animus movendi

Relativizando o movimento e o referencial

LuhanaSP

Palavras libertam sentimentos - movimento contínuo

Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda


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Um compositor popular que desenvolvia sua obra com requintes de uma ópera, um grande poeta do concreto, daquilo que é experimentado e vivido , arquiteto da palavra, intérprete de coragem e brilho fulgurante. Se existisse um dicionário de personas, deveria ser mais ou menos assim, o significado para Gonzaguinha.

Gonzaguinha desde cedo travou contacto com a música, quando garoto ouvia Lupicínio Rodrigues, Jamelão, as músicas do próprio pai, o Luiz Gonzaga, músicas sertanejas e, também, música portuguesa, por influência da sua madrinha que era filha de portugueses.

Na juventude foi atuante e combativo, além de exercer o seu lado criativo, foi um participante fundador do M.A.U. (Movimento Artístico Universitário), onde partilhava seus interesses com Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio, César Costa Filho, nomes importantes e de expressão contemporânea. Um grupo com a pretensão de trilhar um caminho alternativo para o mercado fonográfico da época, uma rota mais consistente do que as aparições sazonais em festivais. Mas, o M.A.U sucumbiu à TV Globo e de certo modo, se adequou ao projeto de música e programa, que estava sendo lançado naquela oportunidade: "Som livre exportação".

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Talvez, não por coincidência, em 1973, Gonzaguinha lançou a música “Comportamento Geral”, uma letra contundente e um convite à reflexão:

Você deve aceitar que não tem mais tutu

E dizer que não está preocupado

Você deve lutar pela xêpa da feira

E dizer que está recompensado

Você deve estampar sempre um ar de alegria

E dizer: tudo tem melhorado

Você deve rezar pelo bem do patrão

E esquecer que está desempregado

Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal

Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé

Se acabarem com o teu Carnaval?

[...]

Você deve aprender a baixar a cabeça

E dizer sempre: "Muito obrigado"

São palavras que ainda te deixam dizer

Por ser homem bem disciplinado

Deve pois só fazer pelo bem da Nação

Tudo aquilo que for ordenado

Pra ganhar um Fuscão no juízo final

E diploma de bem comportado

A divulgação desta música foi proibida, e Gonzaguinha convocado a prestar esclarecimentos no DOPS, algo que se tornou um hábito na história da sua carreira. Registros existentes comprovam que para conseguir gravar cerca de 18 músicas, foram submetidas em número de 72 à censura - Congratulations! O Gonzaguinha recebeu 54 vetos. E para aqueles que se perguntam (What the hell?) o que é o DOPS? Creiam, seu desbotado significado era o de Departamento de Ordem Política e Social, criado para manter o controle do cidadão e vigiar as manifestações políticas na ditadura pós-64, instaurada pelos militares no Brasil. O DOPS perseguia, acima de tudo, as atividades intelectuais, sociais, políticas e partidárias.

Em 1976, Gonzaguinha gravou o LP Começaria Tudo Outra Vez. Um disco para a retomada do trabalho e espontaneidade do início e um período de grandes turnês pelo país. Uma das mais emblemáticas, inclusive por seus fortes vínculos emocionais, deu-se com o show "Vida de Viajante", trilhada com o pai Luiz Gonzaga, em 1981.

Ouvir Gonzaguinha é sentir como a expressão dos sentimentos pode ser colocada em palavras, é perceber a comunhão entre o poeta e o ser humano, eu lírico da própria vida, que se rebela e se apaixona, sofre e comemora, vive e cresce, reconhecendo, inclusive, algumas de suas fraquezas, como suas maiores virtudes. É estar diante de uma super herói de carne e osso.

Nas doces palavras do Gonzaguinha, o amargo da reflexão se transmuta em sabor de vitória, pela simples continuidade da vida: “Agora eu sei pedir ajuda, quando preciso, tenho consciência das minhas fraquezas e dependências. Isso me dá autonomia para um voo maior. Porque o importante não é chegar lá, é poder voltar”.

“Caminhos do coração”

E tão bonito quando a gente pisa firme

Nessas linhas que estão

Nas palmas de nossas mãos

E tão bonito quando a gente vai à vida

Nos caminhos onde bate

Bem mais forte o coração

Para assistir ao clipe de “Caminhos do Coração”, de 1982 – acessar o link.

Mais sobre Gonzaguinha


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