amor fati

Alguém que diz sim

Renato Xavier

Escrever é a extensão do pensar.

QUE HORAS ELE VOLTA?

A reinterpretação da sociedade brasileira passa por um cinema forte. Um cinema capaz de contar novas histórias, de criar novas narrativas sobre o que fomos, o que somos e o nosso devir.


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O filme "Que horas ela volta?" é um mistura de um Brasil que persiste em ser - ranço da elite escravocrata - e de um Brasil que está surgindo ou lutando para aparecer. Vê-se nele uma luta de poder, de ocupação de espaços e de rupturas culturais que outrora pareciam impossíveis. Uma sociedade que se transforma e outra que não quer se transformar.

O cinema sempre foi uma válvula de escape das sociedades. No caso dos EUA, por exemplo, os filmes de Hollywood não só representam a realidade daquela sociedade, mas ajudam também a inventar e reinventar a história de seu povo. Se os heróis não são “super-homens”, são as forças armadas, os agentes especiais da CIA ou policiais do dia-a-dia. A história já foi interpretada do ponto de vista dos escravos, dos abolicionistas, dos presidentes, dos latinos e outras tantas visões que assistimos da indústria de criar fantasias. No caso dos EUA, as interpretações sempre esbarram no problema da história contada pelos vencedores. São os casos dos filmes de guerra que não representam a visão dos perdedores, mas não deixam de contar histórias de "vontades".

No caso brasileiro, a nossa história ainda não foi totalmente contada. Especialmente se olharmos para a realidade dos últimos 15 anos, rica em mudanças sociais. A narrativa dos antigos derrotados precisa aparecer.

“Que horas ela volta?” é o primeiro passo para recontar e reinterpretar a nossa história recente. No filme, é possível notar dois brasis. A luta que se trava entre o velho e o novo retrata – ainda que pareça um retrato caricato – um Brasil que nos últimos anos se quer fazer diferente.

Se nas décadas de 1960, 1970 e 1980 os nordestinos procuravam a capital paulista em busca de sobrevivência - repetindo a lógica escravocrata, isto é, sala de estar da patroa e “quartinho” da empregada (Casa Grande e Senzala) –, hoje a procura é por ascensão social e econômica. Quando não, muitos voltam à terra natal em busca de uma nova chance.

A mudança na pirâmide social, asseverada na relação entre a patroa e a filha da empregada, desorganiza uma sociedade mal-acostumada com rígidas e reificadas hierarquias sociais. A porta da sala, que outrora estava fechada por grossas correntes sociais, abre-se por vias econômicas, abre-se pelo acesso à educação (ainda que não exatamente como se deva ser), pela oportunidade de estudar, de ocupar um ambiente predominantemente da elite branca e rica.

Se nos anos 1990 os corredores das universidades públicas não se viam pretos e pardos, pobres e favelados, a realidade de hoje ajuda a complicar a relação filhos da patroa e filhos da empregada doméstica. A reprodução de uma nova vida social - de um Brasil que quer aparecer – ajuda a entender o nosso passado. A disputa por novas narrativas sai dos corredores das universidades, das cozinhas das empregadas, da classe econômica que pega avião e vai para o cinema.

A reinterpretação da sociedade brasileira passa por um cinema forte. Um cinema capaz de contar novas histórias, de criar novas narrativas sobre o que fomos, o que somos e o nosso devir.

A luta de classes não divide o país, ao contrário, mistura e transforma o Brasil em um país que quer e pode mais. “Que horas ela volta?” soa quase como “que horas ele, o Brasil, volta?”.


Renato Xavier

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