Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

Os leões de Mestre Nuca

Em 1968, ainda trabalhando na roça e plantando cana-de-açúcar para sobreviver, Mestre Nuca confeccionou em barro seu primeiro leão. Desde então, o animal de postura imponente e juba encaracolada tornou-se sua marca registrada e ocupa espaços públicos como os jardins do Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro.


mestrenuca-leao.jpg"Leão", cerâmica de Mestre Nuca - Acervo da Galeria M´Boitatá, MG

Mestre Nuca de Tracunhaém nasceu em 1937, no Engenho Pedra Furada, município de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Iniciou-se na arte da cerâmica ainda criança. Cidade vizinha a Tracunhaém, a feira de Carpina era o local onde Nuca ainda jovem comercializava os brinquedos de barro que criava, quase sempre influenciados pelos trabalhos dos mestres Lídia Vieira e Zezinho.

e4d-exposição_coletiva_2010-grid_8.jpgLeões de Mestre Nuca - Exposição Coletiva, 2010

nuca.jpgMestre Nuca de Tracunhaém (Foto: Rildo Moura, 2002)

Considerado um dos mais importantes e expressivos trabalhos populares da região, o leão de Nuca talvez seja inspirado nos leões de louça portuguesa que decoravam os jardins e varandas de muitos casarões antigos do Recife. Mas o artista tem uma explicação simples para sua arte em barro: "Sou do signo de Leão". Talvez os astros ajudem, mas a explicação está nas mãos que moldam e esculpem, tarefa esta que envolve toda a família – orgulho de Mestre Nuca.

mestre.jpgCerâmicas de Mestre Nuca

Em 1960 Nuca se casou com Maria Gomes da Silva, com a qual teve seis filhos. Trabalhando na roça e plantando cana-de-açúcar para sobreviver, Mestre Nuca confeccionou em 1968 seu primeiro leão sentado de postura imponente e juba encaracolada a pedido de um antiquário e, desde então, o animal tornou-se sua marca registrada. "Toda vida minha família trabalhou em engenho de açúcar, em Nazaré da Mata, onde nasci. Em 1940, tinha uns 8 pra 9 anos, quando chegamos a Tracunhaém. Eu já amassava umas bolinhas de barro. Meu pai arrumou um terreno, construiu um rancho e a gente ficou na cidade. A vida no canavial é muito dura. Aqui a gente cuidava do nosso roçado. Tinha muito barro por aqui. Eu fazia panelinha, cavalinho para brinquedo, ferro de engomar para as meninas brincarem, bonecas e tudo isso era levado para as feiras de Carpina. Já grande, continuei fazendo, pois achava que tinha gente demais fazendo santo por aqui. Então resolvi que ia fazer coisa diferente. Um leão e um cachorro. Era mais ou menos 1968 para 69. Minha mulher, Maria, ajudou. Então, recebi um pedido do Recife. Isso foi lá pelo ano de 1970. Nunca tinha feito isso antes. Fiz o bicho e Maria inventou o cabelo. Ela resolveu que ia botar no leão o cabelo das bonecas que eu fazia. Nas bonecas, ela era quem enfeitava e colocava os cabelos. Foi assim que surgiu o leão cacheado, que ficou logo muito conhecido. Eu fiz também o leão com cabelo liso e parece que gostaram também. Isso foi muito bom, porque quando comecei nem imaginava viver só da arte. Com ela, conheci o mundo e criei minha família", disse o artista.

nuca.jpgCerâmica de Mestre Nuca

A arte de Nuca tornou-se progressivamente conhecida e prestigiada. O artista conheceu e conviveu com diversos ceramistas em feiras e salões de arte popular, entre eles Zé do Carmo, Ana das Carrancas e Mestre Vitalino. Participou de uma feira em São Paulo, organizada pela Empresa de Turismo de Pernambuco - Empetur, em 1976, o que ajudou a torná-lo conhecido nacionalmente. Quatro anos depois, o artista conseguiu ultrapassar as fronteiras brasileiras levando seu trabalho para Lima, no Peru.

As obras de Mestre Nuca estão presentes em antiquários, coleções particulares, galerias de arte, museus e em espaços públicos, como as praças do 1º Jardim em Boa Viagem e a Tiradentes, no Recife, e nos jardins do Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro. Em 2005, Mestre Nuca recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco pelo Governo do Estado.

Atualmente impossibilitado de trabalhar com o barro, três filhos do artista seguem o ofício do pai: a esperança concretizada de que o trabalho de Mestre Nuca não terminará com ele. As filhas, segundo ele, não quiseram aprender. Mas os netos já ficam por ali, amassando bolinhas de barro.


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