amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

Herói ou bandido, eis a falsa questão

Perdemos a inocência e ganhamos um tanto de bobagens da sociedade; aprofundamos a forma dualista de pensar; limitamos as escolhas e resumimos a vida em A ou B; extremos: certo ou errado, bonito ou feio e etc;


Madonna Sistina di Raffaello-2.jpg Imagem: quadro Madona Sistima de Rafael; interpretado pela cristandade e por Nietzsche.

A vida adulta não é nada fácil; mais complicada ainda porque perdemos a inocência das escolhas aleatórias; quando criança, tudo é possível; escolhemos aleatoriamente sem grandes sistemas por trás; na vida adulta, perdemos a inocência e ganhamos um tanto de bobagens da sociedade; aprofundamos a forma dualista de pensar; limitamos as escolhas e resumimos a vida em A ou B; extremos: certo ou errado, bonito ou feio e etc.; você diz “gostei deste”, outra pessoa rebate, “a não, prefiro este”; a vida não se resume a "vilão ou mocinho"; assim como no teatro, há a opção de escolher outra personagem; reduzir o entendimento da vida de um determinado sujeito passa ao largo do modo dual que define nossa forma de pensar; podemos ser ao mesmo tempo tudo e nada; começarmos o dia de bom humor e terminarmos de mau; não ter que escolher sempre entre um lado ou outro; podemos ter escolhas diferentes, porém não excludentes; mudar de opinião; cair em contradição; não precisamos optar por pacotes fechados: esquerda ou direita; no futebol tudo bem: corintiano ou são paulino; cruzeirense ou galo; fazer uma escolha não significa, necessariamente, excluir a outra escolha; gostar de algo, não implica em odiar outro algo; defender uma causa não é negar todas as outras causas; é possível gostar de manteiga e margarina ou de nenhuma das duas; amar alguém e não odiar outrem; podemos ir ao cinema, mas adorar filmes que passam na seção da tarde (nostalgia infantil); amar comédia e melodrama, tudo ao mesmo tempo, quem sabe no mesmo filme; dormir sem roupa e às vezes de pijama; sair com a namorada, sem abandonar os amigos e vice-versa; beber água natural no calor e gelada no frio; com ou sem gás; vodca e água de coco; gostar de quadros do Monet e do Goya; admirar Albert Camus e Sartre; Nietzsche e Kant (com o devido cuidado!); a biografia de Sade é cheia de contradições, a vida também; sem essa de querer saber quem foi mais importante para o modernismo: Mario de Andrade ou Oswald; ambos! Pelé ou Maradona? De boca aberta ou fechada? Loiras ou morenas: ruivas, talvez (fico com a minha loura); destro ou canhoto: chuto com os dois pés; podemos admirar a Rússia, sem odiar os Estados Unidos; querer viajar para Cuba e não ser um esquerdopata/ditador/comunista; admirar ambos: o campo e a praia; Xbox ou PS? Sei lá! Futebol americano ou rúgbi? Basquete; beijo ou abraço: dê os dois; cabelo curto ou cumprido: varie; PT ou PSDB: ‘ultimamente’, nenhum; dor ou alegria? Dor e alegria; Há mais vida entre os extremos; arrisco-me a dizer que a maior parte da vida é construída neste ínterim entre o ‘bem’ e o ‘mal’, entre o ‘certo’ e o ‘errado’; os extremos são as pontas das escolhas, o caminho até lá é longo; por isso, ao longo da vida serei herói e bandido e tudo que há entre estas duas fronteiras que as palavras não conseguem explicar; nesta complexidade chamada vida.


Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar. .
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