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Arte, Cultura & Sociedade Atual

João Paulo de Oliveira

Jornalista, escritor e produtor compulsivo de conteúdo
- AmalgamaCultural.net -

Crime e Castigo - Universal

Alguns romances do século XIX se tornaram base para a literatura psicológica, sociológica e filosófica da modernidade. Crime e Castigo, obra fundamental do russo Fiodor Dostoiévski, narra os episódios da vida de um estudante de direito em meio aos desejos pela mudança social e o vigor do pensamento livre. Em meio ao turbilhão de sentimentos e pensamentos, o jovem Raskólhnikov decide cometer um assassinato, mas é surpreendido pela vida e se vê refém de um segundo crime.


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"A diferença está só em que eu nem de longe afirmava que os homens extraordinários estejam obrigados ou tenham infalivelmente de cometer sempre todo gênero de atos desonestos, segundo o senhor diz. Parece-me até que a censura não o teria deixado passar. Eu me limitava simplesmente a insinuar que os indivíduos extraordinários tinham direito (claro que não um direito oficial) a autorizar a sua consciência a saltar por cima de certos obstáculos, e unicamente nos casos em que a execução do seu desígnio (às vezes salvador, talvez, para a humanidade) assim o exigisse. O senhor entendeu por bem dizer-me que o meu artigo não estava claro; eu estou disposto a explicar-lhe até onde puder. " Raskólhnikov, personagem de Fiodor Dostoiévski, em Crime e Castigo.

Leia o romance na íntegra em russo ou/e em português

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A sensação de superioridade e a culpa não são exclusividades de nenhum povo ou cultura em nossa civilização. Raskólhnikov é um estudante de direito que parte de sua cidade natal para São Petersburgo. Lá, vive problemas econômicos e de consciência. Em sua afirmação para a vida, acredita que é possível dividir as pessoas entre as "ordinárias" e as "extraordinárias". Obviamente, se coloca no segundo dos quesitos. Assim, crê que qualquer que seja sua ação, mesmo um crime, ainda assim, sua consciência e a própria divindade lhe absolveriam, dadas as qualidades e as intenções morais indiscutíveis que possui. Quer o melhor para as pessoas, que cesse o sofrimento, um apóstolo silencioso, das esquinas da cidade que deseja o mais justo para todos.

Em um momento de desespero material e mental, decide livrar o mundo de uma asquerosa agiota.  Talvez estivesse preparado para cometer um crime justificado pela pobreza espiritual de sua vítima. Entretanto, não esperava que outra personagem aparecesse na cena. Dessa forma, acaba por matar um "inocente" - após o ato, seus instintos deixam o extra e se sentem ordinário - não quer que a legalidade oficial o puna - por mais que viva preso em um cubículo não quer se ver no ridículo da covardia. Assim, impute sobre si um panteão de fantasmas, medos e paranoias. A culpa o consome e mesmo com o crime sendo "solucionado" com a confissão de um outro, a verdade sobre si, sobre suas próprias limitações e incoerências o leva a se colocar entre a confissão e a insanidade.

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Crime e Castigo é um livro de psicologia denso, formador e articular de parte do pensamento ocidental do século XIX e XX. Influenciou espíritos como Nietzsche, Sartre, Freud, Orwell, Huxley e Keruac. Raskólhnikov nos aponta a diferença entre a segurança subjetiva e especulativa e a realidade e imprevisibilidade da vida, da vida dos outros e da sociedade. O medo de se revelar lhe traz a angústia dos dias. Sua alma sabe o que todos desconhecem. O romance é também uma discussão sobre os valores sociais e apresenta a maneira como as castas se relacionam, em uma imposição econômica e tradicional; as relações entre funcionários públicos, proprietários e inquilinos. O livro lançado em 1866 é um dos mais reimpressos da história e recebeu versões nas mais diferentes línguas.

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João Paulo de Oliveira

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