Ópera misturada a batidas eletrônicas. Visual alienígena e interpretação teatral bizarra. Parece um bom esboço de personagem para um livro de ficção científica, não? Pois com essa peculiar estética o contratenor alemão Klaus Nomi tornou-se um dos ícones no cenário musical da geração dos anos 1980. Nascido Klaus Sperber em 1944 (um ano antes do final da 2a. Guerra Mundial) o artista adotou o codinome artístico Klaus Nomi, mudando-se para Nova York em meados de 1970.
Após a grave crise financeira de 1975 que assolou a região, a cidade de Nova York tornava-se o berço da contracultura. Em 1980, ainda com uma grande parcela da população vivendo abaixo da linha da pobreza, o cenário artístico encontrou ali um terreno particularmente fértil para o fomento de ideias. Naquela época, o Irving Plaza foi um dos redutos da cultura underground nova iorquina, revelando artistas como Keith Haring, Kenny Scharf e Basquiat. Criado pela dupla de artistas visuais McDermott e McGough, o "New Wave Vaudeville" foi um evento que durou quatro noites e reuniu o melhor da cena alternativa. Klaus foi convidado para participar do projeto e, apresentando-se com uma capa de plástico transparente cantou Mon cœur s'ouvre à ta voix ("Meu coração se abre para sua voz"), uma ópera de 1877 que o compositor francês Camille Saint-Saëns criou para a peça "Sansão e Dalila".
O resultado da performance de Klaus foi curioso: sua apresentação terminou com um acidente caótico de luzes estroboscópicas, bombas de fumaça e altos efeitos sonoros eletrônicos, que fizeram Klaus Nomi recuar em meio à fumaça. Relembrando o incidente, Joey Arrias, também artista performático, disse certa vez: "Eu ainda fico arrepiado quando penso sobre isso... Era como se ele fosse de outro planeta e seus pais tivessem chamando-o para voltar para casa. Quando a fumaça se dissipou, ele se foi". O fato é que a reação foi tão esmagadoramente positiva que Klaus foi convidado a se apresentar em diversos clubes em Nova York.
Em 1979, um ano após sua apresentação no Irving Plaza, David Bowie o convidou a participar como backing vocal no Saturday Night Live. Ao contrário do grande sucesso que Bowie atingiu por seu desempenho no programa, a carreira de Klaus Nomi nunca disparou. O artista permaneceu no cenário underground até morrer em 1982, em decorrência da Aids.
O contraponto parece ser um conceito recorrente não apenas na música de Klaus Nomi (sonoridades distintas, entonação direta e inglês com forte sotaque alemão) como também em seu visual, que busca a fusão estética da Bauhaus (performance similiar aos movimentos corporais do Balé Triádico criado por Oskar Schlemmer) e do visual gótico (maquiagem pesada e bem marcada), ambos encapsulados no universo tecnológico de seu figurino monocromático de cortes retos, pontudos, concebido em material plástico brilhante.
Figurinos do Balé Triádico, de Oskar Schlemmer (Teatro Metropol de Berlim, 1926)
Escrito e dirigido por Andrew Horn e lançado em 2004, o documentário "The Nomi Song" revela o universo artístico de Klaus Nomi. Com o subtítulo Ele veio do espaço para salvar a raça humana Horn apresenta a construção estética do personagem Nomi, analisando seu papel no cenário cultural da Nova York dos anos 1980.
Coleção Primavera 2009, de Jean-Paul Gaultier
A sonoridade de Klaus Nomi influenciou diversos artistas do cenário pop/disco, como Devo, Talking Heads e o próprio David Bowie. O visual irreverente do performer também exerceu grande influência em marcas como Givenchy e Paco Rabanne. Em 2009 a coleção Primavera de Jean-Paul Gaultier foi inspirada em Klaus Nomi, homenageando o artista com trechos do documentário "The Nomi Song" durante o desfile, comprovando ainda que tardiamente sua importância no cenário artístico-cultural.
Comentários
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Robson Rozza
Um Artista Fantástico com uma voz impra...AMAZINGNomi!!
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