andanças e palavras

Na varanda do mundo, um observador das coisas.

Paulo Spolidório

A psicose nossa de cada dia

Os sonhos, quiçá nossos surtos diários.


Um grupo de pesquisadores brasileiros da UFRN, segundo artigo da revista Fapesp, constatou que o padrão da atividade elétrica cerebral durante um surto psicótico é o mesmo verificado durante o sono REM, sigla em inglês que significa Rapid Eye Moviment, fase na qual ocorrem os sonhos.

070920_blog.uncovering.org_kush_1.jpg

Quando dormimos, as ruas e avenidas cerebrais são invadidas por impulsos elétricos mais lentos, que se revezam com estímulos ultra-rápidos, criando-se imagens oníricas e fantasisosas, reforçadas de um colorido extravagante e de histórias aparentemente desencontradas. Este padrão elétrico também foi verificado no cérebro de ratos, submetidos a modelos que simulam os surtos psicóticos.

janelevitbrainbowcortex.jpg

Há evidências de que os pacientes acometidos pelos surtos psicóticos ou "pequenos sonhos acordados" tem um padrão elétrico dissonante com o estado de vigília em que se encontram. Este padrão alterado é observado notadamente numa área cerebral denominada hipocampo: nosso cavalo-marinho cerebral - personagem da mitologia grega e fenícia. Criatura metade peixe, metade cavalo.

salvador-dali-2071_MLB-F-3438741785_112012.jpg

Essa estrutura é responsável por importantes processos relacionados à memória, ao aprendizado e às emoções, fazendo parte do sistema límbico, o centro delas. Isso significa que todos temos nosso momento diário de psicose, durante boa parte de nossos sonos.

van Gogh Starry Night.jpg

Nessas horas, com os padrões elétricos "alterados", experimentamos as sensações irrestritamente, como grandes pintores de nossas próprias telas, sem preocupação com a combinação das cores ou a nitidez das formas e contornos. O pintor confunde-se com a obra, confunde-se com as próprias cores de sua carne. O pincel, a tinta, o pintor, a tela, tudo voa. Nossas pequenas psicoses, como brisas, nos levam aos caminhos permeados pelo sabor e pelo dissabor, pela delícia e pela tragédia, pelo preto e branco, pelo colorido. Elas trazem enfim um pouco de alívio a toda esta loucura.


version 1/s/// @destaque, @obvious //Paulo Spolidório