Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

Os primeiros jogos de tabuleiro da história

O ato de jogar e envolver-se em cenários verossímeis de "realidades inventadas" é uma característica comum dos povos desde o início da civilização. Conheça os primeiros jogos de tabuleiro da história.


senet.jpgO "Senet" teria sido o primeiro jogo de tabuleiro da história

Os primeiros jogos teriam surgido há cerca de 5.000 anos a.C., em regiões da Mesopotâmia e Egito. Tanto o Senet quanto o Jogo Real de Ur (os mais antigos jogos de tabuleiros) eram chamados de "jogo de passagem da alma". Os jogos eram itens indispensáveis após a morte, pois os povos daquele período acreditavam que o ato de jogar poderia ser uma forma de diversão eterna. Assim, segundo a tradição mesopotâmica, os jogos pertencentes aos falecidos eram enterrados juntamente com seus bens pessoais, salvando-lhes do tédio infinito.

663px-Maler_der_Grabkammer_der_Nefertari_003.jpgNefertiti e o "Senet", o jogo de tabuleiro egípcio

800px-Royal_game_of_Ur,at_the_British_Museum.jpgTabuleiro do "Jogo Real de Ur" - Museu Britânico

A partir de 31 a.C., através da rota da seda (a principal fonte de troca comercial e cultural da época), à medida em que entraram em contato com novos povos, os jogos de tabuleiro sofreram diversas adaptações. Segundo o pesquisador Theo Van Ees "(...) arte, religiões, novas ideias e conhecimentos, e também ouro, marfim, porcelana, cavalos e plantas e animais exóticos, todos viajaram por essa rota, transportados por soldados, viajantes e mercadores". De origem romana, o XII scripta exemplifica esse sincretismo: o jogo chegou em regiões improváveis como o Uzbequistão e acabou influenciando os tabuleiros de Gamão do Norte da China.

normal_Ludus_XII_Gamepieces_37.jpg"Ludus duodecim scriptorum", jogo de tabuleiro romano

KnightsTemplarPlayingChess1283.jpgTemplários disputando uma partida de Xadrez - Iluminura do "Libro de los juegos", 1283

Outro jogo que parece ter sofrido modificações ao tomar contato com novos grupos sociais foi o Chaturanga, o possível precursor do Xadrez. Ele teria surgido na Índia e suas peças representariam as quatro divisões do exército: infantaria (peão), cavalaria (cavalo), elefantes (bispo) e carruagens (torre). Através do contato com a cultura persa, o jogo se espalhou pelo oeste europeu, por volta de 1000 – 1100 d.C., mas as regras que conhecemos atualmente foram definidas apenas em 1475, onde o vencedor é aquele que consegue deixar o rei adversário sem escapatória da morte (xeque-mate).

Jogo-da-Onça_620x358.jpgConhecido por certas tribos indígenas do Brasil, o "Jogo da Onça" teria origem inca

Na América, o Jogo da Onça era parte da cultura de algumas tribos indígenas brasileiras. Esse jogo foi encontrado entre os Bororos, no Mato Grosso, onde é conhecido como Adugo, bem como entre os Manchineri, no Acre, e os Guaranis, em São Paulo. (Provavelmente de origem inca, este jogo tem como objetivo capturar as peças do jogador, deixando o adversário sem possibilidade de movimentação, semelhante ao jogo de Damas).

Alguns séculos mais tarde, após o período da Revolução Industrial, houve uma grande difusão dos jogos de tabuleiro. Com a possibilidade de produção em massa, alguns pequenos fabricantes começaram a produzir versões dos jogos clássicos e novos jogos para atender a demanda da classe média emergente, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Com o passar dos anos os pequenos produtores de jogos formaram uma lucrativa indústria cultural.

Z0009791.jpg"Jogo da Vida", um dos jogos de tabuleiro mais conhecidos

Apesar dos primeiros jogos industriais não terem praticamente nenhuma preocupação com estratégia (valendo-se de mecânicas bem simples a julgar pelos padrões atuais), o Jogo da Vida , lançado em 1860, é considerado o marco da era moderna dos jogos de tabuleiro. Em seu ano de lançamento foram vendidas mais de 45 mil cópias. Apesar disto, o jogo de tabuleiro mais popular do mundo é o Monopoly (conhecido no Brasil como Banco Imobiliário). Lançado em 1904, ele foi baseado no The Landlord’s Game, de Elizabeth J. Magie Phillips, que o criou com o objetivo de ensinar a teoria do economista Henry George sobre taxa simples.

USA-LandlordsGame-1904-Thomas-Forsight-large.jpg"The Landlord’s Game", jogo de tabuleiro que inspirou o "Banco Imobiliário"

A relação européia com os jogos de tabuleiro foi intensificada durante a Segunda Guerra Mundial. Um fato curioso é que, durante este período, o serviço secreto britânico criou um sistema de fuga para ajudar os prisioneiros de guerra presos nos campos de concentração alemães. As falsas "entidades filantrópicas" enviavam mantimentos e outros produtos aos prisioneiros: mapas eram impressos no verso de cartas de baralho, além de dinheiro alemão, que eram colocados em tabuleiros de Damas e Monopoly.

Após 1945, os jogos de estratégia e a abordagem de conflitos econômicos e construção de civilizações ganharam ainda mais força (exceto no mercado alemão, que após a Segunda Guerra Mundial censurou estritamente jogos de tabuleiro com a temática bélica, evitando a todo custo a proliferação de idéias militares e expansionistas). Os mapas de jogos como Britannia, Civilization e Conquest of the Empire apresentavam divisões de províncias ou regiões em vez de hexágonos, procurando uma caracterização visual cada vez mais realista e complexa.

1132967416_14.jpg"Civilization", um dos jogos de tabuleiro mais famosos da década de 1980

O ato de jogar e envolver-se em cenários verossímeis de "realidades inventadas" é uma característica comum dos povos desde o início da civilização. Ao longo da história, os homens desenvolveram inúmeros jogos de tabuleiro, que refletiram sua lógica e raciocínio, revelando o modo com o qual cada um dos grupos sociais compreendia o seu próprio ambiente. Os jogos são muito mais que um mero "fazer de conta": freqüentemente símbolos de luta (seja luta entre homens, entre homens e divindades, ou ainda, a luta contra obstáculos a serem transpostos segundo regras preestabelecidas), uma de suas principais características é a dimensão objetiva, fixa, suas regras próprias, tempo limitado e seu espaço demarcado. Segundo Marilena Chauí, "o estudo de qualquer comportamento ou crença entre povos primitivos, por mais raros que sejam, tem importância direta para o conhecimento de nossa própria cultura complexa, pois parece que os seres humanos em toda parte modelam suas crenças e comportamento em reação aos mesmos problemas humanos fundamentais".

O termo Homo ludens (cunhado por Huizinga para referir-se ao homem jogador) estabelece que o jogo é uma categoria primária da vida, tão essencial quanto o raciocínio (Homo sapiens) e a fabricação de objetos (Homo faber). Assim, o lúdico seria o elemento que está na base do surgimento e desenvolvimento da sociedade humana. Talvez na tentativa de minimizar as agruras diárias na busca da sobrevivência, o Homo ludens teria buscado a ajuda dos deuses, valendo-se de peças reais, tais como os dados, por exemplo, utilizados com frequência nas adivinhações. Dado, aliás, provém do latim (dadus), uma forma do verbo "dar", ou seja, "dado pelos deuses".


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Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com.
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