Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

O Oriente dos viajantes medievais

As narrativas das viagens medievais (conhecidas como mirabilia) tinham como fio condutor as experiências dos viajantes, que revelavam um mundo desconhecido e insólito, em que não se via apenas com os olhos, mas também com os olhos "da alma": a imaginação.


liceti4[1].jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

Durante a Idade Média, viajar transcendia a deslocação geográfica e os itinerários eram encarados como uma demanda do sagrado. O destino e a finalidade das viagens era ir de encontro ao que estava escrito nos textos do Antigo e do Novo Testamento. “Esses lugares míticos ou santos, como o Reino de Preste João e o Paraíso Terrestre se perderam nas suas '(des)localizações'” - esclarece a pesquisadora Berenice Cavalcante - “o paradigma das viagens medievais era um misto de peregrinação, cruzadismo e dos ideais de cavalaria combinados num roteiro cuja finalidade era elevar o viajante em direção ao divino".

art.jpgIlustração da figura mitológica Manticora - Manuscrito ilustrado Rochester Bestiary, Biblioteca Britânica

O mito do reino do Preste João surgiu durante o século 12, na era das Cruzadas. “Preste” (corruptela de Prêtre; padre, em francês) foi um lendário cristão do Oriente e imperador da Etiópia, que detinha funções de patriarca e rei. Seu reino instigou a imaginação dos viajantes que, por gerações, saíram em sua busca, acreditando que somente assim a Terra Santa seria salva.

Claude Kappler reforça a ideia de que, durante a Idade Média, os viajantes partiam em busca de um mundo novo, “num lugar não definido em termos geográficos, mas idealizado, um lugar pra lá da fronteira que dividia a Europa da Ásia, o mundo visível, do desconhecido”. O poeta e escritor escocês Robert Louis Stevenson completa: “Só há maravilha quando o objeto extraordinário está localizado em apenas um lado do mundo e quando ele é exclusivamente estrangeiro. A exclusividade é a condição do espanto e da admiração”.

AN00448066_001_l.jpgGravura de Giovanni Battista de'Cavalieri - Museu Britânico, 1585

Um dos textos mais populares do fim da Idade Média foi um relato de viagem do cavaleiro inglês Jean de Mandeville ao Oriente. Seus registros falam de cinocéfalos, homens com cabeça de cachorro que latem em vez de falar, homens sem cabeça cujo rosto aparece no peito e pessoas que se alimentam do cheiro das frutas. Antes dele, os curiosos relatos de Marco Polo em O Livro das Maravilhas do Mundo motivaram outros navegadores interessados pelas novidades do Oriente.

Segundo Paulo Lopes, mestre em História Medieval, “o universo que envolve os livros de viagens medievais dá bem a ver como o homem medievo é essencialmente um homo viator. Um homem cujo imaginário é ao longo dos séculos cada vez mais preenchido pela dimensão simbólica da viagem e dos espaços longínquos a ela associados. Um homem que anda sempre e vê sempre, seja pelos caminhos físicos do espaço que percorre, seja pelos caminhos iniciáticos que conduzem à salvação da sua alma.”

8b2fb5ed1fd87db855d7cc3158a5.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

O universo fabuloso de maravilhas e monstros medievais remonta a mitologia e aos Physiologus (“O Fisiólogo”), um manuscrito grego que apresenta uma série de lendas de origem indiana, egípcia e judaica. Alguns séculos mais tarde, por volta de 5 a.C., o historiador Heródoto teria contribuído com a obra ao mencionar formigas caçadoras de ouro, escorpiões alados, homens com pernas de aranha ou com orelhas que se embrulhavam para dormir (referindo-se às figuras mitológicas do Hinduísmo). Em 1 d.C., a obra História Natural, de Plínio (o Moço), tornou-se uma referência dos Physiologus antigos: seu conteúdo descrevia minuciosamente cada uma das “raças” monstruosas (humanas e animais) já encontradas.

9a797513433e4c903c190e5ae032.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

26cada17e3f38c9aca0fd2dcb048.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

108ffa506400bef6fe0e55cf3e46.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

221c3a99433e3b78c84b03b81a8a.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

4399244971a89df268959345d88b.jpg"De perfecta constitutione hominis in utero liber unus", de Fortunio Liceti - Padua, 1616

Jacques Le Goff, historiador francês, esclarece que “a palavra physiologus, em grego, significa 'naturalista', portanto, os Physiologus eram obras de caráter enciclopédico e científico que reuniam um conjunto de saberes sobre os animais, vegetais e minerais. O fabuloso indiano foi alimentado por uma pseudo-ciência inspirada numa literatura apócrifa que a credulidade medieval acreditava sem dúvida nem exame.”

Blemmyes from Nuremberg Chronicle 1493.jpg"Nuremberg Chronicle", de Hartmann Schedel, 1493

Monopod Nuremberg Chronicle.jpgNuremberg Chronicle, de Hartmann Schedel, 1493

Dietrich_im_Kampf_mit_dem_Wilden_Mann,_Stuttgart_um_1470.jpgDietrich lutando contr o homem selvagem - Stuttgart, 1470

Narrativas fantásticas de seres inusitados e monstruosos foram encontradas também no famoso mapa-múndi de Hereford, da virada do século 13 para 14. Nele, a Índia e a Etiópia eram representadas por homens sem boca ou sem cabeça, com longas orelhas, além de registros de seres como sátiros, faunos e unicórnios. Outra publicação na qual tem-se a descrição de “raças” monstruosas está em Romance de Alexandre. Membro da corte de Alexandre, o historiador Calístenes narrou as conquistas do rei da Macedônia; algumas cópias representavam soldados de Alexandre com gigantes com o rosto no peito, ciclopes ou homens com seis braços. Também na Basílica de Vézelay, na França, esculpida no século 12, na cena de Cristo e seus apóstolos estão presentes dois homens com cabeça de cachorro.

Os monstros eram usados com freqüência pelos pregadores e conselheiros medievais, que valiam-se muitas vezes de homens deformados para pregar virtudes e anunciar punições. A intenção era metaforizar as características humanas: o orgulho e o poder era representado por gigantes, os pigmeus simbolizavam a humildade, os homens com cabeça de cachorro eram alegorias da discórdia.

Sebastian Munster (1489 - 1552).jpg" Cosmographia", gravura de Sebastian Munster, 1544

Monges e doutores da Igreja procuravam desenvolver a fé (sobretudo quando ameaçada pela expansão muçulmana) procurando adaptar todas as ideias aos ensinamentos bíblicos. Michel Zink, professor do Collège de France, comenta que os religiosos recolhiam elementos espantosos por curiosidade científica, que serviam para interpretar as manifestações, definindo-as como divinas ou diabólicas. “Eles se detinham bastante em demônios íncubos e súcubos, lobisomens, objetos ou personagens encantados. Essa tradição alimentou a nascente literatura produzida em idiomas falados localmente.”

Giovanni Boccaccio's book De claris mulieribus.jpg"De claris mulieribus", de Giovanni Boccaccio, 1374

A reunião dessas informações provocavam grande expectativa nos leitores. As narrativas das viagens medievais (conhecidas como mirabilia; do latim, mirabilis, maravilhoso), tinham como fio condutor as experiências dos viajantes, que revelavam um mundo desconhecido e insólito. Mas as mirabilia não eram fenômenos que os viajantes medievais viam apenas com os olhos, mas também com os interiores oculus, ou seja, com os olhos “da alma”, com a imaginação.

Imaginárias, interiores, e não exteriores, as viagens realizadas durante este período eram encaradas como uma forma de perdão dos pecados do viajantes, que acreditavam conhecer os lugares para onde se dirigiam, mas chegavam a lugares cuja existência jamais haviam imaginado. Viajar era uma experiência marcada pela maravilha (a figura central da resposta dos europeus ao Novo Mundo); era vivenciar – emocional e intelectualmente – a presença da diferença radical.

--- Acompanhe a série especial sobre a Idade Média:

Os vitrais medievaisA Tapeçaria BayeuxA Alquimia


Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/artes e ideias// @destaque, @obvious, eros //Anna Anjos
Site Meter