Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

A mitopoética de Bispo do Rosário

Assim definiu Bispo do Rosário: “Os loucos são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”. Vivendo durante meio século recluso em um hospital psiquiátrico, Bispo acreditava estar encarregado de uma missão divina, transformando os materiais dispensados no hospital em resíduos míticos de sua "obra-arca".


brosario.jpg"Carrossel", madeira, tecido, cordas e cavalinhos em Orfa, de Bispo do Rosário, ano desconhecido

Arthur Bispo do Rosário nasceu em 1909, em Sergipe. Filho de negros católicos, Bispo nasceu e cresceu em Japaratuba, cidade famosa pela comemoração de folguedos e diversas festas de origem cristã (como o Reisado e o Dia de Reis). Em meio a esse rico universo visual na qual a celebração das etnias, crenças e costumes constituía o imaginário coletivo, Bispo cresceu cercado por beatas, rituais, rosários, mandamentos, culpas e pecados. No livro Arthur Bispo do Rosário - A poética do delírio (Unesp, 2009), Marta Dantas comenta que Bispo recusava-se a comentar sobre sua origem, família e cultura; considerava-se "filho de Deus; havia sido adotado pela Virgem Maria e 'aparecido' no mundo em seus braços".

bispo f.jpgArthur Bispo do Rosário vestido com seu "Manto de Apresentação", que usaria no dia do Juízo Final

Em 1925, Bispo alistou-se na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Sergipe. Neste período, Bispo contava sobre sua experiência como boxeador na categoria peso-leve. Entretanto, nenhum documento foi encontrado no arquivo fotográfico dos esportistas da instituição que comprovasse essa afirmação. (Anos mais tarde, muitos de seus bordados levariam costurados os nomes de lutadores contemporâneos de seu tempo: resquícios de suas lembranças durante a vida como marinheiro). O comportamento de Bispo, que não correspondia ao regulamento da Marinha, foi marcado pela alternância entre "exemplar" e o "faltar às leis", o que o levou a ser excluído, em 1931.

Alguns anos depois, em 1934, trabalhou como lavador de bondes da Viação Excelsior (companhia criada pela Light, na época, responsável pela energia elétrica do Rio de Janeiro). Entretanto, por conta de um acidente de trabalho, Bispo do Rosário se desligou da empresa e, representado por Humberto Leone, moveu uma ação contra a Light. Humberto se tornaria seu patrão algum tempo depois. Para Bispo, a família de Leone representava a "Sagrada Família", a quem ele jurou fidelidade em troca de segurança, abrigo e comida.

"Manto de Apresentação", considerado o carro-chefe na obra de Arthur Bispo do Rosário

anna anjos037.jpgFace interna do "Manto de Apresentação", de Bispo do Rosário

O Natal de 1938 teria sido "revelador" para Bispo do Rosário: segundo ele, os anjos teriam comunicado que ele havia sido eleito pelo Todo-Poderoso: sua missão era julgar os vivos e os mortos e recriar o mundo para o Juízo Final. Segundo Marta Dantas "um dia, designado 'rei dos reis' por seres luminosos, ele teceria o próprio manto, vermelho, salpicado de bordados, se faria coroar e protagonizaria a própria via sacra." Guiado por vozes divinas, Bispo saiu às ruas para realizar sua via-crúcis, que teve como destino final o Mosteiro São Bento, onde Bispo resolveu comunicar aos sacerdotes sobre sua vocação. "Reconhecido" pelos monges, ele foi então levado ao Manicômio Praia Vermelha e, um ano depois, transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde viveu durante vários anos, internado sob o diagnóstico de esquizofrênico-paranóico.

Chess_board_full_1024x999.jpg"Tabuleiro de Xadrez", de Bispo do Rosário

Na Colônia, Bispo do Rosário contava sobre suas "várias" aventuras pelo mundo. Segundo os registros da Marinha, entretanto, Bispo do Rosário teria viajado apenas pelo costa litorânea brasileira. Em História da Loucura, de Foucault (Perspectiva, 2004), "(...) a água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem."

8024947386_8dcd11ed5b_o.jpgFragmento da obra de Bispo do Rosário na 30ª Bienal de São Paulo (Foto: Raul Lisboa, 2012)

8024937606_8c1a7ce5b0_o.jpgFragmento da obra de Bispo do Rosário na 30ª Bienal de São Paulo (Foto: Raul Lisboa, 2012)

anna anjos032.jpg"Cama de Romeu e Julieta", madeira, tecido e colchão, de Bispo do Rosário

Em 1982 o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro expôs alguns exemplares do universo de Bispo numa coletiva reunindo presidiários, menores infratores e idosos, intitulada À margem da vida. A princípio ele não quis participar, mas depois acabou cedendo algumas de suas obras.

Bispo do Rosário faleceu em 1989. Segundo Marta Dantas, "ele fez do hospício seu lar e do seu quarto-forte o seu mundo. Ajudava bastante no dia-a-dia do pavilhão, mas não pensava duas vezes antes de reclamar quando não havia uniforme e roupa de cama limpos; reivindicava o conserto das infiltrações (...), resistia às prescrições médicas e mantinha em dia sua crítica à Psiquiatria."

Sob curadoria do crítico de arte Paulo Herkenhoff, a exposição Poética da Percepção realizada em 2008 traz uma citação ao Bispo no Glossário dos Sentidos, catálogo da mostra: " A obstinação severa de Arthur Bispo do Rosário em realizar sua obra em um hospital psiquiátrico é singular. Parte de seus bordados e objetos tomava forma através de linha desfiada de seu uniforme azul dos internos psiquiátricos da Colônia Juliano Moreira. Quando a roupa é a segunda pele, a obra de Bispo do Rosário se construiu com fios de pele: pele sobre a carne do objeto. Bispo do Rosário não admitia desvios em seu processo de produção que pudessem involuntariamente redirecioná-lo para as terapias violentas na Colônia: a lobotomia, o eletrochoque (eletronarcose) ou a química. Contra a intervenção na carne, Bispo do Rosário propôs a substituição pelo verbo bordado ou escrito, pela imagem, pela coisa, pelo fazer incessante. Produzir era guiar-se, não apenas em resposta à loucura, mas contra a instituição psiquiátrica."

8024956769_6c5e0d64b8_o.jpgFragmento da obra de Bispo do Rosário na 30ª Bienal de São Paulo (Foto: Raul Lisboa, 2012)

8024934818_3729118170_o.jpgFragmento da obra de Bispo do Rosário na 30ª Bienal de São Paulo (Foto: Raul Lisboa, 2012)

anna anjos034.jpg"Cestas e canecas coloridas, assemblage" em suporte de madeira e papelão, de Bispo do Rosário

A impressão que se tem diante da obra de Arthur Bispo do Rosário é que ele visaria uma salvação total. Através da mitopoética construída a partir de suas listas de nomes e tecidos bordados, talvez Bispo pretendesse incluir na sua obra-arca todas as coisas, pessoas, pensamentos e sonhos. Na tentativa de descobrir o sentido (ou denunciar a falta deste), Bispo organizava seus resíduos míticos: coletava sapatos, canecas, garrafas, talheres, embalagens de produtos descartáveis, botões, estatuetas e tudo o que foi perdido ou esquecido, na tentativa da construção de uma segunda “arca de Noé”, elencando os que deveriam ser "salvos".

Sua arte genial chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris. Realizando suas obras de modo absolutamente intuitivo, Bispo do Rosário nunca freqüentou escolas de arte ou leu um livro, tampouco manipulou tintas ou criou esculturas. Contudo, ele costurou, bordou, colou, pregou ou criou composições de objetos já prontos. Brincando com as palavras, Bispo do Rosário quebrou o tempo linear: construindo e desconstruindo sua poética, ele gerou o mosaico de sua existência e produziu um dos mais fantásticos conjuntos de obras referenciais da arte contemporânea brasileira. Nas palavras do poeta Hölderlin: "Tudo é ritmo, todo o destino do homem é um só ritmo celeste, como toda obra de arte é um ritmo único, e tudo oscila dos lábios versificadores do deus..."


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