andanças e palavras

Na varanda do mundo, um observador das coisas.

Paulo Spolidório

Vicente, um índio canoeiro

"Tomou sua viola de cocho feita de pau da região com cordas de tripa de bugio e entoou uma melodia regional, sem cantar. Apesar das insistências, Vicente não quis cantar em guató. No fundo queria conquistar a repórter com seus dons musicais e seu sorriso irregular".


Desde muito cedo tive uma ligação inexplicável com o Pantanal. Escutava com admiração as histórias sobre piranhas devorando bois, sobre a onça que come gente, sobre o temido jacaré que abre sua bocarra digna para ter os dentes palitados pelos pássaros. Os contos oscilavam deliciosamente entre o real e o fantástico, numa espécie de reino imaginário.

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Finalmente, fui levado às terras alagadas, a trabalho. Foi dose aguda: alguns dias num barco no rio Paraguai, entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. No alvo, na gema do mato. Alcançar o lugar foi tarefa árdua: avião grande, escalas, o calor fastidioso de Corumbá, um avião teco-teco, quase uma hora de voadeira, e, pronto! Lá estava eu, num canto que sempre desejara estar.

De pronto, estranhei. Onde estavam os Tuiuiús? Os jacarés? As sucuris? Era um labirinto de águas, qual o curso do rio Paraguai? Eram baías, corixos, canais, margens distantes e um exército de aguapés. Assustei! E o Pantanal da minha imaginação? Aquele repleto de bicho e histórias? Alcancei o barco, no qual ia trabalhar, e organizei minhas tralhas na cabine, me alimentei, conheci pessoas. Mas o que queria mesmo era conversar com o mato.

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E então no pôr-do-sol me vi só. Sozinho de gente, pois toda assuada vinha do mato. De companhias que tentava ver, mas não conseguia. Era tanto grito de maritaca, tintilhar de árvore, rodopio de água, algazarra de bicho... era impossível, a solidão. Aos poucos, a garça, o martim-pescador, as mutucas, as capivaras, o tronco submerso que parecia jacaré. O carcará perseguindo um filhote de quero-quero entre os últimos suspiros do dia. Tanto Pantanal! Queria sozinha falar a danada natureza. Falava tão alto que derrubava a gente no silêncio. Sermão de mãe pra filho. O sol escorregava atrás da Serra do Amolar e manchava o céu de laranja, lilás, depois laranja novamente. E por fim furtava a cor do dia. Noite! Outros sons, outras quietudes, e um céu que tiraria verso do coração mais pétreo.

No dia seguinte, um professor bonachão, curado pelo sol, ensinava sobre ovários e espermatozóides de peixes. Talhava tambaquis e mostrava tudo ao vivo, ali mesmo, na mesa do rancho da fazenda. Mais Pantanal: guaxos, periquitos, um tuiuiú bem lá no perto-longe. Tanto joão de barro marchando com sua peculiar empáfia. Encontramos uma jornalista e um cinegrafista que documentavam aquelas bandas. Quiseram me entrevistar. Depois juntaram-se ao grupo. Veio a promessa do Tião, barqueiro experiente da região: à tarde, vamos visitar um índio, Vicente. Fomos eu, Tião, a repórter, o cinegrafista e mais dois, pesando a voadeira. Leva mantimento pro Vicente. Leite, macarrão, um pouco de dinheiro porque lá a pobreza aperta a garganta da gente.

Surgiu uma ilhota no meio do rio, cercada de corixos. Atrás, uma mata de perder de vista. Vicente, o índio canoeiro, disse que conhecia todo canto daquelas margens largas, mas não se atrevia a conhecer a mata dos fundos. Pra cá eu num conheço, ria o índio. Ria um misto de alegria e resignação, enquanto espantava o gato de cima da banqueta. Eram gatos, tantos, e cães. Uma tapera, duas aliás, e uma sacola de plástico com piranhas para o jantar, pendurada num varal improvisado. No fogo de chão, um caldeirão de água. Vicente era dos únicos, dos últimos da tribo guató. Habitava ali com a mãe, que não mexia as pernas, nem os olhos. Vivia sentada ao largo do fogo, mão apoiando o queixo. Há cem anos. Não mexia o olhar, fundo, dava medo. Nem diante dos flashes do cinegrafista. Dava medo aquele olhar profundo, dizia muita coisa, existia muita realidade ali. Viam-se restos de couro de jacaré, dentes de capivara, ossos de outros animais. Mãe e filho comiam de tudo. De tudo que se movimentasse. Ano a ano, diminuíram os gatos e os cães. A caça estava difícil, dizia o velho, as capivaras e os jacarés tão ariscos. Só não queria mais saber de carne de tartaruga. Não sabia explicar, mas havia enjoado, se é que pudesse se dar ao luxo disso. O índio Guató mostrou sua azagaia enquanto a moça-repórter o convencia para uma entrevista. Era desconfiado o índio: - O Senhor usa canoa? - O rio corre, né? A gente também tem que ir, assim, com o rio. Ria fundo.

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E quando perguntavam coisa mais íntima: Aqui, o senhor se sente só? O sol tá forte, calor, né. Olhava-nos de soslaio o índio, na tentativa de absorver algum naco de segurança. Era tanta gente ouvindo-o falar, um choque com seu silêncio.

Por último nos confidenciou que queria casamento e olhou prontamente para a repórter, escondida por cortinas de maquiagem. Levantou-se, tomou sua viola de cocho feita de pau da região com cordas de tripa de bugio e entoou uma melodia regional, sem cantar. Apesar das insistências, Vicente não quis cantar em guató. No fundo queria conquistar a repórter com seus dons musicais e seu sorriso irregular. A ilhota tinha um cheiro mole, cheirava a um misto alucinadamente calmo de amargura, simplicidade e realidade. Uma dose aguda de aprendizado na sua inesquecível fugacidade.

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O barco se afastou de lá e o canoeiro postou-se ao barranco, acenando-nos com esperança, que voltássemos, que trouxéssemos mais mantimentos e moças-repórteres. Olhei o índio até o rio fazer curva. A casa ia se afastando, tudo ia ficando pra trás, em seu lugar inicial. Fui lembrando da história do índio. Um dia, abriu a porta da tapera, e lá estava ela: a onça-pintada. Queria capturar os cães, os gatos, a mãe. O velho imbuiu-se de coragem, espantou a onça, defendeu bravamente sua família.

E a gente do barco torcendo pra pintada aparecer nas margens do rio. A gente queria ver onça. Esta vida mesmo é de ponta-cabeça!


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