amálgama improvisada

Aqui tem um pouco de tudo, mas não o tempo todo.

Bruno Leandro

Num certo natal, sua mãe lhe levou a uma loja de brinquedos e pediu que escolhesse o que quisesse. Depois de muito procurar, trocou um mini-game por um livro do Harry Potter! Acho que isso já define bastante coisa

As muitas caras e sons sul fluminenses

A região sul fluminense é um grande celeiro para a música popular brasileira, é também lugar de grande pluralidade fonográfica e mesmo assim muitos artistas promissores permanecem desconhecidos até mesmo pelo público da própria cidade. Afim de mudar esta situação surgiu o excelente e abrangente Polifonia.


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O Brasil, com seus pouco mais de 202 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE, é um dos países mais privilegiados do mundo, não somente pela sua fauna e flora abundantes, mas também pela sua gente. O brasileiro no geral é um povo talentosíssimo, que comumente se destaca em tudo o que faz; é um povo sonhador, apesar de tudo. Eis que então, caro leitor, indago-lhe com uma questão primordial: Talento é o suficiente para se alcançar o sucesso?

Quase ouço daqui, enquanto redijo este texto, vosso brado coerente em uníssono veemente: "NÃOOO!". Sim. É óbvio que não. São necessários muitos outros fatores, e dentre eles se destaca a autopromoção. Em alguns casos a autopromoção acaba sendo até mais fundamental que o próprio talento. E o resultado disso são pessoas muito talentosas sendo relegadas e abandonadas eternamente no abismo do esquecimento, enquanto outras nem tão talentosas assim (leia-se a grande pensadora Valesca Popozuda) sendo projetadas rapidamente ao estrelato. E como ficam todas aquelas pessoas dotadas de habilidades artísticas? Não ficam. A maioria passa a vida atrás da Grande Chance, da oportunidade de talvez aparecer naquele famoso programa de auditório de domingo e talvez ficar famoso. Muitos não conseguem, e passam a vida no anonimato. Sorte da população sul fluminense que conta o com o Polifonia para lhes ajudarem neste quesito.

POLI... O QUÊ?

Polifonia. E bom, para explicar o que é este projeto, vou dividi-lo em partes. Para começar o Polifonia.art.br é, essencialmente, um catálogo musical online, 100% brasileiro e 100% original. Seu objetivo é contribuir com a valorização e difusão da produção musical sul fluminense; é servir de palco, de vitrine para os artistas musicais oriundos desta região do Rio. O projeto surgiu quando a idealizadora, Ana Paula Antunes, percebeu esta necessidade na região que conta com cerca de 1.000.000 habitantes (IBGE, 2010). O Polifonia funciona assim: O artista realiza um cadastro através do site e a partir daí, o material que deverá estar hospedado no SoundCloud passará por uma avaliação de qualidade, podendo ou não ser publicado no catálogo.

O integrante da banda ou o produtor deve atender alguns requisitos se quiser realizar o cadastro:

1. Ter um trabalho autoral;

2. Ter pelo menos um integrante residindo em um município da região Sul Fluminense;

3. Ter os arquivos de áudio hospedados na plataforma: www.soundcloud.com;

4. Preencher corretamente o formulário de cadastro.

POLIFONIA LAB

IFRJ2-37-1024x682.jpg Fonte: Polifonia.art.br

Logo o projeto se estendeu e nasceu assim o Polifonia Lab. O Laboratório de Produção Independente (Polifonia Lab) é um espaço de promoção de intercâmbio entre músicos e todos os profissionais das áreas com quem se relacionam, culminando assim num trabalho completo de produção musical – passando pela produção audiovisual, divulgação e distribuição dos trabalhos autorais dos artistas. Como um desdobramento do projeto, aconteceu a parceria com o IFRJ (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), onde alunos do curso de Automação Industrial sob a supervisão do professor de artes, Ayrton Júnior, começaram a transmitir o acervo do Polifonia na web rádio do instituto. Além disso, uma banda também visita a rádio uma vez por mês e conversa com os alunos sobre música e produção independente.

SELO INDEPENDENTE

capa1.jpg Fonte: Polifonia.art.br - Capa do Coletânea Polifonia Vol. 1

E por último, mas não menos importante, há o Selo Independente, que é o primeiro selo musical do Polifonia. Este selo, se propõe a difundir em meio físico e digital as músicas dos diferentes gêneros que compõe o catálogo. A Coletânea Polifonia Vol. 1 é o primeiro lançamento sob este selo. Foram 20 grupos selecionados e avaliados de acordo com os critérios de qualidade estética, criatividade, potencial para circulação e trajetória.

Tive a oportunidade de conversar com Ana Paula, a idealizadora do projeto, que contou um pouco do processo e dificuldades pelo qual passou na concepção deste projeto. Veja a entrevista abaixo:

Sei que a ideia do projeto surgiu da necessidade de valorizar artistas locais, que em outras circunstâncias não teriam esta mesma exposição que possuem se vinculados ao Polifonia. Mas o que te levou a querer desenvolver um projeto de tal dimensão?

Trabalhei por 11 anos produzindo shows com bandas autorais na região Sul Fluminense. Durante esse tempo acompanhei a dificuldade que os músicos tinham e têm para distribuir sua música. Então iniciei um mapeamento da produção fonográfica regional e disponibilizei em catálogo para acesso online. Posso dizer que cumpri meu primeiro objetivo que era fazer essa produção chegar a mais pessoas através da internet. A missão agora é ampliar a distribuição e criar oportunidades para os músicos a partir de novos desdobramentos.

A ideia do Polifonia Lab estava lá desde o começo ou foi uma necessidade que surgiu depois? E o Selo Musical, quando entrou nessa história?

A ideia do Polifonia Lab surgiu depois. Pensei em realizar laboratórios na base do intercâmbio, da convivência, da troca de conhecimentos por meio de atividades práticas. A ideia é unir músicos e profissionais de outras áreas que também dialogam com a música, para em conjunto, pensar em soluções para a produção independente. Com isso podemos imaginar um milhão de possibilidades! O Polifonia Lab é uma experiência que respeita o ritmo de cada músico, banda ou grupo, e por isso não existe um formato fixo. Em sua dinâmica trabalhamos com a criatividade econômica gerando soluções a partir dos recursos que a gente tem. Utilizamos o princípio do "Do It Yourself" mas conectando profissionais de áreas distintas em rede. O Selo também surgiu depois, quando incluímos no projeto as coletâneas como estratégia de distribuição.

Vocês fecharam em maio uma parceria com o IFRJ num esforço em ampliar o repertório musical do Polifonia, como se deu esse processo? Já conheciam alguém lá de dentro? Quem procurou quem?

A parceria com o IFRJ não veio para ampliar o repertório do Polifonia. Na verdade a proposta é ampliar o repertório dos alunos, que por meio de atividades práticas estão em contato com a produção local. Eles têm a possibilidade de escolher no Catálogo as bandas que querem entrevistar. Isso gera um estímulo à pesquisa e ao reconhecimento do valor cultural que as bandas têm. Um aluno pode chegar em casa e mostrar ao pai a discografia de uma banda que conheceu em sala de aula. Pode despertar a curiosidade da família e dos amigos para que vasculhem o catálogo e conheçam a diversidade de gêneros. Isso é ampliação de repertório, feita de forma simples e a partir de uma ação de baixo custo.

Sobre o contato, quem iniciou o processo foi o professor Ayrton que leciona Artes e Cultura para a turma de Automação Industrial. Ele me apresentou um projeto incrível de uma Web Rádio que seria movimentada pelos alunos. Eu curti a ideia e me coloquei à disposição para contribuir da forma que fosse preciso. Marcamos algumas reuniões e fechamos a parceria. O professor Ayrton tem feito um excelente trabalho no IFRJ.

Entendo. Admito que durante o processo de pesquisa para elaboração deste artigo, cheguei a cantar - sem nem mesmo perceber - as letras de algumas músicas que compõem o primeiro volume do Coletânea Polifonia. Como foi a curadoria para a escolha das músicas?

É mesmo? Me conta qual música você cantarolou? (risos)

A princípio a curadoria foi feita por mim. Selecionei 20 grupos considerando os critérios: qualidade estética, criatividade, potencial para circulação e trajetória, com uma preocupação de que o repertório fosse representativo da diversidade regional. Depois apresentei para as bandas uma pré-seleção de faixas e pedi que opinassem. Algumas trocaram sua faixa e assim foi feita a segunda etapa da curadoria. Cada banda bateu o martelo sobre a faixa que deveria entrar e todos participaram como patrocinadores da primeira tiragem de 200 cópias.

Quando sairá o volume dois do Coletânea?

Em 2015. Só não posso afirmar a data ainda porque minha preocupação no momento é a distribuição da primeira coletânea (risos). O resultado da primeira me dará o direcionamento para planejar a segunda.

Você realiza com o Polifonia um trabalho de produção musical, de fato. Desde a divulgação até a distribuição de álbuns. Quais as dificuldades deste trabalho e como é mercado nacional para quem deseja ingressar na carreira artística?

Fazer distribuição de música no Brasil é complicado porque nós, produtores independentes, não temos o alcance que as majors, a grande mídia e as rádios comerciais têm. Nossa principal ferramenta é a internet, mas não basta só colocar a música lá, ela não vai se distribuir sozinha. É preciso realizar ações em conjunto, identificar plataformas e pessoas que possam te auxiliar nisso. Se a banda deseja um grande alcance, precisa constantemente gerar conteúdos que a conectem ao seu público. Eu diria que a maior dificuldade é que nem todo músico tem essa percepção e habilidades de gestão desenvolvidas.

Sobre o mercado, hoje temos mais possibilidades do que tínhamos há 10 anos atrás. Mas a concorrência pela atenção das pessoas aumentou também.

Vocês pretendem ampliar o projeto para outras cidades do Rio ou, quem sabe, outros estados?

No que se refere ao "mapeamento" (catalogação de grupos) vou manter meu recorte na região Sul Fluminense. Mas posso sim levar ações do projeto para outros Estados. Quero fazer circulação de bandas, oficinas, etc.

E quais seus planos para o futuro? Alguma novidade chegando em breve e que pode ser contada para nós?

Bom, a recente novidade é a primeira edição do Festival Polifonia que irá acontecer em novembro de 2014. Em breve teremos informações no site.


Bruno Leandro

Num certo natal, sua mãe lhe levou a uma loja de brinquedos e pediu que escolhesse o que quisesse. Depois de muito procurar, trocou um mini-game por um livro do Harry Potter! Acho que isso já define bastante coisa.
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