amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

O guarda-chuva azul

De como um guarda-chuva pode significar muito mais do que um simples guarda-chuva. Os 15 segundos mais molhados da estória de um estudante de humanas.


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Estava eu tornando de um mercado qualquer para casa sob forte e fina chuva, no popular: um “toró”. Angustiado por molhar a única calça jeans lavada, e enfrentando o dilema: esperar ou encarar a chuva? No meu caso, a palavra esperar é sinônimo de tensão. Dado meu altíssimo nível de hiperatividade, escolhi me esbaldar com a bela (porque não) chuva daquela manhã de sábado.

Ao longo do caminho, uns 800 metros, mais ou menos, só se avistava carros - a proteção de um veículo motorizado e com teto estas horas é de causar inveja! Vi também pessoas, muitas iguais a mim, tomando chuva. No entanto, o que mais me chamou atenção foi quando avistei de longe um pequeno rapaz, 1,60 m. (no máximo), com um guarda-chuva azul marinho cuja circunferência acomodava três dele. Fiquei observando aquele imenso guarda-chuva se aproximando, parecia caminhar sozinho, um guarda-chuva ambulante vindo em minha direção...

Ao se aproximar, dei uma boa encarada no rapaz. Ele, superior a mim naquele instante, me olhou com um olhar de soberba e, naqueles poucos segundos, deve ter pensado: bem feito, estou bem confortável no meu “guarda-sol” azul. Eu não tenho dúvidas disso. Eu pensaria.

Ao ficarmos bem próximos, cerca de meio metro um do outro, pude reparar melhor, olhar detalhes do guarda-chuva. E para minha estranheza, reconheci aquele objeto de algum lugar. Não, não era um dos meus cinco guarda-chuvas que perdi ao longo dos últimos cinco anos – quase sempre quando estia esqueço que tenho guarda-chuva. O que me espantou - mais do que causar desejo ou invídia, pelo menos naqueles longos segundos - foi o símbolo que estava estampado naquele objeto. Não era um simples guarda-chuva azul.

A umbela azul ostentava em letras garrafais o seguinte slogan: CNPQ – Ciência Sem Fronteiras!

Naquele momento, pude entender toda arrogância e soberba do rapaz. Pude perceber que não estávamos ali apenas como uma pessoa com guarda-chuva e outra sem. Não se tratava de uma mera encarada. Ele não me viu apenas como um simples transeunte molhado dos pés a cabeça. Eu, trajado de barba (por fazer) e, portanto, não disfarçando meu arquétipo de estudante de Ciências Sociais/Humanas/Política/Comunista, fui alvo fácil de um olhar superior, de alguém protegido pelo governo, pelo estado... Protegido até contra as intempéries da natureza - como queria estar em seu lugar.

Foi nesse instante que pensei em todos os jargões possíveis: estamos desamparados! Reforma curricular já! Ciência Sem Fronteiras - e sem chuva - para as humanidades! Fim do sucateamento da universidade popular e gratuita!

Daqui em diante, não saio mais de casa sem meu guarda-chuva.


Renato Xavier

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