amálgama cultural

Arte, Cultura & Sociedade Atual

João Paulo de Oliveira

Jornalista, escritor e produtor compulsivo de conteúdo
- AmalgamaCultural.net -

Como planejar a comunicação de um projeto musical

A música deixou de ser um campo exclusivo para gravadoras e hoje, com as ferramentas digitais e um bom planejamento de comunicação é possível ter seu projeto executado e sua arte escutada pelas pessoas.


Se você fechar os olhos e tentar parar de ouvir, com certeza não obterá êxito. O universo pulsa e ele produz algo constantemente: som. Até o século XIX, uma coisa era música e outra, barulho. O desenvolvimento intelectual e comunicativo dos cem anos seguintes nos deixou de legado a confusão entre qualidade e gosto musical. Ou seja, há uma dificuldade em entender se uma banda, um projeto ou um artista solo faz música, publicidade ou arte. Não dá para se ter uma opinião unânime sobre o que é ou não é válido no mundo da música. Muito não passa de achismo e gosto pessoal. Até porque parte vai achar que o que vale é fazer música e outros acharão que o importante é ter quem goste (e compre). De qualquer forma, a comunicação é o X dessa equação. Ela não é mais generalizada, ela é de nicho, feita para o fã do estilo, da banda, do movimento cultural ou social que está contido junto à música, propriamente. Um trabalho com música é dependente de como e para quem ele é comunicado. A maneira da banda interagir e a forma como o público responde a isso podem garantir bons comentários, aparições nas mídias tradicionais e atuais (timeline, blogs, feeds). O boca-a-boca (mouse-a-mouse) entre amigos estimula a audição e sucessivamente, a ida a um show ou o play nas ferramentas online.

Antes da internet, a indústria fonográfica bancava a gravação e a exposição das bandas nas rádios e TVs. O jornalismo oficial e as edições independentes como zines também davam uma força na divulgação. A imprensa escrita era talvez um campo mais democrático e alternativo, mas também tinha seus jabaculês com as produtoras e assessorias de artistas e gravadoras de peso. Apesar dos verbos estarem no passado essa é uma realidade que ainda continua existindo. O que mudou na verdade é a força e a importância artística dadas ao que se escuta na caixinha e ao que se vê na telinha. Infelizmente, temos estações de rádio e canais de TV que se fixaram em um tipo de música efêmera e que não dura. Como trabalham sempre com a novidade, pois o “novo” aparentemente vende mais, raramente há qualidade e diversidade nas obras que se tornam obsoletas de três em três meses, assim como os músicos por trás delas. Já no campo da imprensa, poucos jornais sobrevivem. E, na contramão, a cada segundo uma nova opinião, vídeo, álbum é postado nas redes sociais, no YouTube, no SoundCloud, Hotspot etc. E mais do que isso, mudou também o contato com os meios de comunicação e com o próprio público. A divulgação dos trabalhos não é mais restrita a aqueles que tinham relações com jornalistas e produtores dessas mídias. Hoje, além da facilidade de se enviar um release para esses canais, a própria realidade do público e da música transformaram radicalmente o mercado fonográfico e mesmo, a experiência da música. As bandas, os espaços, jornalistas e fãs têm seus próprios canais e assim, não dependem exclusivamente de meios de comunicação tradicionais para que o público tenha contato com o que é produzido.

Para se iniciar qualquer projeto musical é preciso ter noção de que ele vem de algum lugar. É importante inclusive, passar adiante essas referências. Referenciar o professor, as bandas e artistas influentes, os eventos que participou como público, as tardes ouvindo e fazendo som na sua ou na casa de amigos. Elas não estão apenas na música, mas também na literatura, no cinema, nas vivências que cada um tem. É importante haver o reconhecimento disso. E geralmente, está no nome da banda, nas letras das músicas, na maneira de vestir, de interagir nos shows e agora, de se comunicar nas redes sociais. Em um release – texto de apresentação do projeto ou de participações em eventos que é enviado à imprensa, a outros canais de comunicação como blogs e até ao público, por exemplo, ou em postagens no Twitter ou Facebook, as referências musicais, artísticas, políticas e culturais irão dar o tom do trabalho e sucessivamente, do som e apontarão de onde o estilo pode ter vindo ou para quais objetivos e com quais públicos está falando.

Portanto, o primeiro passo é entender o que é que está sendo proposto e escrever sobre isso. A partir desse entendimento do que é a coisa, da escolha do repertório, dos ensaios, do nome e da escrita de um release já dá para entender a identidade do projeto, da banda, do músico. É importante compreender que não só um texto de apresentação deve ser produzido, mas o constante envio de releases para a imprensa sobre toda e qualquer participação em eventos, conquistas e novidades é mais do que sadia, é necessária. Mesmo que a informação ocupe um “tijolinho” no caderno de cultura indicando apenas o básico do que serviço já é suficiente para que as pessoas possam se informar: a banda tal se apresenta em tal lugar a partir de tal hora e com o custo x. Assim, além do palco, a comunicação constrói a identidade de qualquer grupo e ainda mais, servirá como currículo e portfólio no futuro.

Agora, é saber quem pode fazer o quê. Se na banda tiver membro formado em comunicação ou produção cultural, talvez fique mais fácil o entendimento da vida fora do aquário do estúdio. Pode haver entre os membros aqueles que têm mais facilidade em se comunicar ou mesmo, com ferramentas de design. Entretanto, caso não haja esse talento é de suma importância que se conte com quem o tenha. Essa pessoa pode tanto fazer a vez de assessor de comunicação como de produtor, eventualmente. Produz e se comunica em nome da banda, por exemplo. Portanto, é imprescindível que haja quem pense e execute coisas como escrever textos, projetos, criação de logo, peças gráficas, escolha de conteúdo a ser “postado” em um site ou perfil de redes sociais, além de envio e resposta a mensagens de e-mail, acerto em participações, negociação de cachês, entrevistas etc. Seria bom que a pessoa também tenha a alma do projeto, que seja, sobretudo um entusiasta da banda, do músico, da dupla.

Conteúdo, produto e ferramentas

A construção da imagem de uma banda, atualmente, se forma pelas apresentações, participações em eventos e na internet, principalmente, com o lançamento de vídeos com faixas e álbuns digitais. Além disso, hoje, já é possível transmitir ensaios no Twitcam, postar links de referências no Facebook, enviar uma foto ou vídeo da banda para as pessoas pelo Watsapp. E se tiver tido uma sacada, dá até para usar os 15 segundos de vídeo para o Instagram para se fazer visto em sua rede. Pode se promover uma conversa por hangout, confeccionar camisas, fazer adesivos, vender canecas e uma infinidade de brindes que podem estar associados à banda ou ao seu estilo, às campanhas que participa. Ou seja, existem várias ferramentas que aumentam a relação do público com o projeto musical. Antes de tudo é importante saber que raras bandas e projetos estão sob a tutela de uma gravadora que já vêm com esse pacote. Por isso, é necessário ter uma boa rede. Dela faz parte amigos, jornalistas, designers, fotógrafos, produtores, funcionários ou sócios de estúdios, de eventos, casas ou bares. São eles que irão iniciar as primeiras curtidas e compartilhadas e depois impulsionar ao lado do público e de admiradores conquistados ao longo do tempo.

Além dos eventos e da comunicação, é importante estar ligado em editais de participação ou criação cultural que aumentam a circulação e dão a chance de se produzir álbuns e participar de festivais conceituados. Ou seja, aumentam a presença e geram mais conteúdos ao mesmo tempo. Nas apresentações ao vivo, é sempre importante ter uma banca com os CDs e outros produtos da banda. No palco, se possível, indicar os canais principais ao público para que postem suas fotos e marquem o local e quem está ali se apresentando; que passem a seguir o trabalho e o cotidiano do projeto musical.

Ou seja, é fundamental estar nas redes sociais, ter/ser um bom fotógrafo e se possível, ser também videomaker para acompanhar os passos do trabalho e inclusive, os bastidores. Assim, com o tempo de confiança do público e um bom material de divulgação, é possível ainda se utilizar de mais uma ferramenta contemporânea e que pode facilitar distribuição, gravação e circulação do projeto: o crowndfundig, processo de fomento coletivo e livre à contribuição do público a projetos culturais.


João Paulo de Oliveira

Jornalista, escritor e produtor compulsivo de conteúdo - AmalgamaCultural.net -.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// //João Paulo de Oliveira