andanças e palavras

Na varanda do mundo, um observador das coisas.

Paulo Spolidório

A Feira

"É vivo o sorriso da alegria, que esconde a tristeza
É viva a lágrima que vem da cebola e esconde a lágrima verdadeira"


A manhã exibe de pronto seu sol.

Fruta sobre fruta, sonho sobre sonho.

Maduro o tomate, os rubros corações

Anuncia laranjas, doces, feito o mel

O bigode bonachão anuncia maravilhas, sabores

Sabores e cores e pernas metálicas de carrinhos metálicos

Com rodas frenéticas que giram

Rodopiam no ar os sabores das cores

Das folhas e frutas e ervas que tingem o céu

O queijo coalha o desejo de mais cores

E ainda mais sabores num balé de gente e vegetais

A pimenta arde o dedo da moça, a moça com olhos de jaboticabas

Olhos que brilham, que vêem o vai-e-vem do moço esguio

De bochechas rosadas feito o feitio da beterraba

Beterraba do quilo barato e de um roxo vivaz

De pimentas, de cheiros de pimentas que se elevam no ar

É vivo o sorriso da alegria, que esconde a tristeza

É viva a lágrima que vem da cebola e esconde a lágrima verdadeira

Lágrimas de alecrim, salsa e manjericão,

Dos temperos e destemperos de uma existência,

Exata, reta, oblíqua, sinuosa como as formas da natureza

Quanto é a dúzia do ovo fresco, de galinhas ofegantes?

Quanto vale a primavera, essa azaléia, beleza que vaza do vaso de barro?

Aos poucos, os restos daquilo que era inteiro e valioso,

Os restos de tudo amassados no chão, comida de sabiá, mamão

As feiras eternas, com cores abertas, etéreas substâncias

Duram eternamente uma infância, uma manhã, um segundo

Um mundo que dura a dureza do tempo, que dura a ilusão dos homens

A feira se foi e fica a rua vazia, de feiras vazias, de passos vazios

As nuvens sem flor, vasos sem pétalas, frutas sem cor.


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