andanças e palavras

Na varanda do mundo, um observador das coisas.

Paulo Spolidório

O outro, este ser tão familiar e estranho!

"O que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que amamos é o estado, ou a esperança, de finalmente sermos amados".

Zygmunt Bauman


Em "O Mal-Estar na civilização", Freud destaca que uma das pedras fundamentais na construção da civilização foi a máxima "ama o próximo como a ti mesmo". Sem os laços da sociabilidade, esta Humanidade emergente estaria invariavelmente fadada ao autoextermínio.

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Amar o próximo como a si mesmo é talvez algo de mais complexo que a humanidade já experimentou. Por que tenho de amar o próximo? Qual a vantagem advinda disso? Não é para menos que o fundador da Psicanálise assinalou que este preceito é uma verdadeira afronta à natureza humana, instintiva, egocêntrica, atenta em atender às próprias demandas físicas e psicológicas, como a fome, a sede, a satisfação sexual, os desejos fugazes e inadiáveis.

Paradoxalmente, representa umas das construções mais grandiosas da humanidade, pois doar-se a este preceito significou afastar-se dos ímpetos, dos impulsos, e dos desejos mais iminentes do indivíduo, afastando assim o Homem cada vez mais do Estado da Natureza, da selvageria, do mundo do "cada um por si". Esta atitude aproxima indubitavelmente a civilização daquilo que é tido como verdadeiramente humano.

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Segundo Zygmunt Bauman, "amar ao próximo exigiu um ato de fé. O resultado, porém, foi o ato fundador da humanidade". Também marca decisivamente a passagem, a transição entre um mundo no qual predominava o instinto de sobrevivência para o estado da moralidade. Essa passagem torna a moralidade a própria condição de sobrevivência dos pilares civilizatórios. O amor ao próximo torna-se a condição essencial de sobrevivência do grupo.

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E da sobrivência de cada um individualmente. Reflete no amor que sentimos por nós mesmo, o amor-próprio, que nos mantém vivos, que nos fazem buscar proteção contra os males e os perigos, nos estimulando a nos agarrar à própria vida, enfim, sobrevivermos. O amor-próprio não é senão a esperança de sermos amados, a expectativa reluzente de recebermos o amor alheio, o amor que se irradia do outro.

Embora a lógica mercadológica tente a todo custo reduzir os seres humanos a simples números ou máquinas prontas para consumir o máximo possível, todos temos um papel singular na civilização. Amar o próximo é algo complexo e não por menos contraditório. Mas é um exercício necessário de fé na moralidade, fé na Humanidade, na civilização. É um voto para que tudo isso dê certo. Amar o próximo é salvar a própria humanidade de sua autodestruição.


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