amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

Cristianismo e Ciência: relação umbilical

Tanto o cristianismo quanto o projeto iluminista compartilham a ideia de que o mundo presente está subordinado ao mundo futuro, seja ao paraíso ou ao desenvolvimento linear e universal. A fonte moral que verificamos ao longo da história do pensamento não transcende os valores religiosos.


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Não obstante o aparente contraste entre os dogmas (cristianismo, iluminismo), o que os une é maior do que o que os separa.

Quando misturamos religião e ciência, defensores de ambos os lados não demoram a apontar para o que seria um erro grosseiro. Tal discurso – incompatibilidade entre religião e ciência – foi por nós facilmente adotado. Ouvimos e aceitamos quase sempre os velhos chavões: “religião e política não se misturam”; “ciência e fé são realidades paralelas” e etc. É compreensível essa postura excludente, data de séculos o nosso pensamento binário. Exige de nós certo esforço imaginar que há uma relação umbilical entre os dois dogmas, uma vez que a ciência nasce justamente como negação à religião.

No entanto, a procura pela Verdade, entre outras coisas que não caberia mencionarmos aqui, é o fio condutor que une o pensamento cristão e o projeto iluminista. Data muito antes de Paulo a história do pensamento ocidental.

O cristianismo bebeu da fonte socrática, este (Sócrates) confiscado por Platão - a quem se deve a responsabilização por manipular os debates e caricaturar os oponentes. Valeu-se, portanto, do maniqueísmo e da dicotomia reducionista que separou, entre outras coisas, o corpo da alma, o mundo sensível do mundo inteligível. Em outras palavras, ódio ao corpo e celebração da alma! A teoria dualista de Platão reduziu e bifurcou a vida grega. O conhecimento – naquele momento não mais a partir da natureza - passa a originar-se da alma. Tal conhecimento conduziria o homem à Verdade, ao justo, ao belo, ao bem. O instrumento para alcançá-la seria, pois, a Razão.

Séculos depois, a ideia de um mundo inteligível, alcançado somente pelos filósofos, fora substituída por outro além-mundo, a saber, o paraíso.

O cristianismo, ululante, baseado nas dicotomias criadas por Platão, escolheu um lado e descartou todo o restante: a busca pela Verdade. Em outras palavras, abandona-se o prazer (felicidade) e adota-se a tensão para a construção de um destino (virtude). Ao construir a ideia de paraíso, dilacera-se a terra. A moral trágica grega (em decadência) é suprimida pela ética cristã cujo mote é a máxima supressão da dor. Não obstante, ao suprimir a dor, suprime-se, por conseguinte, o prazer. Paixão, na ética cristã, torna-se sinônimo de sofrimento e, assim, passa a ser combatido. O bom é substituído pelo bem. Abre-se mão da vida da terra em favor de uma suposta além-vida, do corpo em favor da alma. A busca pela Verdade cristã deságua na Verdade científica.

A partir de Kant, o projeto iluminista nasce com o pretexto de libertar o homem das amarras religiosas e conferir-lhe autonomia e liberdade de pensar e agir, sob a égide da razão, colocando-o no centro do autoconhecimento, sem necessidade de interlocutores do além-mundo, uma clara alusão à religião hegemônica ocidental. O nascimento da ciência anuncia a “morte de Deus”. Deus fora substituído pela Razão. O imperativo categórico de Kant (moral universal) toma conta das mentes pensantes. Substituímos o paraíso pelo futuro e progresso (linear) da humanidade.

Conduzido pela razão, o homem tornar-se-ia refém da sua própria criação. Max Weber chamou o triunfo da racionalidade de jaula de ferro. Nietzsche foi ainda mais longe, sua crítica em relação à décadance da modernidade europeia se articula com sua rejeição aos ideais de crescimento e progresso. Sua afirmação sobre a “morte de Deus” expressa o sentimento da perda de direção na definição do que seria certo ou errado. Se, por um lado, a religião havia deixado de ser fonte exclusiva de código moral, por outro, sua substituição pela ciência e a razão reconduziu os indivíduos a um novo tipo de armadilha. O conhecimento prometido pelos iluministas, isto é, pela ciência, que conduziria os indivíduos ao fim da opressão, acabou por escravizá-los. Escravos de uma razão descolada do corpo!

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A ciência moderna nada mais fez do que dar continuidade ao projeto platônico-cristão. As ideias iluministas forjaram a emancipação do homem, mas terminaram por criar uma complexa engenharia cujo resultado final era a contínua busca pela Verdade, por respostas e explicações metafísicas. Da barbárie da idade média passaríamos para a era da civilidade. Aos europeus estaria incumbida a missão de civilizar os quatro cantos do globo. Um projeto universal e poderoso, um projeto de poder!

O ponto crucial da ciência, a segunda grande ilusão da humanidade, está centrado na ideia de que no futuro todas as sociedades e, por conseguinte, todos os seres humanos serão plenamente desenvolvidos e civilizados, garantindo, assim, os direitos naturais dos indivíduos e (por que não?) a diminuição do sofrimento o prolongamento da vida - a continuação da vida bifurcada: verdade/mentira, ciência/senso comum. O que for atestado e testado pelos pares passa a ser, até que se “prove” o contrário, Verdade. Não se pode chamar a isso de Verdade. A priori, é uma mentira!

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A fé romana nos prometeu o paraíso. Igualmente, o iluminismo nos prometeu o desenvolvimento, um futuro melhor; um futuro próspero. A procura incessante por verdades, explicações e porquês! Por que existe algo no lugar de nada? A busca por explicações tira nossos pés da terra!

Destarte, tanto o cristianismo quanto o projeto iluminista compartilham a ideia de que o mundo presente está subordinado ao mundo futuro, seja ao paraíso ou ao desenvolvimento linear e universal. A fonte moral que verificamos ao longo da história do pensamento não transcende os valores religiosos. A ideia de uma ordem física (ciência) ou moral (universal) que une todos os indivíduos nos parece uma grande armadilha.

Na ausência de Deus, a razão científica é a nossa muleta. Fé em Deus, fé na ciência. Niilismo cá, niilismo lá.

* As obras ao longo do texto são de Paweł Kuczyński


Renato Xavier

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