Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

O livro das maravilhas do mundo

Pioneiros na literatura de viagem, os relatos de Marco Polo em O Livro das Maravilhas viraram um best-seller em sua época. Foi o livro de cabeceira do genovês Cristóvão Colombo e de vários navegadores interessados em chegar ao Oriente. Com uma narrativa rica em detalhes e imaginação, a obra de Marco Polo não cativou apenas exploradores: sua descrição do palácio do imperador chinês inspirou o poema "Kubla Khan", de Samuel Coleridge e "As Cidades Invisíveis", de Ítalo Calvino.


Marco Polo.jpgFamília Polo partindo de Veneza - Biblioteca Bodleian, Oxford, 1430

Pioneiros na literatura de viagem, os relatos de Marco Polo - reunidos no volume O Livro das Maravilhas - viraram um best-seller em sua época. Foi o livro de cabeceira do genovês Cristóvão Colombo e de vários navegadores interessados em chegar ao Oriente. Entretanto, não cativou apenas exploradores: sua descrição do palácio do imperador chinês inspirou o poeta inglês Samuel Coleridge a escrever o poema Kubla Khan. A influência da obra de Marco inspirou outros diversos autores da literatura reverberando ao longo dos séculos.

Marco Polo, que nasceu em 1254, na Dalmácia (região que abrange territórios da Croácia, Bósnia e Herzegovina) teria acompanhado seu tio e seu pai, Niccolo Polo, em uma viagem comercial para o leste. Um ano depois, quando pretendiam voltar, uma guerra entre dois governantes mongóis obrigou a família a fazer um imenso desvio até Bukhara (atual Uzbequistão), onde ficaram retidos por três anos. Quem os salvou foi um emissário de Hulagu, um dos imperadores do conflito. Entretanto, ao invés de auxiliá-los em sua volta a Veneza, Hulagu convenceu os Polo que Kublai Khan - neto de Gengis Khan e imperador da China - nunca havia visto um ocidental, e que adoraria conhecê-los.

119r.jpgPágina do Manuscrito Medieval das viagens de Marco Polo - Biblioteca Bodleian, Oxford

Estimulados pela aventura decidiram viajar com Hulagu até o palácio de verão de Kublai Khan, em 1275. Recebendo a família com satisfação, o imperador não poupou o trio de uma série de perguntas sobre a Europa, a Igreja cristã e o papa. Fluentes em dialetos turcos e sem apresentar nenhuma objeção às perguntas de Kublai, eles rapidamente conquistaram a simpatia do imperador, que lhes concedeu o status de nobres de sua corte.

Hábil no aprendizado de idiomas, com um enorme interesse pela flora, fauna e recursos naturais, o jovem Marco Polo logo se tornou um dos preferidos do imperador. Ele teria sido incumbido por Kublai de várias missões, na própria China, além da Birmânia e Índia. Ao longo desse período, Marco conheceu bem cada um dos povos. A China de Kublai Khan foi descrita por Marco como uma potência econômica e militar muito mais relevante do que a Europa. Exemplos disso eram a produção de ferro (cerca de 125 mil toneladas anuais - marca que os europeus só alcançariam cinco séculos depois) e de sal (uma única província obtinha 30 mil toneladas de sal por ano). Marco Polo também observou que havia um amplo sistema de transporte baseado em canais, que ligava mercados e cidades chineses.

43v.jpgPágina do Manuscrito Medieval das viagens de Marco Polo - Biblioteca Bodleian, Oxford

Em Yarkan (região do deserto chinês de Taklamakan), por exemplo, ele notou que o bócio apresentado por muitos habitantes tinha origem na água consumida no local. Na província de Pem, um marido que se ausentava por mais de 20 dias era substituído por outro com a concordância da comunidade, enquanto o homem que viajava também podia relacionar-se com mulheres diferentes. No Tibete, após os bebês nascerem, as mulheres se levantavam para trabalhar e o pai da criança passava 40 dias deitado.

62r.jpgPágina do Manuscrito Medieval das viagens de Marco Polo - Biblioteca Bodleian, Oxford

Caravane_Marco_Polo.jpgCaravana de Marco Polo viajando às Índias, autor desconhecido, 1375

Outros detalhes que chamaram a atenção de Marco foram o emprego disseminado de carvão para aquecimento e o uso de roupas de amianto. (O carvão já era usado em território europeu naquela época porém, muito provavelmente, Marco o desconhecia). Graças ao produto, qualquer chinês - um povo bem asseado, segundo o veneziano - podia ter seu próprio banheiro em casa. (A resistência das roupas de amianto ao fogo surpreendeu tanto os Polo que, na volta à Europa, eles resolveram presentar o papa Gregório X com duas peças).

Os Polo viveram na China de Kublai Khan durante cerca de vinte anos e acumularam muitas riquezas. Entretanto, sentindo que não poderiam confiar nos favores do sucessor do idoso Kublai, a família decidiu regressar a Veneza. A viagem durou cerca de três anos (incluindo um longo percurso de navio, durante o qual centenas de passageiros e tripulantes morreram por causas desconhecidas). Chegaram em território europeu no inverno de 1295, barbudos e com roupas esfarrapadas.

1r.jpgPágina do Manuscrito Medieval das viagens de Marco Polo - Biblioteca Bodleian, Oxford

Em 1298, a Guerra de São Sabas reavivou-se (o conflito entre as repúblicas marítimas de Gênova e Veneza ocorreu durante o período em que a família Polo residiu no Oriente). Marco Polo teria exercido um cargo de comando na frota veneziana, que custou-lhe um ano de prisão. Prisioneiro em Gênova, Marco ditou a história de suas viagens; não tratava, porém, de assuntos pessoais, sua preferência era descrever as regiões africanas e asiáticas com as quais estava razoavelmente familiarizado. Em 1299, representantes dos lados em conflito assinaram um tratado de paz, com a intervenção do papa. Em 1300, Marco casou-se com Donata Badoer, que pertencia a uma importante dinastia de Veneza e com quem teve três filhas. Marco morreu no início de 1324, aos 69 anos. Pouco antes de falecer teria dito que todos os detalhes de seu livro eram verdadeiros.

121200-004-96639C57-thumb-600x478-29480.jpgA família Polo apresentando a carta do papa à corte de Kublai Khan, detalhe de manuscrito Iluminista - Biblioteca Bodleian, Oxford

A obra O Livro das Maravilhas sempre esteve sob algum tipo de suspeita, em especial nos primeiros séculos. Quando foi lançada, ela era chamada Livro do Milhão de Maravilhas do Mundo ("Milhão" é o nome de uma máscara do antigo carnaval veneziano que representava o "contador de mentiras"). Até o século 16, quando os portugueses se instalaram em Macau, O Livro das Maravilhas era considerado apenas um texto divertido). A dúvida sobre a real autoria do livro se deu principalmente pela falta de citações de detalhes chineses que chamariam a atenção de qualquer estrangeiro, como o chá, a caligrafia ou a Grande Muralha. A revisão da obra de Marco Polo iniciou no século 19, com edições críticas e avaliação de seu conteúdo científico. Os relatos foram comparados com fontes chinesas e validados. O resgate mais valioso da credibilidade de Marco veio através da viagem do pesquisador francês Paul Pelliot, entre 1906 e 1908, que realizou o trajeto indicado pela família Polo e confirmou muitas das informações descritas.

O maravilhoso estava na fronteira entre o natural e sobrenatural (a primeira maravilha era a própria criação - homem e natureza - oferecida pelo Deus dos cristãos à humanidade). Isso porque, durante a Idade Média, o viajante encarava os itinerários como uma demanda do sagrado: essa era a possibilidade de ver seus pecados perdoados e ter salva sua alma. O ato de viajar era transcender os limites geográficos e ultrapassar as fronteiras externas e internas, uma via de construção entre o homem e o espírito. Talvez esse seja o segredo do grande sucesso da obra O Livro das Maravilhas ao longo dos séculos: os relatos das viagens medievais intercalavam frequentemente a realidade (descrições advindas da observação) e os aspectos transcendentais, maravilhosos, fantásticos que os viajantes encontravam, desafiavam ou venciam. E com esse estilo de narrativa conciso e rico em imaginação, O Livro das Maravilhas de Marco Polo é até hoje um modelo para a literatura de viagem.


Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com.
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