico e subjetivo, poucos diretores como Rogério Sganzerla conseguiram retratar a aflição, a fragmentação e o derretimento moral de uma sociedade que se encontra perdida entre a ordem e o progresso.


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Poucos filmes conseguiram retratar o Brasil do início da década de 1970 como Copacabana Mon Amour. Sganzerla revela a desnaturalidade da vida brasileira em uma "ex-capital que derrete em seus valores", como diria a narração da película. O enredo trata de temas que ainda hoje são alvo de indagações e preconceitos: homossexualidade, rituais afro-brasileiros, relações sociais conflitantes entre o morro e o asfalto. Além disso, de forma simples e teatral toca na questão dos que traem a resistência, que participam da balbúrdia, mas que em determinados momentos, se tornam conservadores e aliados ao regime.

As personagens parecem viver em dois mundos simultâneos, seja o interno e externo, seja o material e o misterioso. Através deles, fala-se as indagações de um tempo. Questões ao mesmo tempo pertinentes aos indivíduos e também ao coletivo, à sociedade como um todo.

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Como muitos dos filmes nacionais, Copacabana... tem um roteiro que necessita de certa leitura dos signos e símbolos que entrecruzam as cenas, as falas e as ações das personagens. Ele tem início com Sonia Silk, favelada, prostituta do asfalto, amargurada com a pobreza e candidata ao espetáculo - ele sonha em ser cantora na Rádio Nacional. Ela viva no Dona Marta com a mãe e o irmão, feiticeiro e ao mesmo tempo, alegoricamente, o fantasma de uma época. No filme, há cenas geniais em que o irmão segue Sonia sob um lençol branco, por várias ruas e bairros do Rio. Ambos se envolvem com Sr. Grilo, patrão do irmão e amante de Sonia. Embora haja um ar altamente sexualizado, a fantasia e o simbolismo trazem do oculto a angústia do diretor em relação à vida cotidiana em um país assolado por um regime ditatorial, regulador do modo de vida e de pensamento.

Em 2013, várias cópias e outras mídias com o filme foram reunidas para o restauro da obra. Em agosto do ano passado, já restaurado, foi exibido na seção Histoire(s) du cinéma, no 67o. Festival de Locarno. Clique nos links e confira o novo site oficial de Copacabana Mon Amour e o processo de restauro da película.

A trilha sonora foi composta por Gilberto Gil em parceria com o diretor Rogério Sganzerla. Além das canções de Gil, o filme ainda retrata várias cenas sob os auspícios de Noel Rosa. Clique na imagem para ouvir as música de Gil para "Copacabana Mon Amour":

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Leia artigo na revista Contraponto

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João Paulo de Oliveira

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