amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

Conserve tudo o que não for seu


banheirobd703090780a4651a0f0b542fc13cf48.jpg Há alguns dias li, na parede de um banheiro público, a seguinte frase: “colabore com a limpeza do banheiro, afinal ele é SEU”. Existem várias frases com o mesmo intento: “este é o SEU banheiro, ajude-o a mantê-lo limpo” ou; “cuide do que é SEU, colabore com a limpeza”.

Desconfio cada vez mais que esse tipo de mensagem é contraproducente. São várias as explicações para isso. Primeiramente, acredito que a “coisa pública” não é exatamente minha. Embora a ideia geral seja que tudo que é público é de todos, prefiro crer que, se é de todos, não é de ninguém, portanto, não é meu. O que é meu, sem egoísmo barato, não é de mais ninguém. Acho um equívoco falar que o banheiro público é meu. Eu tenho o direito de usufruir daquele espaço, mas jamais posso ter a imagem de posse, de “estar em casa”.

A segunda explicação para o efeito contrário produzido por esse tipo de mensagem é ainda mais significativa.

Trato de forma diferente o que é meu e o que é de outrem – ou de todos. Isso é bastante natural, vejamos: o que é meu eu cuido da maneira que acho ser a ideal ou da forma que me vem à cabeça em uma determinada situação. Posso ser um sujeito bastante cuidadoso e zeloso com a minha casa, mas, naturalmente, sendo eu o único responsável por ela, tenho o direito de não sê-lo. Por exemplo, espalho tênis pela casa; coloco o pé em cima do sofá; deixo a pasta de dente aberta (não gostaria de ser julgado por isso); enfim, estou em casa e sigo o velho ditado que diz: “da minha casa cuido eu”. d3cbbc8c4c567365c167294d345e1f85 (1).jpg Em contrapartida, fora das minhas dependências, longe do que me pertence, a história muda completamente de figura. Se eu estiver na casa de um amigo ou mesmo um desconhecido, de forma alguma terei as mesmas atitudes que tenho em minha casa, algo também bastante natural. Não coloco um copo em cima do sofá e, tampouco, ando de cueca por salas alheias (há controvérsias).

Pois, é assim que agimos quase sempre. Geralmente na intimidade do nosso lar quase tudo é permitido, estou excluindo desta conversa pessoas neuróticas com limpeza e etc. Na casa alheia temos restrições - e que bom que temos! O mesmo se aplica aos banheiros públicos. A mensagem estampada em quase todas as privadas do Brasil me parece equivocada. Temos mais cuidado com as coisas que não são nossas. Somos sempre mais flexíveis com os nossos bens. Parece-me algo inerente aos seres, os exemplos abundam, mas deixo a cargo de cada um pensar na diferença de trato que temos com o 'nosso' e com o 'do outro'.

Por isso, o equívoco está em pensar na ‘coisa pública’ como minha, quando de fato ela não o é. É nossa e, se nossa, é compartilhada e, se compartilhada, não é minha. Parece complicado, mas não é. Imaginemos, agora, transferir essa ideia de ‘coisa pública de outrem' para os cofres públicos. Aquele dinheiro desviado do imposto de uma empresa privada ou pública não pode ser de forma alguma meu, nem no imaginário, nem uma fatia, nem uma porcentagem mínima. O referido dinheiro é, no máximo, nosso, portanto não preciso repetir que o ‘nosso’ não é meu, certo?

Voltando ao tema central, a saber, banheiros públicos, proponho uma mudança de paradigma em todos os bacios do Brasil, a começar pela seguinte frase: “colabore com a limpeza, este espaço não é SEU!”. Que a mudança comece no banheiro e termine na sala de estar.


Renato Xavier

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