Anna Anjos

Anna Anjos é ilustradora e artista visual. Apaixonada por música, mitologia, folclore e antropologia cultural. | www.annaanjos.com

A alquimia

Mistura de três correntes filosóficas (grega, misticismo oriental e tecnologia egípcia), o estudo milenar da alquimia buscou o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal. Os tratados obtiveram grande êxito na metalurgia, na produção de papiros, aparelhagem de laboratório e contribuíram com descobertas como o arsênico e o ácido clorídrico ― além da invenção do famoso "banho-maria".


Saturne 2 - De Sphaera, manuscrit italien - XV° siècle.jpgTabela VIII de "De Sphaera estense", manuscrito de astrologia, século 15

A origem da alquimia se perde no tempo. Acredita-se que ela teria aflorado do taoísmo clássico (Tao Chia) e do taoísmo popular, religioso e mágico (Tao Chiao). Os relatos mais remotos de doutrinas que utilizavam os preceitos alquímicos aparecem em uma lenda que menciona, no ano de 4.500 a.C, o seu uso pelos chineses.

Na China, o mais famoso alquimista foi Ko Hung (seu nome verdadeiro era Pao Pu-tzu), que acreditava que com a alquimia poderia superar a mortalidade. A Ko-Hung atribui-se a autoria de mais de cem livros sobre o assunto, dentre os quais o mais famoso é O Mestre que Preserva sua Simplicidade Primitiva. Provavelmente devido à influências externas, os tratados de Ko-Hung introduziram o materialismo à alquimia que, antes, era puramente espiritual. Ela também foi influenciada pelo I Ching - O livro das Mutações. A filosofia hindu de 1000 a.C. apresentava algumas semelhanças com a alquimia chinesa como, por exemplo, o soma, cujo conceito assemelhava-se ao do elixir da longa vida.

I-Ching-trigrams.jpgYantra para meditação, retirado do livro "I-Ching - O livro das Mutações"

No Egito, a alquimia (Khemia) já era empregada, por volta do século III a.C., na cidade de Alexandria (o centro de convergência da época e de recriação das tradições gregas, pitagóricas, platônicas, estóica, egípcias e orientais). Dirigido pelo imperador Alexandre, reuniam-se escritos de uma antiga técnica egípcia chamada kymiâ, através da qual se desenvolvia o domínio dos processos químicos de embalsamamento e a manipulação de metais. Entrando em contato com a sabedoria grega, a kymiâ passou a considerar que toda matéria era constituída por quatro elementos básicos: terra, ar, água e fogo.

Durante a dominação romana sobre o Egito, a alquimia passou a ser condenada pelas autoridades imperiais. Com a oficialização do cristianismo, um grupo de hereges ligados à prática da alquimia foi perseguido pelas autoridades romanas, ordenada pelo imperador Constantino, em 330. Pelo uso de fórmulas e recitações mágicas destinadas a invocar deuses e demônios favoráveis às operações químicas, os alquimistas foram acusados de pacto demoníaco. Muitos deles foram presos, excomungados e queimados vivos pela Inquisição da Igreja Católica, que considerava ousadia e uma ofensa a Deus a busca pela vida eterna.

astr.1.jpgImagem retirada do "Livro de Imagens das Estrelas Fixas", por Ibn’ Umar al-Sufi (tradução árabe de "Almagesto", de Ptolomeo)

Os nestorianos, como ficaram conhecidos, refugiaram-se da perseguição religiosa na Pérsia. Assim, por questão de sobrevivência, os manuscritos alquímicos passaram a ser elaborados em formas de poemas alegóricos, incompreensíveis aos não iniciados. Cerca de mais de 2.000 a.C., sob a influência das ciências advindas do Oriente Médio, os alquimistas passaram a atribuir propriedades sobrenaturais às plantas, letras, pedras, figuras geométricas e os números eram usados como amuletos, como o 3, o 4 e o 7.

Alchemy_of_Happiness.jpg"A Alquimia da Felicidade", cópia persa - Biblioteca Nacional da França, 1308

A expansão islâmica foi relevante na preservação e ampliação dos conhecimentos alquímicos: o Alcorão previa que o conhecimento da natureza era uma forma louvável de aproximação com Alá. Por isso, muitos árabes passaram a estudar os elementos químicos e metais preciosos. Com o movimento cruzadista, na Baixa Idade Média (por volta do século 13 ao 15), a alquimia entrou em contato com o universo europeu.

Turba philosophorum, 16_ Jhdt.jpgA fada-sereia Mélusine, de Jean d'Arras, 1393

A alquimia não se reduzia apenas à atividades práticas: havia também o aspecto filosófico e o lado místico. O iniciado nas artes alquímicas precisava envolver-se constantemente em orações, mantendo sigilo absoluto dos conhecimentos que adquiria, além de dedicar-se ao conhecimento da astrologia. Mesmo sendo mal vista pela Igreja, a alquimia foi uma atividade comum entre alguns clérigos. Segundo os pesquisadores Luís Antônio Silva e Daniel Dias Gato, "em função das condenações proclamadas pela Igreja Católica aos alquimistas, durante a Idade Média, o cheiro de enxofre passou a ser associado ao diabo. Os alquimistas faziam suas experiências com enxofre comum, sendo denunciados pelos fortes cheiros emanados de suas casas ou laboratórios, o que permitia que fossem facilmente detectados e acusados de bruxaria e pacto com o demônio, pondo fim aos seus trabalhos. É também digno de registro a criação de Drácula, o vampiro, acusado de obter longevidade às custas do sangue humano. Seu surgimento não passou de uma bem sucedida tentativa para desmoralizar uma ordem mística alquimista, surgida na Idade Média, que trabalhava na obtenção do elixir da longevidade."

george_ripley_alchemy_dragon.jpgDragão dos pergaminhos alquímicos de George Ripley, século 15

Cercadas de mistérios, lendas e superstições, uma das histórias mais famosas que cercam a origem da alquimia (a que marcou de forma contundente essa ciência) foi a descoberta, durante a Idade Média, da Tábua de Esmeralda (Tabula Smaragdia), que foi atribuída a Hermes (O três vezes grande) Trismegisto (nome que representa o poder intelectual e pode ser identificado como sendo o deus egípcio Toth). Referências a ele já existiam nos tempos do filósofo Platão.

tabula.jpg"Título de Cobre" - Teosofia e Alquimia, de Hermes Trismegistus, 1657

Azoth-1.jpgVITRIOL, sigla em latim: "Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta"

Michael_Maier_Atalanta_Fugiens_Emblem_45.jpegEmblema 45, de Michael Maier - Atalanta Fugiens, 1617

9-Nortons's Ordinall.jpgOs quatro alquimistas: Geber, Arnaldo de Villanova, Rhasis e Hermes Trimegisto, 1477

Conta a lenda que os preceitos de Hermes foram gravados com uma ponta de diamante em uma esmeralda. A Tábua continha um dos mais sérios tratados a respeito dessa ciência e seu texto continha a máxima que é até hoje empregada na Lei das Correspondências, presente na Astrologia Moderna: "O que está embaixo é como o que está em cima, o que está em cima é como o que está embaixo, e através dessas coisas realizam-se os milagres de uma só coisa." Do nome de Hermes derivou o termo "hermético" e o "hermetismo", que significam "aquilo que é fechado, restrito". Isso porque era comum lacrar os frascos dos alquimistas com o selo de Hermes. Algo que é hermeticamente fechado significa inacessível. Ensinamentos herméticos são restritos aos iniciados e pessoas comprometidas com determinada área do ocultismo. (Advém daí a expressão "fechado hermeticamente").

img693-thumb-600x839-50039.jpg"Mutus liber", o livro sem palavras da alquimia, editado por Eugene Canseliet, 1677

Em 1380, motivado pela leitura de um antigo livro de autoria de Abraão, o Judeu (cujos textos intercalavam com enigmáticos símbolos de serpentes, virgens, desertos e fontes d’água), o francês Nicolau Flamel passou a dedicar-se exclusivamente à alquimia prática. Segundo conta-se, ele teria obtido prata em torno de 1382 e depois, finalmente, a transmutação em ouro. É de sua autoria as obras: O Livro das Figuras Hieroglíficas, de 1390, O Sumário Filosófico, de 1409 e Saltério Químico, de 1414.

A saúde invejável dele e de sua esposa, Perrenelle, foi atribuída aos conhecimentos alquímicos de Flamel. Após o falecimento do alquimista, em 1418, muitos caçadores de tesouros decidiram saquear sua casa, ávidos por encontrar a pedra filosofal ou receitas concretas para sua preparação. A lenda conta que, na realidade, o casal não morreu, e que em suas tumbas foram encontradas apenas suas roupas em lugar de seus corpos. Flamel deixou um testamento escrito a seu sobrinho, em que revelava os segredos que descobrira sobre a alquimia. O Testamento de Nicholas Flamel foi compilado na França no final dos anos 1750 e publicado em Londres alguns anos mais tarde. O documento original foi escrito de próprio punho por Nicholas Flamel, em um alfabeto codificado e criptografado que consistia em 96 letras, desvendado quase dez anos depois.

NigredoAlbedoRubedo-copia-1024x520.jpgNigredo, Albedo e Rubedo - "Ordinal of Alchemy", de Thomas Norton, 1477

A partir das obscuras etimologias e leitura enigmática, foram descobertos os três fundamentos principais da alquimia: transformar os metais chamados inferiores (principalmente o mercúrio e o chumbo) em ouro e prata, metais tidos como superiores; preparar uma panaceia que curasse as enfermidades humanas, que conservasse e devolvesse a juventude, prolongando a vida (a Medicina Universal ou o Elixir da Longa Vida); a transformação espiritual do alquimista, de homem caído em criatura perfeita. Os alquimistas também acreditavam que a matéria passaria por quatro estágios principais, que por vezes, também tem significado espiritual: a primeira delas, o Nigredo (ou "Operação Negra") é o estágio em que a matéria é dissolvida e putrefata (associada ao calor e ao fogo); o Albedo (ou "Operação Branca") é o estágio em que a substância é purificada (associada à ablução com Aquae Vitae, à luz da lua, feminina e à prata); Citrinitas (ou "Operação Amarela") é o estágio em que se opera a transmutação dos metais, da prata em ouro, ou da luz da lua, passiva, em luz solar, ativa; e o Rubedo (ou "Operação Vermelha"), o estágio final, em que se produz a Pedra Filosofal ― o culminar da obra ou do casamento alquímico.

PQAAAGJPg04yFETee2EnpkOZFbzmqSyaVqi97FAzDPQBUFQEPZKg6elxOXb4pTJsLOnbkfJnHG_6GhzgpFniRpIR02EAm1T1UCbRTr0y4b2ofIs9QqaA2vkhFESb.jpg"A Terra é sua nutriz", de Michael Maier - Atalanta Fugiens, 1617/18

Johann Daniel Mylius - Anatomia Auri - 1628 - Planche 5.jpeg"Anatomia Auri", de Johann Daniel Mylius, 1628

Também Roger Bacon e São Tomas de Aquino redigiram alguns experimentos onde relatavam a obtenção de ouro através de outras substâncias e, além disso, a criação de um homem mecânico. Durante o século 16, a alquimia começava a ganhar uma nova compreensão. O filósofo britânico Francis Bacon já acreditava que a alquimia poderia desenvolver outros promissores tipos de conhecimento científico. Um século depois, Robert Boyle começou a lançar alguns dos pontos que fundaria o nascimento de uma nova ciência: a química. Aparentemente suas idéias procuravam afastar-se do lado místico da alquimia. (O próprio Boyle acreditava, entretanto, que um metal poderia ser transmutado).

Amphitheatrum_sapientiae_aeternae_-_The_cosmic_rose.png"A rosa cósmica", gravura retirada do livro "Amphitheatrum Sapientiae aeternae", de Khunrath

A partir do século 18, o conhecimento científico passou a ganhar espaço frente os códigos e segredos da alquimia. A separação entre fé e razão (defendida pelo pensamento Iluminista) fez com que os conhecimentos alquímicos fossem vistos como mera "invencionice" (a tese de transformação dos elementos químicos seria comprovada por diversos estudos desenvolvidos dois séculos depois). Muitos dos instrumentos utilizados nos processos químicos foram elaborados pelo espírito empreendedor dos alquimistas; a eles se deve, por exemplo, a descoberta de substâncias como o arsênico e o ácido clorídrico. Uma das heranças dos alquimistas também foi o famoso "banho-maria"; a expressão homenageia a alquimista Maria, a Profetiza, a famosa fundadora judia-helenista da alquimia.

Envolta em obscuridade e mistério, o surgimento da alquimia confunde-se com a origem e evolução do homem sobre a Terra. Alguns estudiosos da alquimia admitem que o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal são temas simbólicos; originados de práticas de purificação espiritual taoísta, não poderiam ser considerados substâncias reais. Assim, o desejo de transformação de metais em ouro estaria diretamente ligado a uma metáfora de mudança de consciência: a "pedra" seria a mente insipiente, que é transformada em "ouro", ou seja, tornaria-se sábia.

--- Acompanhe a série especial sobre a Idade Média:

Os vitrais medievaisA Tapeçaria BayeuxO Oriente dos viajantes medievais


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