Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

Os vitrais medievais

Os primeiros vitrais medievais surgiram no século 10 em Catedrais da França e Alemanha. Coloridas e imensas, essas janelas adornadas eram verdadeiras Bíblias de luz, que revelavam a História Sagrada, a história dos homens e as verdades da fé.


DETAIL OF GOD – BOPPARD 8TH COMMANDMENT PANEL.jpgDetalhe de vitral da Igreja Carmelita em Boppard, Alemanha, século XV - Boppard Conservation Project - The Burrell Collection

O desenvolvimento comercial europeu durante a Idade Média abriu espaço para novas possibilidades estéticas. Na qualidade de representantes do poder clerical, as igrejas medievais demonstraram todo o progresso técnico e material da época, lançando-se à frente da construção de vitrais góticos. Construídos durante o século 10, os primeiros modelos, entretanto, eram bastante rústicos: resumiam-se a alguns buracos feitos no muro preenchidos com cristais coloridos. À medida em que as técnicas de construção foram se aperfeiçoando, a parede foi sendo gradativamente substituída por grandes janelas coloridas.

cropped-45-485-1-text_01.jpgDetalhe de vitral da Igreja Carmelita em Boppard, Alemanha, século XV - Boppard Conservation Project - The Burrell Collection

DETAIL – BOPPARD ANNUNCIATION PANEL.jpgDetalhe de vitral da Igreja Carmelita em Boppard, Alemanha, século XV - Boppard Conservation Project - The Burrell Collection

Imensos e adornados com santos em passagens bíblicas, os vitrais atraíam cada vez mais fiéis às Catedrais. "As janelas envidraçadas que estão nas igrejas e pelas quais (...) se transmite a claridade do sol, significam as Santas Escrituras, que afastam de nós o mal, enquanto nos iluminam", escrevia Pierre de Roissy, chanceler da Catedral de Chartres, por volta de 1200. Assumindo cada vez mais importância dentro do universo religioso, esses vitrais eram considerados pelo Papa Leão XIII "o verdadeiro espírito do Evangelho": ensinavam a História Sagrada, a história dos homens e as verdades da fé. De fato, em muitos dos vitrais medievais, a importância da luz e da cor foi maior do que a do próprio desenho.

A qualidade luminosa dos vitrais corresponderam aos conceitos metafísicos de luz e espiritualidade desenvolvidas pelos teólogos cristãos. (Não há menção, antes do século 4, da fabricação de janelas com vidros coloridos; tampouco este tipo de construção foi desenvolvida durante o Renascimento, que preferiu o vidro incolor).

yorkMinstersMedievalStainedGlass-Craig Greenwood.jpgDetalhe de vitral da Catedral de Iorque, Inglaterra (Foto: Craig Greenwood)

Vitraux_Cathédrale_de_Laon_St_Etienne_150808_1.jpgDetalhe da Catedral de Laon, França

A aura colorida do vitral foi elaborada para tornar-se um mediador entre os reinos terrenos e divinos, uma manifestação metafórica da força divina e do amor. Do mesmo modo, a estrutura dessas Catedrais góticas não parece resultado de meros cálculos arquitetônicos. De acordo com Fulcanelli, autor de O Mistério das Catedrais (Madras, 2007), a planificação das igrejas medievais forma uma cruz estendida no solo. Dentro da alquimia, essa cruz é símbolo do crisol (ou seja, do ponto em que uma determinada matéria perde suas características iniciais para se transmutar em outra completamente diferente). Simbolicamente, a igreja teria então o objetivo iniciático de fazer com que o homem comum, ao adentrar seus mistérios, renascesse para uma nova forma de existência, mais espiritualizada.

As artes criadas para os vitrais eram pensadas em apenas duas dimensões. A ilusão de volume e perspectiva não era possível nesse caso, pois os desenhos eram atravessados pela luz (e não iluminados pela luz ambiente).

DETAIL FROM 8TH COMMANDMENT PANEL.jpgDetalhe de vitral da Igreja Carmelita em Boppard, Alemanha, século XV - Boppard Conservation Project - The Burrell Collection

Para a criação de um vitral, o pintor fazia um esboço do desenho a ser aplicado em cima do vidro. Enquanto isto, diversas sessões de aquecimento preparavam o vidro para assumir as formas e colorações da arte.

Realizando a fundição e a modelagem dos perfis de chumbo, os vitralistas aqueciam as peças de vidro coloridas até atingirem o seu ponto de quebra. Valendo-se de um estilete com ponta de diamante, o artesão recortava o vidro, encaixava-o na armação e empregava uma massa que impediria a passagem de água pelo vitral. Utilizado para a fabricação de vidros até o século 13, o potássio foi substituído pela soda: ela inibia a formação de bolhas nos vidros, favorecendo sua decomposição pela refração da luz.

O contraste era criado a partir das formas destacadas sobre o fundo (vermelho sobre azul, verde sobre vermelho) e reforçado pelas barras de chumbo que, circundando os contornos do desenho, serviam não apenas para reunir solidamente os pedaços de vidro, mas também para realçar as formas com nitidez.

BOPPARD TEN COMMANDMENTS WINDOW – VIRGIN AND CHILD.jpgDetalhe de vitral da Igreja Carmelita em Boppard, Alemanha, século XV - Boppard Conservation Project - The Burrell Collection

2_05_mono-oligoscenic_chartres_142_stLaumer e StMarie De Egypt.jpgSanto Laumer e Santa Maria, a egípcia - Detalhe de vitral da Catedral de Chartres, França

Em História Geral da Alquimia (Pensamento, 2010), o autor Serge Hutin afirma uma relação entre a execução dos vitrais e a alquimia: "Houve, durante a Idade Média, interferências entre a alquimia e certas realizações técnicas devidas a 'habilidades' que se conservaram ocultas, como a arte do vitral. Hoje, ainda, mestres vidreiros não puderam encontrar o meio de conseguir certos tons de vermelho usados em vitrais da Idade Média e para os quais seria necessário o uso do ouro."

Vitrail_Choeur_Laon_260808_7.jpgDetalhe da Catedral de Laon, França

Segundo uma recente pesquisa divulgada pelo professor Zhu Huai Yong, inúmeros vitrais de igrejas pela Europa foram decorados com vidro colorido por meio de nanopartículas de ouro. Zhu acredita que os primeiros vidraceiros medievais foram os primeiros nanotecnólogos: eles produziram as cores com nanopartículas de ouro de diferentes tamanhos que, energizadas pelo sol, eram capazes de destruir poluentes do ar como produtos orgânicos voláteis. "Por séculos as pessoas apreciaram apenas os belos trabalhos de arte, e a longa duração das cores, mas elas não percebiam que esses trabalhos também eram, em linguagem moderna, purificadores de ar fotocatalíticos, com catálise de ouro nanoestruturado", disse Zhu.

BURRELL COLLECTION – PRINCESS CECILY FROM THE ROYAL WINDOW IN CANTERBURY CATHEDRAL.jpgPrincesa Cecília, Catedral de Cantuária, Reino Unido - The Burrell Collection

PRINCESS CECILY PANEL – FACE DETAIL SHOWING HATCHING.jpgPrincesa Cecília, Catedral de Cantuária, Reino Unido - The Burrell Collection

1280px-Paris-SainteChapelle-Interieur.jpgInterior da Sainte-Chapelle, França

A técnica de produção dos vitrais góticos teve seu apogeu no século 13, estabelecendo a Catedral de Chartres e Bourges como as mais importantes instituições da fé e da beleza mística durante a Idade Média. No século 15, com o Renascimento e a construção da Basílica de São Pedro, os vitrais caíram em desuso. Em 1848, o arquiteto francês Eugènne E.Villet-le-Duc procurou retomar o vitralismo através da restauração da Sainte-Chapelle.

chapelle_rayonnante_cathedrale_bourges_1.jpgCatedral de Bourges, França (Foto: Gérard Therin)

A composição de vitrais reapareceria a partir de 1900, dessa vez ligada às pesquisas de pintura, como as experiências de luz e cor do abstracionismo. Servindo de acessório à arquitetura, os vitrais foram utilizados na Capela de Notre Dame Du Haut, construída entre 1950 e 1955 por Le Corbusier, em Ronchamp.

À medida em que a luminosidade externa atravessava os vitrais das Catedrais, o interior desses ambientes sagrados era invadido pela luz de Cristo, de Nossa Senhora, dos anjos, dos patriarcas e dos profetas, dos apóstolos e dos mártires. Guardiãs da História Sagrada e da história dos homens, essas Bíblias de luz reafirmavam a cada momento a crença no divino e estabeleceriam-se, assim, como metáforas da fé.

--- Acompanhe a série especial sobre a Idade Média:

A Tapeçaria BayeuxO Oriente dos viajantes medievaisA Alquimia


Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes & ideias// //Anna Anjos