amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

Depois de Kafka, amiga Barata

Depois de ler A metamorfose de Franz Kafka, é quase impossível se deparar com uma barata e simplesmente enxergá-la como um inseto asqueroso.


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Depois de ler A metamorfose de Franz Kafka, é quase impossível se deparar com uma barata e simplesmente enxergá-la como um inseto asqueroso. No lugar da baratinha, depois de Kafka, poderíamos estar eu, você, um amigo, um vizinho ou até mesmo um desconhecido qualquer. Seria como que acordar numa bela manhã e sentir o ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, com numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, exatamente como Gregor Samsa se sentira.

Antes de Kafka, jamais havia pensado na possibilidade de acordar metamorfoseado. Menos ainda transformado em uma barata. Hoje, consigo imaginar tal situação e, por isso, tenho certo respeito pelas baratinhas que por aí encontro.

Não tenho mais aquela atitude demasiada humana de buscar a primeira vassoura ou chinelo que houver na minha frente para esmagar o pobre inseto. Geralmente, quando matamos uma barata, não nos contentamos com nada menos do que um pisão esmagador – aquele que coloca pra fora tudo o que a baratinha tivera um dia por dentro.

Hoje em dia procuro imaginar que por trás daquela couraça há alguma coisa que vive e, mais ainda, luta diariamente pela sobrevivência entre venenos, pisões e todas as armadilhas que nós, humanos, somos capazes de empregar para matar um indefeso inseto.

Afinal, de quando em quando me pergunto se somos assim tão diferentes. A baratinha também acorda para a labuta; vai atrás de alimentos; cria; procria; dorme e acorda de novo. Além disso, parte da nossa aversão às baratinhas é porque estas têm capacidade de fazer algo inimaginável para nós, ralés humanos: voar. Tudo bem que os rasantes são sempre em nossa direção, mas Gregor foi preciso ao explicar que tudo isso não passa de uma tentativa, ainda que vã, de autodefesa.

Ultimamente, evito usar palavras ofensivas ao me dirigir às baratas. Assim como Gregor sentiu tristeza e amargura ao ser insultado por seus familiares, eu também não gostaria de ser ultrajado por um sujeito qualquer. Menos ainda se estes fossem meus parentes. Por que, depois de Kafka, é realmente possível que aquela baratinha que surge embaixo da nossa cama, ou atrás da porta, faça parte, de alguma forma, da nossa família. Alguém que, ao longo do tempo, esquecemos ou procuramos esquecer.

Os seres humanos geralmente agem assim com algo que não desejam mais: primeiro a indiferença, depois o esquecimento. Faz todo sentido a ideia de Aparecer para Ser. Sempre me questiono se tudo que vejo existe ou existe tudo só porque vejo.

Gregor, por exemplo, existia até a metamorfose. Ao tornar-se uma baratinha, passou a não mais ser reconhecido por sua família. No entanto, nada dele se perdeu com a mudança de corpo, tudo estava ali: os sentimentos, as relações interpessoais e toda a sua memória afetiva, com outra veste.

Confesso, já não sou mais capaz de ser indiferente às baratinhas. Nem me espantam mais aquelas asinhas batendo freneticamente num ruído bizarro de um lado pro outro. Procuro ainda não incomodá-las com longas arrumações ou com a mudança dos móveis de um lugar para outro.

Depois de Kafka, nada do que é desumano me é indiferente. Afinal, estou sempre de antenas em pé!


Renato Xavier

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